Luzes Na Floresta - Parte 1 da trilogia da Ocupação
Ocupação
Parte 1 – As Luzes na Floresta
I
Acordou. Os olhos ainda ardiam. A noite anterior fora uma verdadeira farra. Até mesmo seus professores tinham perdido a linha. Era o fim da viagem. Agora, sabia ele, era a hora da partida.
Charles levantou-se com esforço. Abriu o pequeno frigobar do quarto 120 do Hotel Fazenda Portal da Natureza. O Hotel era bem interessante. Vinte e cinco quartos por andar, quatro andares de um prédio construído ainda na era colonial, e que passara por inúmeras reformas. O lago, a esquerda do Hotel, era a visão do quarto de Charles. Do frigobar tirou um Gatorade. Era sua maior ajuda depois de festas, deixava-o completamente acordado. Já antecipava os momentos no ônibus de volta para o colégio e para as aulas do primeiro ano do Ensino Médio.
A saída estava marcada para ocorrer ao meio-dia. Charles deixara suas coisas arrumadas. Olhou para o relógio. Marcava meio-dia e vinte. Devia estar errado. Levantou-se, penteou os cabelos negros e lisos, e se olhou no espelho. Branquinho como era, fazia um contraste interessante com seus cabelos. Sempre gostara de se olhar no espelho. Se achava realmente bonito. De verdade.
Charles desceu as escadas do Hotel sentindo um calafrio. Não ouvia um som que fosse. Seria possível que o tivessem deixado? Não, seria uma tremenda falha de organização. Correu todo o estacionamento a procura do ônibus. Ninguém. Ficou desesperado. Correu de volta para dentro do Hotel, e foi batendo de porta em porta, cada vez maior o sentimento de solidão. Então chegou a última porta do primeiro andar. Bateu. Ninguém atendeu a porta. Bateu. Bateu...
Batidas. Batidas na porta. Será que era a hora de partir? Amanda acordou sonolenta. Ouviu então, vinda da porta, a voz de Charles:
- Por favor, alguém!
Amanda se dirigiu para a porta e a abriu. Sem ter tempo nem para respirar, Charles se jogou sobre ela, balbuciando palavras que ela não entendia.
Ela então empurrou Charles, e começou a falar:
- O que aconteceu, que escândalo é esse, já é hora de sair?
Charles então se acalmou:
- Eu sei que pode parecer estranho, mas deixaram agente aqui.
- Deixaram aqui, como assim?
- O ônibus foi embora e nós dois ficamos.
- Tem certeza que não tem mais ninguém?
- Tenho.
- Checou tudo?
- Bem, não tudo, mas eu tenho certeza.
- Ok, vamos procurar, se não acharmos, vamos esperar, vão dar falta de nós.
- É, vão.
Algo estava errado. O professor Jorge Marques sentia isso. Olhou para o ônibus. Deveria ser algum sentimento de culpa por ter esquecido de contar os alunos. Mas pelo que podia ver, estavam todos ali. Mas o ônibus estava tão silencioso... Charles deveria estar dormindo.
Por via das dúvidas, resolveu contar os alunos. Então, ao contar a última fileira, se deu conta: Charles e Amanda.
Andou, desesperado, até o motorista. Chamou-o:
- Precisamos voltar, ficaram duas pessoas.
- Então vamos, fazer o quê?
O motorista então observou um retorno uns trinta metros a frente. Freou o ônibus e reparou no enorme barranco ao seu lado. Então percebeu uma sombra. Logo acima do barranco. Estendeu as mãos. Ao perceber o que iria acontecer se desesperou. Acelerou o ônibus, mas não foi o suficiente. O barranco desabou sobre o ônibus. Provavelmente amassara toda a parte traseira. O motorista olhou para trás. Tudo amassado. Gritou. Ninguém respondeu. Saiu do ônibus. Uma tragédia. O que faria? Não tinha celular, nem qualquer outra forma de comunicação.
Lembrou-se que até o Hotel Fazenda eram uns dez quilômetros. O relógio marcava meio-dia e vinte e cinco. Se espantou com o tempo que demorara para dez quilômetros. Culpa da estrada, horrível. Se decidiu por andar até o Hotel. Começou. Um passo após o outro. Conseguiria. Mas e depois? Isso, decidiu ele, pensaria na hora que precisasse.
Amanda e Charles andavam pelos corredores do Hotel. Quando cheio, o local passava uma sensação de conforto, mas agora, vazio, a sensação de frieza tomava conta do local:
- Onde será que eles estão? - perguntou Amanda - Será que já estão vindo nos buscar?
- Imagino que sim. quer dizer, alguém deve ter reparado que nós não estávamos lá!
- É, devem ter reparado.
Uma hora se passou. Duas. E ninguém chegava. Já passava das três, e Charles e Amanda começaram a sentir fome.
- E aí, vamos comer o quê?
Perguntou Charles.
- Não sei - respondeu Amanda - Quem sabe o restaurante esteja aberto.
- Pode ser... Só tem uma coisa que eu não entendo: Onde estão os funcionários do Hotel?
- Não sei, mas aqui não estão.
- Vamos procurar alguém.
Então, andaram até o local onde sabiam que dormia a gerência do Hotel e bateram na porta. Ninguém atendeu. Bateram de novo.
- Ah, chega! - gritou Charles - vou arrombar essa porta.
E começou a chutar a porta. Ela não se mexia, até que, com um sonoro "clique", ela se abriu.
O motorista sentia sede. Sabia que em algum lugar próximo corria um riacho, mas não exatamente aonde.
Não podia se desviar de sua rota. A camisa pesava, o sapato machucava.
Tirou a camisa, mas não ousava tirar os sapatos, pois o chão estava muito quente.
Colocou a camisa sobre a cabeça. Imaginou se passaria algum carro Percebeu que não ouvia um barulho sequer. Algo estava errado. Mas devia ser só sua mente. É, só sua mente. Continuou, passo após passo, pé após pé...
A visão que Charles e Amanda tiveram foi tremendamente estarrecedora. Todos os funcionários possíveis, incluindo o homem que cuidava dos porcos, mortos, empilhados sem nenhum cuidado. Não era visível, em nenhum deles, alguma marca que justificasse o estado em que se encontravam.
Amanda não conseguia olhar nem mais um segundo. Se virou e vomitou.
Charles então fechou a porta e amparou Amanda até o quarto em que ela dormira.
Enquanto Charles esperava na cama Amanda escovou os dentes e trocou de roupa. Então ela sentou-se, e era visível seu medo e quase-descontrole.
- Como?
Perguntou ela, sem conseguir dizer mais nada.
- Não sei. Mas vamos garantir que não aconteça conosco. Vamos checar os frigobares. Lá na administração devem estar as chaves dos apartamentos. Vamos pegar algumas, pegar alguma coisa pra comer, e vamos esperar em algum dos quartos.
E assim o fizeram. Entraram na administração, pegaram as chaves, e entraram nos apartamentos. Lá, pegaram alguns refrigerantes, alguns biscoitos, e, menos que o resto, mas ainda assim em quantidade suficiente, alguns pães.
Comeram, e sentaram-se no quarto de Charles, para avaliar a situação:
- Eu acho que devemos esperar quietos, sem fazer nada.
Disse Amanda.
- Eu discordo. Melhor tentamos sair daqui andando mesmo. Se possível pegar dois cavalos.
- Não, ficamos.
- Você parou pra pensar que o que matou aqueles coitados pode ir matar agente?
- Parei. Por isso ficaremos aqui. Vai que ele foi embora? E se dermos de cara com ele na estrada?
- E se ele estiver aqui?
- Então melhor esperarmos o ônibus.
- Desisto!
Charles então foi para a beira do lago, pegou uma vara de pescar, prendeu um pedaço de pão e jogou-a na água.
Com o ouvido atento, escutou Amanda chegando até ele, e a viu sentar-se ao seu lado:
- Você tem que entender...
- O quê?
- A verdade é que...
- É o que, fala logo!
- Eu estou morrendo de medo de sair daqui. E estou morrendo de medo de ficar aqui também. Eu não sei o que fazer. Não quero ficar junto no mesmo lugar que tantos corpos, mas também não quero sair andando sem destino, você me entende?
- Na verdade, entendo sim. Eu até concordo. Só acho que sair andando daria mais certo que sentar e esperar.
- Algum motivo especial?
- Já tentou ligar alguma televisão? Ou rádio?
- Não...
- Eu tentei. E adivinha? Nada funciona! NADA!
- Mas, como?
- Não sei, e na verdade pouco me importa como, mas eu quero sair desse lugar.
- Peraí! Você está insinuando que tudo o que acontece nesse lugar tem alguma ligação?
- Você tem dúvida?
- Explica a ligação?
- Não!
- Então como sabe que tem?
- Eu simplesmente sei!
O motorista andava, quase caindo. Alguma coisa estava errada.
Ele olhou em volta. Não havia ninguém lá. Gritou. Continuou sem ouvir nada.
E então ele viu. Muito distante, mas visível: A entrada do Hotel Fazenda Portal da Natureza. Era o momento de entrar. Esperava encontrar os alunos, mas não sabia como dar a notícia de que seu professor e todos os seus amigos estavam mortos. Mas daria a notícia. E tudo, um dia, voltaria ao normal.
II
O Sol já ia se pondo, e Charles e Amanda imaginavam quando que o ônibus chegaria para buscá-los. Imaginavam se alguma coisa teria acontecido com os outros. Charles resolveu ir buscar um pouco de água, somente para não ficar parado. Andou até o frigobar e observou o floresta. Alguma coisa brilhava ali. Não sabia o que era, mas ficou hipnotizado observando, o brilho daquilo. E então, como se nunca tivesse acendido, apagou-se.
Charles piscou e voltou ao lado de Amanda, sentada na cama.
E então ouviram passos. Seria alguém vindo resgatá-los, ou seria a causa de todas aqueles mortes?
Decidiram se esconder no armário. Destrancaram a porta e se enfiaram como puderam, com uma brecha para espiarem.
E então ouviram batidas em uma porta. Não batidas normais, mas uma verdadeira pancada em casa porta. Aparentemente, quem quer que fosse estava procurando alguém em cada uma das portas:
- Vou dar uma olhada.
Disse Charles. E ignorando os avisos de Amanda, abriu um pouco a porta. Por azar, o barulho que a porta fez ao ranger ocorreu exatamente quando o homem parou de bater nas portas. E então se viram. Charles reconheceu o rosto:
O motorista do ônibus, Anderson, olhava para ele, o alívio estampado no rosto cansado. Ele correu, Charles abriu a porta, e o homem desabou na cama. Amanda saiu de dentro do armário e observou o rosto do homem:
- O que aconteceu? – perguntou ela – o que aconteceu com o ônibus e os outros?
- Eles... – respondeu Anderson – nós... sofremos um acidente. Um barranco... desabou sobre nós, e os outros, eles...
Não eram necessárias mais palavras.
Amanda enterrou o rosto nas mãos e chorou, enquanto Charles, aturdido, sentava-se.
Anderson então se levantou, e disse:
-Vou tomar um banho.
Ao sair do banho, Anderson sentou-se novamente:
- Onde estão todos os funcionários daqui?
Perguntou ele.
- Mortos.
Respondeu Charles.
- Amanhã nós vamos embora daqui.
Sentenciou Anderson.
- Como – perguntou Amanda – como iremos embora daqui?
- Nenhum funcionário daqui tinha carro?
Charles então ficou com o olhar vago, expressão de derrota:
- Como nós não pensamos nisso?
- Então é isso, amanhã iremos embora.
E tentaram dormir. Mas, como em toda situação de estresse, não conseguiram.
Amanda se aproximou da janela. E viu as luzes. Eram várias, milhares de pontinhos de luz na mata. Gritou.
Charles e Anderson se aproximaram. Era realmente muitas luzes. Charles resolveu omitir o fato de tê-las visto mais cedo, por medo de ser repreendido.
Amanda resolveu que as observaria a noite toda, mas Charles queria mais.
Queria chegar perto. Queria sentir as luzes perto deles. Elas o atraíam.
Então, inocentemente, uma nova luz piscou. Era, em relação ao chão e à montanha, a mais alta de todas. E as outras foram subindo. Subindo, até que toda a montanha estava tomada de luzinhas.
Charles desceu. Saiu do Hotel e ficou olhando para as luzes. Elas lhe assustavam mais do que fascinavam. Ele subiu. Sentia-se muito cansado.
Mais tarde, Amanda diria que as luzes cresceram, Charles que diminuíram e Anderson que sumiram. O fato era que todos haviam dormido, exaustos.
Charles acordou. Pensou, primeiramente, que estava em casa. Então, ao olhar para o lado, a verdade o atingiu como um soco.
Viu Amanda e Anderson, ainda dormindo.
Deveria dar uma volta para achar um carro, pensou ele. Então, colocou suas roupas, arrumou suas coisas e se dirigiu para a porta. Desceu primeiramente para a cozinha, onde pegou um facão e alguns pães velhos. Comeu os pães e se dirigiu para o estacionamento. Olhou para o pasto da parte fazendo do hotel. Não havia nenhum animal lá, o que era impossível, já que na noite passada eram vários.
Encontrou um carro. Com uma pedra,quebrou um vidro deste. Botou a mão para dentro do carro e o abriu. Olhou dentro do carro, e encontrou um casaco. Não servia para nada, o dia estava quente.
Subiu novamente. A falta de animais e o silencia absoluto o angustiavam. Abriu a porta do quarto, e acordou Anderson e Amanda.
Após estes acordarem, ele começou a falar.
- Tem uma coisa errada.
Disse Charles.
- Mais uma? – respondeu um sonolento Anderson – Tem pouco coisa errada aqui, não tem?
- É, mais uma – continuou Charles – Não tem animais, todos sumiram.
- Impossível.
Disse Amanda.
- Depois de tudo isso, você ainda acha impossível?
Retrucou Anderson.
Resolveram então andar até o carro, e de lá até os animais.
Chegaram ao carro, e, com pouco esforço, Anderson o ligou sem as chaves.
Foram de carro até o local onde ficavam os animais, e realmente, não viram nenhum.
Anderson resolveu ir até onde ficava o estábulo.
Se aproximou, a pequena construção de madeira parecendo ameaçadora.
Então, abriu a porta.
III
Era uma cena grotesca. Todos os animais estavam caídos, o sangue espalhado por todo o local.
Alguns com os olhos abertos de terror. O chão era grudento e vermelho, todas as pequenas divisórias dos estábulos estavam escancaradas, algumas quebradas.
Charles entrou. Andava tensamente entre os animais, como se a causa daquele massacre fosse pular de dentro deles.
Amanda o seguiu, transtornada. Anderson, calmamente, preferiu ficar do lado de fora.
Charles aparentava estar curioso e preocupado.
Ele mesmo não sabia disso, mas estava aos poucos entrando em pânico.
Saíram.
Em silêncio, caminharam até o carro. Lá, finalmente, Anderson falou:
- Vamos embora.
Como ninguém discordou, mudos de medo, deram partida no carro e saíram.
Primeiro pararam no Hotel para pegar suas coisas.
Charles andou cautelosamente até o quarto, cada passo reverberando com um barulho ensurdecedor. Pegou suas malas e levou-as para o carro, sem mais problemas.
Ligaram o carro e se dirigiram para a saída do hotel.
Atravessaram o portão, e continuaram na estrada.
Passou-se algum tempo até que encontraram o ônibus.
Não se detiveram para nada, passaram direto.
Então, depois de uma curva, eles se lembravam, deveria haver uma grande fazenda.
Fizeram a curva cheios de esperança, mas então se surpreenderam.
Não havia fazenda.
Era tudo um chão queimado. Não haviam árvores, nem casa, nem nada. Era um grande local queimado.
Saltaram do carro. Se aproximaram, lado a lado, da única construção da fazenda de pé. O grande portão.
Amanda ajoelhou-se e chorou. Chorou copiosamente, como se chorar fosse mudar os acontecimentos.
Charles olhou para Anderson com um olhar de indagação, que este respondeu com exatamente o mesmo olhar.
Eles não sabiam, mas naquele mesmo momento, alguém os observava e divagava sobre a extensão do erro cometido. Aqueles três não deveriam ter sobrevivido. Não era parte do plano. Deveria agora pensar a melhor maneira de lidar com aqueles três.
Charles então deu um passo e frente:
- Meu Deus – disse ele – o que está acontecendo aqui?
____Aqui termina a primeira parte da Trilogia da Ocupação. A segunda e a terceira parte estão sendo escritas. Na próxima parte, ''A Cidade Abandonada'', será contado o que aconteceu em uma cidade durante o mesmo tempo em que se sucedeu a parte 1. Na parte 3, ''A Ocupação'', será contada a conclusão dos fatos e suas consequências. Por favor, deixe seu comentário, sendo ele com teorias sobre os acontecimentos ou críticas CONSTRUTIVAS. Até as próximas partes, e obrigado por ler meus textos. GuTo!________
Guto Heyerdahl
Publicado no Recanto das Letras em 06/06/2008
Código do texto: T1022801
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