Texto

MIMETISMO

As brocas penetram quase que simultaneamente, causando uma leve trepidação no chão ao redor. Obedecendo a seqüência, vem o óleo solúvel, em esguichos amarelados que se vaporizam no contato com a superfície quente da peça, espalhando pelo ar seu odor característico.

Zennon olha mais uma vez para o relógio e pensa na aposentadoria. Agora falta bem pouco e, ademais, virá na hora certa: com a tal insenção oferecida pelo Governo, para os veículos com potência até mil cilindradas, vai haver muito trabalho por ali. Os primeiros protótipos do motor 1.000 já foram liberados pelo pessoal da Engenharia e quando a produção for iniciada, vão precisar fazer muita hora extra — a palavra “férias” será definitivamente banida de seu vocabulário...

Inebriado por esses pensamentos, seus experimentados ouvidos demoram a captar o leve zunido, que vai aumentando progressivamente. Desconsolado, de um só golpe ligeiro, ele acerta o grande botão vermelho no painel disposto a sua direita. O botão de “emergência” interrompe imediatamente o avanço do cabeçote da máquina.

— Puta-que-o-pariu! Não acredito que essa merda de ferro velho quebrou outra broca! A terceira peça “morta” no meu turno e a noite ainda nem começou. Quando o Alemão olhar a carta de controle e descobrir a matança, vai ficar emputecido, se vai...  Com tanta máquina boa nessa fábrica, me colocam para trabalhar justamente nessa lata velha. Sou mesmo cagado!

De tão nervoso que está, nem nota que o zumbido não cessou quando a máquina foi desligada. Só se dá conta deste fato quando o ruído está realmente forte. Então, retira o protetor auricular e olha para o Zé da Caixa, o operador ao lado, que também vai fincando o dedo na parada de emergência de sua máquina. Só então repara os outros colegas todos parados, atônitos, tentando descobrir de onde vem aquele som, que já está se tornando insuportável.

O silvo agudo é interrompido pelo estrondo forte, e, instintivamente, ele baixa a cabeça. Depois corre. Corre assustado por entre as máquinas da “Seção de Usinagem de Carcaças”, em meio a uma chuva de lascas de telha de amianto e pedaços de luminária, que se espalham por todo o lugar.

Depois do tumulto de toda aquela gente correndo, apenas o silêncio e o princípio de um pequeno incêndio, que rapidamente é controlado pela brigada.

— Sou cagado! 23.000 peão nesta fábrica, e justamente no meu turno e na minha seção, explode esse trambolho, quase na minha cara!

Em meio a seu consternamento, uma idéia empolgante ilumina-lhe a mente:

— Não sei... Pensando melhor... Quem sabe isso não rende uma palhinha na TV... Já dá até pra imaginar o Sergio Chapelain no jornal das oito: “operário de São Bernardo do Campo escapa de explosão na maior montadora do país...” Depois, seriam aqueles caras do Sindicato correndo atrás dele — imagina só se não iam querer tirar vantagem da situação. Aproveitaria pra dizer umas verdades pra aquele bando de pelegos!

O pessoal da brigada de incêndio trabalha rápido e a situação é logo controlada. Como não há feridos, limitam-se apenas a afastar as pessoas e isolar o local. Os funcionários da Seção de Usinagem de Carcaças são encaminhados à enfermaria, sendo logo dispensados e Zennon, enquanto coça o bigode preto e vistoso, não abre mão de fazer uma graça para os amigos:

— Antes de sair preciso ligar pra patroa. Esse negócio de chegar mais cedo em casa sem avisar pode dar “pobrema”...

E no turno seguinte tudo continua na mesma, na verdade, quase na mesma porque agora o local do acidente está cercado por cordões de isolamento e vigiado por guardas de segurança. Zennon chega e observa atentamente os procedimentos, e como seu local de trabalho foi literalmente invadido, fica sem saber para onde se dirigir, o que rapidamente é solucionado:

— Aí Zennon, o Panturrilha falou que é pra você dar uma assistência lá na “Galvanoplastia” que o negócio por aqui ainda vai demorar!

— Galvanoplastia! Não acredito que vou ficar fedendo ácido o dia todo! Sou mesmo cagado! E porque que ainda não liberaram a seção? Alguém contou o que aconteceu lá dentro? Aposto que foi aquela “Furadeira Radial” lá do fundo. Aquela tranqueira é da Segunda Guerra... Só podia dar nisso mesmo...

— Sei não o que aconteceu, mas Tião, o da Pintura, tava contando que tinha uns mensalistas engravatados, fuçando lá no meio das máquinas. E olha só: antes de passarem o cordão de isolamento, todo mundo que entrava vestia uns macacões esquisitos, tudo com aquele símbolo estampado no ombro. Sabe aquele sinal que parece assim um cata-vento amarelinho?

Depois dessa conversa o peão ficou matutando por todo o resto do dia, ou melhor, da noite. E se tinha uma coisa que distinguia o Zennon entre seus companheiros, era a incorrigível mania de ser enxerido, sempre metendo o bigodão onde não era chamado. Aquela coisa de “cata-vento amarelinho” deixou o rapaz mesmo cismado, a ponto de arrastar o Queixada para a enfermaria, só para conferir o símbolo na máquina de raios X e fazer o reconhecimento. E sem qualquer sombra de dúvida, o “cata-vento”, confirmou-se como sendo a simbologia internacional para radioatividade.

— Até onde eu sei nenhuma máquina lá funciona a base de Urânio. O negócio lá tá mais pra máquina à vapor mesmo, tudo uns pau véio...

— Pra mim isso é tudo desculpa. Já que a entrega das peças vai mesmo furar, então inventaram essa coisa de radiação, só pra ter motivo pra não produzir

Que o Queixada gostasse de se conformar com as desculpas esfarrapadas que ele próprio inventava, tudo bem, mas com o Zennon era bem diferente: ele ia revirar tudo até encontrar alguma coisa. Para ele, não fazia qualquer sentido deixar parada toda uma linha de produção daquelas, com os prazos apertando, só por causa de um foguinho e umas telhas quebradas...

Depois que jantou, meteu um palito por entre os dentes e foi até lá “investigar” a situação. Rodeou, rodeou, e quando os guardas saíram para jantar e sobrou apenas o Robério, seu camarada, atacou de necessitado:

— Papo sério Robério, eu prometi pra patroa que a gente ia hoje desenferrujar lá no Faraó´s. Vim até nos panos... Sabe que, de vez em quando, a gente precisa fazer um agrado, pra amaciar um pouco a fera... Mas sem o talão de cheques, não tem por onde. Eu entro, pego o talão na gaveta e volto em cinco minutos. Ninguém vai saber. Porra Robério! Vai dizer que agora vai regular esse pequeno favor pro seu camarada aqui?

— Olha só Bigode, os home disseram pra não deixar passar ninguém, porque as pessoas podem ficar doentes só de respirar o ar lá de dentro. Disseram também que se tivessem problema com alguém, culpariam a gente, lá da “Segurança”.

— Os home essa hora tão tudo dormindo e se eu tiver um troço e cair duro, dentro do refeitório, com a cara enfiada no bandejão, ninguém vai nem imaginar que é porque eu entrei ali. Vão pôr a culpa no feijão requentado...

Seus bigodes lhe diziam que havia alguma coisa muito interessante por lá e ele foi entrando, sem muita cerimônia. Robério ainda tentou argumentar alguma coisa, e como nem foi levado em conta, resolveu deixar para lá. Sabia que o Zennon não ia mesmo deixá-lo em paz, enquanto não bisbilhotasse tudo por ali.

Ele entrou bem devagar, como se estivesse esperando que alguma coisa fosse explodir novamente. Olhou tudo em volta e nada notou de anormal, excetuando-se é claro, um grande rombo no teto. Fora isso, nada. Podia sentir o cheiro de graxa, que lhe era tão familiar. As ferramentas continuavam meticulosamente encaixadas no painel central. Notou, em um dos cantos, o montinho de serragem, espalhada para absorver o óleo que fora derramado no piso, um pouco antes da confusão. Tudo estava em seu lugar. Aproximou-se do local onde o teto estava descoberto: as telhas em volta estavam estranhamente quebradas. Traziam uma certa uniformidade. Um círculo quase perfeito e com chamuscados a toda sua volta, como se algo muito quente tivesse estampado sua passagem com precisão. Aquilo sim era muito esquisito.

Quando já ia quase saindo, voltou-se para a parede a sua esquerda, que de alguma forma lhe chamou a atenção. Não conseguiu perceber de imediato qual era o problema, mas quando realmente parou e firmou os olhos, ficou ainda mais intrigado: a pintura da parede pareceu-lhe assim... Um pouco... Borrada. Intuitivamente, esfregou os olhos e chegou mais perto. Sua percepção inicial foi que naquele ponto a gramatura das cores fosse diferente do restante. Algo parecido como quando aplicamos uma primeira demão de tinta na parede — fica tudo meio falhado, uma textura que não corresponde ao acabamento final. A pintura não fica uniforme, parecendo uma fotografia com baixa definição, de acabamento grosseiro.

Quando chegou mais perto para observar melhor, levou um esbarrão que quase o derrubou. Recuou dois passos para trás. Recuperado do susto, olhou tudo a sua volta sem conseguir perceber de onde teria vindo o empurrão. Não havia mais ninguém no recinto. Verificou novamente a parede e notou que, naquele ponto, havia um plano diferente, mais próximo, e foi onde ele esbarrou... Coisa estranha... Pareceu-lhe que havia uma protuberância naquele lugar. Olhou por outros ângulos, de cima, de baixo... Seus olhos o enganavam. Ficou um pouco atordoado.

Era como olhar um daqueles livros 3D, em que depois de vários minutos com o olhar fixo, de repente, sem aviso, uma parte da gravura salta em sua direção. Será que estava ficando doente? Sentia suas vistas um pouco embaralhadas.

— Mas que merda é essa? A parede está inchada?

Correu até um armário que havia na outra lateral e encontrou uma das latas de tinta spray, que eram utilizadas para retocar a pintura externa das peças. Borrifando a tinta em direção à parede, entendeu finalmente o que estava acontecendo: um grande objeto começou a tomar forma. Na verdade, ele sempre esteve ali, com uma textura que copiava exatamente os padrões da parede mais próxima. Uma perfeita camuflagem. Depois de três latas de spray vermelho, tudo ficou aparente. Era uma coisa grande, gelada, e com um formato similar a um casco de tartaruga, só que mais reto e mais liso, sem as características reentrâncias que eles possuem. Completamente liso, sem qualquer abertura, relevo ou sinal. Uns três metros em seu comprimento maior e mais ou menos 1,50m na altura, gelado e muito firme. Parecia muito pesado, ou fixo ao chão. Nunca tinha visto nada parecido. Correu para fora e nem falou nada com o Robério. De lá, foi direto ao vestiário, onde tomou um demorado banho, esfregando-se compulsivamente. Sentia o corpo todo pinicar.

Nada comentou com os colegas, já que não queria virar motivo de piada. Sua conversa seria mesmo com o seu chefe, o Alemão: voltaria lá durante o dia e falaria com ele. Então tirariam toda essa estória a limpo.

Assim que chegou em casa resolveu dormir um pouco. Sentia-se esgotado. Acordou tarde. Tarde e com o estômago enjoado. Uma idéia sombria lhe ocorreu: teria ele sido contaminado por algum tipo de radiação? Teve medo. Passaria também na enfermaria e conversaria com o médico. Difícil seria o doutor acreditar naquela coisa que ele havia encontrado. Bem... Se não acreditasse, que fosse lá ver com seus próprios olhos, os quatro. Assim que se sentiu melhor, apressou-se em ir até a fábrica, pois só assim poderia encontrar o Alemão ainda em seu horário de expediente.

Como de costume, o Alemão não estava de muito bom humor. Explicou tudo assim mesmo:

— Esperre aqui. Vou parra um reunión e depois verrificamos com a pessoal do Manutençón e...

— Porra Alemão! Já tinha um bando de mensalistas rodeando. Daqui a pouco vão levar o negócio embora...

Dito e feito. Quando chegaram, estavam acabando de lacrar um container, com todas as máquinas da seção lá dentro. Trabalharam em tempo recorde para desmontar e acondicionar tudo e ninguém tinha uma explicação satisfatória para o que estava acontecendo:

— Ordem expressa da Diretoria. Informaram apenas que as máquinas estão velhas e serão enviadas para a matriz, na Alemanha.

— Sim, me engana mesmo que eu gosto! As latas velhas, que estão só o bagaço, costumam vir da Matriz para cá, e não vice-versa.

De nada adiantou perguntar, rodear, investigar. Todos seus “recursos” foram utilizados: seus amigos da Segurança, o estagiário que trabalhava na Diretoria e até mesmo a secretária, que sempre sabia de tudo. Pensou até mesmo em subornar alguém da “Informática” para invadir o mainframe, em busca de algum memorando ou documento relacionado ao fato.

Perturbou seu chefe, o Alemão, por um bom tempo, e este também foi até onde pôde, utilizando-se da influência que possuía. Acabou transferido e sutilmente ameaçado de demissão, quando finalmente concordou em colocar uma pedra sobre o assunto. Zennon, mesmo pressionado, ainda contou essa estória para alguns, mas não para muitos — Antonio Feliciano Junqueira, o Zennon, faleceu depois de quatro meses, nem chegou a se aposentar. Ninguém soube ao certo qual foi a causa de sua morte. O atestado de óbito pouco esclareceu, alegando insuficiência disso e daquilo outro, o de sempre...

O container? O container ninguém mais viu.

À exceção dos trabalhadores da pequena fazenda incrustada entre vales, ao norte da Alemanha, uma província próxima a Hildeshein, bem longe de qualquer parque industrial. Após passar pelo moderno sistema de segurança, a carreta que o transportava encostou e o container foi descarregado, juntando-se a outros 189, metodicamente enfileirados, vindos de toda parte do mundo.

No grande hall de entrada, a discreta inscrição denunciava: “Centro de Estudos e Benchmarking* da Engenharia Alienígena”.

* Benchmarking
Método para comparar desempenho de algum processo, prática de gestão ou produto da organização com o de um processo, prática ou produto similar, que esteja sendo executado de maneira mais eficaz e eficiente, na própria ou em outra organização, entender as razões do desempenho superior, adaptar à realidade da organização e implementar melhorias significativas.
   
Definição da Fundação Nacional da Qualidade
Fonte: Benchmarking – Relatório do Comitê Temático

Davi M Gonzales
Publicado no Recanto das Letras em 14/06/2008
Código do texto: T1034210
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Sobre o autor
Davi M Gonzales
São Caetano do Sul/SP - Brasil, 43 anos, Escritor Amador
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