Os Colonizadores - Parte VII
Entrando no grupo.
Esoj fez uma pequena pausa, esperando a reação da platéia. Mas se ele esperava espanto deve ter ficado decepcionado. Todos olhavam com expectativa para ele mas, sem nenhum espanto.
- Sabe Esoj, meu velho. O Almirante Alberto falava com indisfarçada diversão. Você deve lembrar-se que nós somos os mais velhos nesta sala. Nem mesmo Haline conhece os velhos conceitos de divindades. Este conhecimento caiu em desuso a mais de 200 anos, e você sabe bem por que.
- É verdade. Às vezes me esqueço.
- E quem seria este tal de Lúcifer, com o qual deveríamos nos espantar.
Era a primeira vez que Haline se manifestava. Thais ficou impressionada com a voz dela. Era suave, levemente rouca. Mais adequada a uma atriz ou a uma cantora que a uma artilheira da frota. Mas não se podia deixar de ficar impressionado quando ela falava. Por um instante ela sentiu uma pontada de... Inveja!?
Seria isto. No fundo sim, além de linda ela era a esposa do mais graduado oficial da frota. Mãe de dois dos mais proemninentes oficiais da Terra, e pelo que Thais sabia apenas 40 anos mais velha que ela.
- Bom segundo a mitologia religiosa vigente na Terra até final do século XXI Lúcifer seria a contraposição de Deus. Seria na verdade seu anjo mais amado, mas ficou enciumado quando Deus deu aos homens o livre arbítrio e iniciou uma guerra no céu que culminou com sua queda no inferno e desde então ele atormentaria a humanidade.
- Céu, inferno, anjo. Que merda toda é esta.
Aj parecia realmente confuso. Lucas por outro lado parecia tranqüilo. Haline estava com cara de poucos amigos e Thais estava se sentindo totalmente perdida. Somente Alberto parecia divertido ante a incapacidade de Esoj em explicar quem era o tal Lúcifer.
- Lucas.
- Sim pai.
- Instale um MenCon na senhorita Thais. Precisamos de velocidade e estamos nos perdendo em detalhes.
- Espera aí almirante, desculpe senhor. Mas implantar um MenCon em mim. Eu não me lembro de ter permitido isto.
- Quando aqui for uma democracia oficial, eu garanto que lhe pedirei a sua opinião. Lucas proceda à implantação, AGORA.
Thais involuntariamente se encolheu. Nunca havia sido repreendida assim.
Lucas se aproximou e tocou-lhe de leve o ombro.
- Não se preocupe, meu pai às vezes é um pouco grosseiro. O processo é rápido e praticamente indolor. Pode ficar tranqüila, você está em boas mãos.
- Eu sei senhor. Estou pronta.
Thais levantou a cabeça tentando mostrar coragem, mas estava bem assustada.
Lucas retirou de sua inseparável valise um pequeno tubo, algo como um inalador e suavemente cobriu a boca de Thais com um bocal, semelhante a uma mascara de oxigênio. Abriu uma série de válvulas e ela sentiu um odor suave, similar às descargas de ozônio das telas de repulsão. Lucas olhou para AJ que assistia a tudo divertido.
- Uma pequena ajuda mano ?
- Claro mano. O que precisa ?
- Só mante-la firme na cadeira para a implantação.
- Segurar uma garota, foi pra isto que me alistei.
- Pode ficar tranqüila oficial, AJ vai mante-la imóvel para que eu faça a instalação do MenCon em seu córtex. Não se assuste e tente permanecer imóvel. Talvez você sinta um leve comichão.
Antes que Thais pudesse falar algo, as mãos de AJ estavam em seu ombros. Enquanto as de Lucas eram macias e suaves as e AJ eram firmes como tenazes, ela sentiu que mesmo que quisesse não poderia se mexer.
Lucas começou a manipular um bracelete, parecia um comunicador mas deveria ter pelo menos cinco vezes mais botões, talvez uns 60 ou 70. Seus dedos moviam-se numa velocidade assombrosa, tornando-se quase um borrão. Todo o processo não durou mais que um ou dois minutos, ela sentiu um pequeno comichão na nunca e só.
Lucas balançou levemente a cabeça e AJ soltou-a. Não antes de sussurrar em seu ouvido.
- Bem vinda Thais, bem vinda à tropa Zumbi.
Ela virou-se rapidamente, mas Aj não estava ao seu lado, ele tinha estava de pé do lado de Haline olhando para ela com um sorriso zombeteiro em seu rosto.
-Oficial Thais Rorz, a partir de agora você faz parte de uma equipe de elite e os motivos reais de nossa viagem lhe serão revelados no tempo pertinente. Você, Haline, AJ e Lucas receberão agora uma carga massiva de historia do século XX e XXI, que somente eu e Esoj possuímos. Haverá um pequeno desconforto, mas facilitará o entendimento dos fatos que relataremos relativos à descoberta em Europa.
E eles receberam a informação, Deus e o demônio, Lúcifer. Um planeta, a Terra, a Bela Terra imersa em guerrilhas por todo o globo. Fome, morte, demagogia, atrocidades, pais matando os filhos, crianças sendo vendidas, mulheres espancadas, corrupção, crimes de muitos. Mas também caridade, amor, abnegação de poucos. A 3° guerra, desolação fome miséria caos. A 4° guerra por motivos religiosos. O expurgo, a humanidade reduzida a 20% de seu total, a extinção da humanidade na próxima esquina e o renascer, a abolição das religiões antigas, a valorização da vida acima de tudo o despontar da era dourada.
Todo o fluxo não durou mais que uns poucos segundos, a sensação era de terem enfiado um meteoro em sua cabeça, um dor latente lá no fundo. Mas ainda assim o pior foi a piedade que ela sentiu daqueles dois homens. Eles não eram repositórios de informação, eles viveram aquilo tudo. Sua admiração aumentou exponencialmente. E ela podia ver isto nos olhos de todos e nos de Haline alem da admiração ela viu uma ternura enquanto ela olhava para o almirante, que só poderia ser traduzida por uma palavra. Amor, o mais puro que Thais já vira ou imaginara ver em sua vida. Um amor tão sublime que poderia preencher o universo. Os olhos de Lucas e AJ não expressavam nada diferente e ela poderia jurar que os dela também.
- Bem agora que todos tem a base Esoj lhes contara o que Lúcifer disse. Eu tenho um comunicado à frota. Mas estarei ouvindo via MenCon. Esoj, a platéia é sua.
- Bem então vamos ao show.
Longshot
Publicado no Recanto das Letras em 20/06/2008
Código do texto: T1043478