Texto

Prologo, e cap 1

Prólogo

       O vento frio cortava sua pele, branca como neve, naquela noite escura e silenciosa. O nevoeiro era como a maldição da cegueira... Nada se via e o desespero ia tomando conta do seu corpo que ficava mais pesado e dominado por um intenso formigamento, quente e tenebroso.
       A floresta não é um lugar seguro para uma jovem de apenas 17 anos – Lembrava sempre, toda vez que se arrependia amargamente de estar ali, das palavras proferidas por sua mãe. O vento, cada vez mais forte, batia nas árvores produzindo um som gostoso que estranhamente causava a impressão de que aqueles grandes caules e copas arbóreas conversavam entre si.
        A terra estava úmida e congelante. Algo a espreitava em meio às trevas. Só lhe restava se esconder.


Capítulo 1 – O início do fim, outubro de 1962.

        - Isso mesmo, infelizmente...
        - Estamos sem saída! Isso é o colapso de toda a nação!
        Sim, era o colapso. A URSS não conseguia mais esconder suas pretensões. Uma aeronave U2 havia conseguido fotografar mísseis capazes de carregar ogivas nucleares instalados em Cuba. Além disso, havia mais de mil denúncias vindas de lá e também a aglomeração de navios soviéticos em torno da ilha definitivamente provava que algo estava esquentando aquela guerra.
        Kennedy tentou ao máximo evitar que o conflito chegasse nesse clímax. Porém a pressão feita por grupos fervorosos que almejavam a guerra e pelos republicanos no congresso foi algo maior. Sua estratégia moderada e consistente adotada no início da crise foi inútil. Protestos ecoavam por todo o país, não houve repressão. Não houve válvula de escape.
        A URSS alegava que aquilo era simplesmente uma tentativa de impedir que a terra do Tio Sam invadisse novamente Cuba, como foi feito em 1961. O próprio presidente sabia que aquilo não era verdade, até mesmo um garoto de quatro anos saberia que aquilo não era verdade. Mísseis, ou seja, armas de longo alcance contra uma invasão em terra? O presidente simplesmente cedeu às pressões internas, ignorou a ONU e os outros países. Quase que imediatamente lançou uma ofensiva nuclear a Cuba.
        A ilha foi arrasada. No total foram lançadas sete bombas atômicas sobre as principais cidades. Fidel Castro, seus aliados, e pessoas de mais influência e poder político simplesmente fugiram da ilha. Acabou a diplomacia e a URSS garantiu que muito brevemente haveria retaliação.
        - Não podemos fazer nada. Deve ser declarado o sucateamento de toda a América.
        - Ministro, por favor... Deve haver alguma solução! Podemos evacuar pelo menos uma parte do país...
        - Meu caro eu sei que é difícil, mas é que você deve fazer isso agora.
        Ao longe a assistente de produção gritou rotineiramente:
        - Presidente você estará no ar em 30 segundos, por favor vá imediatamente para o corredor C.
        Ninguém tinha idéia alguma do que se passava. As pessoas viviam aquele dia como qualquer outro, o que era algo atormentador. O presidente não sabia ainda como iria passar aquela informação para os civis. Não lhe foi preparado um discurso como aconteceu em quase todos os momentos de sua carreira. Um turbilhão de imagens e pensamentos passava pela sua cabeça naquele momento. De repente uma voz desconhecida proferiu: “ ...5, 4, 3, 2,1...e  a claquete finalmente fez o característico barulho.
        - Boa noite – aquilo lhe soou extremamente maldoso – É esperado que a maioria de vocês saiba do contexto geopolítico no qual estamos inseridos. A verdade é que vocês sabem... mas na verdade não sabem. Vivemos num mundo bipolarizado. Mas não é a velha história de União Soviética e Estados Unidos. A ordem mundial é regida pela economia e a economia é dominada por homens... - As pessoas pareciam não entender em que ponto o presidente pretendia chegar. Sabiam que ele estava nervoso, gotas de suor corriam claramente pela testa do presidente e caiam no palanque presidencial ali instalado. - Não existe força política. Pensem comigo, e não houvesse dinheiro não haveria política. A política é sustentada por quem tem dinheiro. A manipulação é geral. Vocês podem até dizer que a democracia existe por meio do voto, mas todas os políticos depois de iniciados estão subordinados aos interesses das pessoas com poder aquisitivo. – No início da frase as pessoas mais velhas e conservadoras protestaram discretamente, porém, decorridos alguns segundos, alguns chegaram a se exaltar e até se levantarem das suas cadeiras. - A bipolarização é geral entre ricos e pobres...não existe esse negócio de ideologia. O comunismo é um rótulo que os pobres colocaram em si mesmos. E o capitalismo é o regime de quem é favorecido por ele. A verdade é que não existem vilões nem mocinhos na história real. Todos somos podres... – Os grupos de esquerda e liberais aplaudiram furiosamente. Um vento se aproximava... - Por isso o mundo vai acabar por causa de uma porra de guerra! Isso mesmo! Espero que vocês estejam satisfeitos com as conseqüências dessa guerra de ideologias patética. A...
        O presidente não terminou de falar. Era tarde demais.

Raphael Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 27/06/2008
Código do texto: T1054264

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Comentários
28/06/2008 13h02 - Cayyan
Muito bom, amo esse gênero,comecei uma história com mais ou menos o mesmo gênero, que chamo de Ficção Histórica, mas que se passa no futuro. Conflitos por poder dão ótimas histórias.
28/06/2008 05h30 - Serenety Todai
Olá Este texto é muito lindo^^ Gostei muito de o lêr. Parabéns! Gostei muito da sua ideia de utelizar um bocado da hístótria da URSS no seu texto. Eu tambem escrevo textos, mas em alemäo^^' Eu sou amiga da sua tia na alemanha :) Continua assim com os teus textos^^ Tchau ST
27/06/2008 21h03 - Moacir Silva Papacosta
Poeta, bela estréia! Parabéns e seja bem vindo ao Recanto das letras. Abraços!

Sobre o autor
Raphael Miranda
Uberaba/MG - Brasil, 19 anos, Escritor Amador
10 textos (434 leituras)
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