Texto

Capítulo 3 - A guerra não terminou

Capitulo 3 – A guerra não terminou

2 de fevereiro, 1963

     Hannah frustrou-se ao sair de casa. Tudo o que viu foram pessoas doentes implorando por um prato de comida. Filas e mais filas de pessoas para de obter um pedaço de pão ou algum outro mantimento necessário. Mas afinal, estava à procura de seu filho. Poderia estar no parquinho na Rua Leben, ou então na floresta.
     Primeiramente ela foi ao parquinho. Suas mãos ficaram subitamente geladas ao ver cadáveres de crianças, que possivelmente foram atingidas pelo enorme vento de radiação, em algum momento, durante algum dos ataques. Rumores é tudo o que havia. Todos os sistemas de veiculação de informação foram destruídos com o impacto causado pelas bombas, ou pela radiação, ou alguma coisa desse tipo.  Praticamente nada se sabia, muito menos o que estava acontecendo dentro dos países protagonistas da guerra.
     O tempo foi muito escasso para o conflito se tornar uma guerra mundial. A destruição se tornou muito eficiente. A maior parte das tecnologias que foram usadas visava a mais rápida e eficaz destruição do oponente, sendo essas tecnologias desconhecidas.
Pelo visto seu filho não se encontrava naquele mórbido parque. Um vento misterioso, gelado, era fino e constante em sua nuca. Algo se aproximava. Correu quase que instintivamente rumo à floresta. Na cultura alemã, não se admitia perda de tempo, mas naquele caso o medo falava mais alto.
     Com apenas 17 anos quem olhasse para Hannah veria apenas uma garota. Porém essa tinha opiniões e uma consciência política do que se passava na sua época. Muitos consideravam aquela garota subversiva. Sim, tinha algumas idéias socialistas, mas também não apoiava o autoritarismo que acontecia na URSS.
     Sabia perfeitamente que se juntando o poderio bélico das duas potências era possível destruir o equivalente a dez planetas terras. Mas isso não foi possível, pois elas tiveram que se destruir primeiro. Já se passaram três meses que aconteceu a destruição, e a situação da Europa é tender à anarquia. Agora que saiu do confinamento, tudo o que se via era cartazes com os dizeres: “Fim aos regimes”, “Governo = Morte”.
     Demorou um pouco para chegar até a floresta. À medida que sua preocupação com o filho aumentava, assim também acontecia com a precipitação nival. Anoitecia e a floresta muito ajudava em intensificar a escuridão. No momento de sua chegada havia uma placa com os dizeres: “Proibida a entrada de civis”.  Naquele caso nada importava mais, a vida de seu filho estava em risco.
     Adentrou na floresta e esta permaneceu silenciosa, escura, morta. A impressão que se tinha é de que nada havia para ser visto lá. Havia se passado mais ou menos uma hora quando subitamente alguém sussurrou:
     -Esconda-se!
     Hannah imediatamente correu para trás de uma árvore, incrivelmente assustada e ansiosa.
     -Aqui!- O mesmo sussurro novamente.
     Hannah avistou uma enorme cúpula entreaberta, alguém que estava por baixo a segurava.
     - Ande logo! – Vislumbrou uma mulher que tinha um aparelho de iluminação, o que lhe permitiu ver que aquele objeto abaixo do qual estava a pessoa misteriosa era uma espécie de antena parabólica.
     - O que está acontecendo? – Hannah perguntou sussurrando curiosamente.
     - Shhhhhhh....
     Alguns homens, que pareciam estar usando máscaras passaram pisando fortemente nas folhas e galhos que havia no chão. Estes estavam vestidos com pesadas armaduras de cobre e carregavam grandes armas metálicas, desconhecidas e estranhas para Hannah.
     - São robôs. – Disse a mulher.
     - O que? Você está brincando? – Pasma, Hannah pensou que se tratava de alguma brincadeira.
     - Não.
     - Olhe, eu estou aqui à procura do meu filho e não para perder tempo com gracinhas...
     - Eu não estou brincando. Não posso lhe dar uma explicação agora. Venha comigo.
     Hannah olhou nos olhos daquela pessoa, e de imediato percebeu que ela não estava brincando. Saiu debaixo da antena e seguiu rapidamente atrás da estranha mulher que ficou calada o tempo todo.
     - Onde estamos indo?
     - Estamos fugindo. Seu filho está morto.
     Hannah não irrompeu em lágrimas. Não demonstre suas emoções, pensou. Aquela mulher poderia não estar falando a verdade. Era em momentos como aquele que ela devia ser fria e calculista, sem deixar se levar pelas emoções. O tempo ia passando e um pressentimento ruim ia tomando conta de Hannah. A escuridão era completa, o frio ia congelando suas entranhas. Em um dado momento encontraram duas árvores caídas.
     - Vamos nos esconder aqui por um momento.
     - Esconder do que exatamente? – Questionou Hannah exaltada, que se perguntava se aquela mulher estava em choque devido a alguma coisa, ou do contrario deve ter usado algumas drogas ilícitas.
     - Estamos nos escondendo dos dróides.
     - Que bosta é essa de dróides? Você está usando drogas garota? – Pela primeira vez Hannah percebeu que a mulher era apenas uma garota, e como ela, deveria ter por volta dos dezesseis ou dezessete anos. Tinha uma pele branca como gesso, cabelos num tom forte de vermelho, e olhos cor de mel.
     - Dróides são máquinas de inteligência artificial obviamente construídas por homens. Cada dróide é programado para executar uma missão.
     Hannah olhou para aquela menina com desprezo e não respondeu. Virou o rosto e resolveu seguir em frente, sozinha.
     - Acho melhor você não fazer isso. Há dróides patrulhando a floresta em busca de inadimplentes.
     - Inadimplentes? – A garota lhe parecia cada vez mais louca.
     - Sim, os dróides estão registrando todas as formas de vida, artificiais e não-artificiais, a fim de estabelecerem plena dominação.
     - A única coisa que eu sei garota é que houve uma guerra, mas não a porra do livro do mágico de Oz! Qual é seu nome? – Hannah disparou essas palavras gritando furiosamente e de um modo irônico foi feita a pergunta.
     - Meu nome é Grace Kelly.
     Hannah resolveu dar ouvidos à garota e deixar que ela desmentisse a si própria caindo na suas próprias mentiras.
     - Ok, Grace Kelly, como assim dróides? É alguma coisa que foi inventada pelos russos ou americanos, para estabelecer dominação? Por que sabe, eu acho que estamos em 1963, e não existem máquinas com inteligência artificial.
     - Os dróides são um produto da evolução humana. As imensas descargas energéticas provocadas pelo uso indiscriminado de armas nucleares estão afetando a exosfera criando dobras no espaço. Através dessas dobras é possível que os dróides do futuro que foram construídos em outras galáxias, mais especificamente a galáxia de Blesen, venham para o passado.
     - Mas se eles estão no futuro porque têm que se preocupar com o passado?
     - No futuro eles não estabelecem dominação. São dominados pelos humanos.
     Hannah tentava falar o mais logicamente possível objetivando deixar sem saída a garota. Porém ela era esperta, via isso nos olhos dela.
     - Mas se eles são dominados, por que nós temos que nos preocupar? Pra que mudar o futuro se ele já nos favorece?
     - Você não vai mudar o futuro. Vai mudar o presente para não alterar o futuro.
     - Eu vou mudar o presente? Por que eu?
     - Você é o único humano restante na terra. Todos os outros foram mortos.
Raphael Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 29/06/2008
Código do texto: T1056702

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Indique para amigos
Denuncie conteúdo abusivo



Comentários

Sobre o autor
Raphael Miranda
Uberaba/MG - Brasil, 19 anos, Escritor Amador
5 textos (148 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 28/08/08 21:37)

Como anunciar aqui?




Ajude-nos a divulgar o Recanto das Letras.
Saiba como: clique aqui
Indique

Capa | Cadastro | Textos | Áudios | Autores | Mural | Fórum | Escrivaninha | Regras de Uso | Links | Anuncie | Ajuda | Contate-nos