A LUA E EU
Daqui de Nova Salvador é muito bonito ver o pôr-da-terra. Não tanto quanto o último eclipse, lógico, mas ainda assim muito belo. O edifício onde moro é um dos mais altos da Cratera 368A, quase tocando o teto da redoma. Lá embaixo as avenidas estão desertas; vejo apenas algumas pessoas na horta comunitária e os andróides limpando as ruas. Meu pai me falava das biosferas dos anos 90. Ele também pensava que aquilo tudo era uma grande loucura. Não fosse por elas, hoje estaríamos em apuros, apesar de todos os erros que cometeram. Uma pena que meus três meses de licença estejam acabando e eu tenha que voltar para aquela poluição, ao trabalho monótono de acompanhamento dos painéis digitais de controle, que fazem tudo sozinhos, por mais três meses. Após a exaustiva jornada de quatro horas de trabalho, as mesmas opções de diversões em realidade virtual, espetáculos holográficos e games interativos. Nem os museus, com aqueles velhos filmes de ficção do século XX me atraem mais. Aqui na Lua as coisas são bem mais naturais. Nada como dar um passeio fora da redoma, saltitando como um canguru ou passear pelas montanhas num jeep. Faltam três minutos e vinte e sete segundos para chegar o vôo de Marte. Os Colonizadores estão tendo um trabalho duro por lá. Lógico que há excelentes recompensas. Lourdes virá nele, uma das raras ocasiões em que poderemos nos encontrar. Temos sonhado com nossa licença-permanente, daqui a seis anos. Eu terei, então, 32 anos e ela, 30. Há muito ainda por ser vivido. Vamos voar alguns anos-luz por aí e depois, com o que sobrar do nosso bônus, comparar um andar em algum edifício da Cratera 400. Depois, ouvir velhos CDs de Música Popular Brasileira e fazer poesia à luz da Terra Cheia.
Goulart Gomes
Publicado no Recanto das Letras em 29/06/2008
Código do texto: T1056740
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