O Pedido do Chefe
Na quinta-feira, às nove horas da manhã do horário referente a latitude 25° 25ʹ do planeta Terra, os tripulantes da espaçonave Magalhães comemorariam o milésimo terceiro aniversário do chefe da expedição.
Na verdade, as funções biológicas do chefe haviam cessado muito tempo antes, isto quando ele contava com apenas cento e poucos aninhos de idade. À época, a cúpula da expedição considerava a expertise do chefe como fundamental para o prosseguimento da missão, por isto, suspenderam seu corpo criogenicamente enquanto mantiveram em atividade suas capacidades mentais. Assim, tendo seu cérebro acoplado ao computador-mãe da nave, ele podia continuar no comando da expedição.
Com o passar do tempo, determinaram que tal regime de existência estava prejudicando o rendimento do chefe, acometido por súbitas crises de depressão e de identidade, e a partir desta conclusão desenvolveram um símile holográfico do chefe que, excetuando pelas funções biológicas básicas, como alimentação, excreção, tato, sexo e procriação, permitia-lhe uma existência semelhante a dos demais tripulantes. Ele podia transitar pelos corredores da nave, dar comandos na ponte, dialogar com tripulantes, sendo que muitos jamais se aperceberam da natureza incorpórea do chefe. Mas, mesmo assim, sua mente ainda continuava interligada à central da nave, o que o habilitava a controlar tudo como se a espaçonave fosse uma extensão de si.
Vale lembrar que este privilégio se restringia apenas ao chefe. Todos os demais subalternos, quando morriam, tinham seus corpos lançados ao espaço; as ressalvas recaíam sobre tripulantes-chaves, como engenheiros, pilotos, navegadores, programadores, exploradores, que acumularam grandes conhecimentos sobre a nave, sobre o computador-mãe, sobre as rotas siderais ou planetas desbravados, cujas ciências deveriam ser resguardadas, estes então tinham o DNA mapeado e recebiam uma varredura cerebral, que eram armazenados pelo computador. Um dia, a cabo da expedição, talvez alguém se interessasse em recriar seus corpos através d’alguma das técnicas de clonagem da Terra. Mas o chefe era especial, insubstituível, por isto, valia a pena perpetuá-lo.
No entanto, quando o questionaram sobre qual presente gostaria de receber em seu aniversário, a resposta do chefe desconcertou a todos:
— Eu quero morrer. Quero que libertem a minha mente.
A cúpula da espaçonave se reuniu e deliberou. Mas a discussão se prolongou e não chegavam a consenso algum.
— Sem ele, estamos perdidos!
— A nave precisa do nosso comandante.
— Já o exploramos demais.
— Ele precisa de descanso.
E as vozes se confundiam, contradiziam-se, mas nenhuma solução.
Uma votação secreta selou a decisão: por apenas um voto de diferença, concordaram com o pedido do chefe. No dia do aniversário dele, o segundo-capitão acessaria o computador e desligaria os aparelhos que mantinham o cérebro do chefe em operação.
As horas que antecederam o evento foram tensas. Os tripulantes se preparavam para o pior: como nunca estiveram sob comando de outra pessoa, nem imaginavam que tipo de desordem poderia se suceder; o chefe, por outro lado, roia as unhas holográficas de tanta ansiedade. Em seu quarto, ele caminhava dum lado para o outro, quase sem fôlego de emoção, enfim, a possibilidade de ver-se livre.
Às oito e cinqüenta da manhã, todos os oficiais da nave se reuniram na central do computador. O segundo-capitão e o programador se sentaram diante do terminal. A senha do segundo-capitão liberou o acesso ao último nível de segurança. Iniciaram o procedimento de desligamento do cérebro do chefe. Este assistia a tudo em silêncio, num canto da sala.
Uma voz feminina brotou no interior da câmara:
— Deseja realmente encerrar o programa?
Silêncio.
— Deseja realmente encerrar o programa? — a voz repetiu. Todos se entreolharam, constrangidos com a mudez do segundo-capitão.
— Deseja realmente encerrar o programa? — a voz insistiu por uma terceira vez. Sobre o holograma do chefe o vice-capitão deitou os olhos, de suas têmporas escorriam algumas gotas de suor, apesar da refrigeração da câmera. Com a voz trêmula, embargada, hesitante, por fim ele disse:
— Não...
Um suspiro de alívio surgiu dos presentes.
— Sinto muito, chefe, mas ainda precisamos de você — o segundo-capitão resmungou para o simulacro, mas o chefe já se dirigia para a porta, cabisbaixo, desalentado.
Se alguém houvesse se dado o trabalho de investigar os registros anteriores, percorrer o histórico da espaçonave e a ficha pessoal do chefe saberia que, em seus quase novecentos anos de existência etérea, o chefe já havia feito o mesmo pedido — morrer — vinte e oito vezes anteriormente. Mas nunca antes ele havia chegado tão perto de obter seu desejo.
Ao deixar a câmara, o chefe deixou pender a cabeça para o lado e sussurrou:
— Quem sabe da próxima vez...
Henry Alfred Bugalho
Publicado no Recanto das Letras em 12/10/2008
Código do texto: T1224835
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