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Acordo com o televisor super -electrónico a gritar nos meus ouvidos: “ Acorda! Acorda! O grande pai espera – te no trabalho”. Rotina, nada de mais. Tenho que me despachar para a grande cerimónia do nosso querido pai, caso contrário, podem – me obrigar a comer mais papa maisena . Pego no meu manual “ Liberdade respeitosa” e lá vou eu a caminho do parlamento socialista. Chego, finalmente, ao Parlamento Socratino. Sento – me à beira dos meus bons compatriotas. Aqui somos todos distinguidos por cores, predomina a classe colorida. Eu pertenço aos meus compatriotas vermelhos e verdes; infelizmente, somos os que trabalhamos mais, no entanto, temos fama de comer criancinhas e de ser instáveis – Enfim, os outros comem e nós é que pagámos. Nas cadeiras mais à direita estão os feirantes, eles só ainda cá estão para vender a porcaria dos manuais e dos aparelhos electrónicos (penso que têm o nome de um indivíduo que gostava muito do mar, mas isso não posso afirmar com certeza, pois aqui só nos obrigam a estudar números, tabelas estatísticas e a vomitar elogios ao nosso Big Father no Jornal Horário de Notícias). O meu avó chegou – me a dizer, quando eu era pequeno, que antes existia um partido de extrema-esquerda que era governando por um Senhor Anac…qualquer coisa. Porém, não há registo nos nossos manuais que alguma vez tenha existido. É agora, é agora, é agora! “ É a hora do nosso protesto, é a hora democrática, digam tudo o que vos vier à mente quando aparecer a imagem da Leitona no televisor!”, transmitia o altifalante a uma grande altura. Apareceu, mais uma vez, aquela mulher no televisor, aquela hora era entusiasmante para mim, no entanto, não o sabia por quê. Todos à minha volta gritavam e insultavam aquela triste mulher, cujas olheiras e as rugas faziam qualquer pessoa ficar com os nervos à franja. Aquele momento era completamente asfixiante, uma espécie de hora democrática asfixiante. Após este ritual, como era costume apareceu o nosso grande pai.
- Prometo fazer um aeroporto e um comboio super rápido na próxima semana – comprometeu - se o grande pai.
Todos bateram palmas, a algazarra subia à cabeça de todos. Contudo, eu sabia que muitos dos meus camaradas sentiam – se verdadeiramente mal em aceitar aquelas condições.
- E há mais uma coisa, meus queridos filhos! Vamo – nos unir ao grande país, sim, isso mesmo, já ouço para aí alguém dizer! Vamo – nos juntar à Espanha!
Todos riam, todos se beijavam. Eu sentei – me num canto, num canto longe de toda aquela imundície. Reflecti. Vivíamos naquela liberdade respeitosa, todavia não me recordava desde quando é que tal tinha acontecido. O nosso grande pai dizia que o nosso mundo sempre viveu, desde a sua existência, em consonância com o socialismo. Mas eu não me acredito, sinto – me abafado e angustiado. Que ano estaremos? A única coisa que sei é que o mundo se formou em 2005. O resto? Não sei, mas não quero continuar a viver nesta ilusão.
Fernando Marques
Fernando Marques
Publicado no Recanto das Letras em 04/10/2009
Código do texto: T1846993
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