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Um Julgamento no Tempo

- Estamos reunidos aqui hoje para julgar publicamente este homem, de nome Mateus Terminus, sob a acusação de ter assassinado uma pessoa com um tiro em suas costas. – Juiz
- Foi em legítima defesa!
- Isso é o que o senhor diz e aparenta ser bem absurdo. Acusação, você tem a palavra.
- Muito bem. Essas fotos exibem um individuo moreno, de 1, 80 metros de altura e sem ficha criminal. Logo atrás está Mateus Terminus com um olhar profundo, como se estivesse maquinando alguma coisa. Nesta outra seqüência de fotos, vemos o senhor Terminus sacar uma arma e atirar no indivíduo, que nem teve tempo de reagir. As fotos foram tiradas por um rapaz no instante em que se dava a abertura de uma exposição cultural e artística.
- “Tempo”. Vocês nem entendem o real significado desta palavra. – Terminus.
- Silêncio! Ordem no tribunal! – Juiz.

Ao fundo do anfiteatro, sem que ninguém percebesse, um homem de sobretudo longo e chapéu preto observava tudo. Há um instante ele não estava ali, mas graças à sua invenção de uma máquina do tempo portátil, uma abertura no continuum surgiu silenciosamente nos bastidores do julgamento, tornando tudo realidade.

- Eu lembro dessas frases. Eu era um homem esperto, pena que nem tanto.

De repente, uma outra ruptura temporal surgiu e um homem alto, com uma armadura dourada de tonalidades azuis e vermelhas, gritou:

- Parado, Terminus! Aqui é a polícia temporal!
- Mas isso não existe!
- Ainda não. Mas daqui há 50 anos, seu invento será produzido em massa e nós, a Guarda Temporal, seremos instituídos. Captamos oscilações nesta época e percebemos seu audacioso plano.
- Eu vou ser morto neste julgamento, não entende? Aquele homem lá sou eu!
- Você foi condenado por transigir a lei temporal número 1: “é expressamente proibido alterar eventos passados!”
- Não!!

Antes de Terminus ser levado, deixou um envelope endereçado a ele mesmo cair no chão. Quando a primeira fase do julgamento havia sido encerrada, Terminus foi encaminhado à saída do anfiteatro. Antes de sair, notou que um envelope com seu nome estava no chão. Discretamente abaixou-se para amarrar os sapatos e juntou-o. Resumindo, a carta dizia:

“Você será morto ao final do julgamento. Salve-se!”

Mais tarde, em seu laboratório, Terminus ajustou seu primeiro protótipo de máquina do tempo portátil e enviou uma mensagem para si mesmo no futuro. Se alguém poderia ajudar ele, esse alguém seria somente ele mesmo.

(...)

Dez anos atrás...

Um homem desconhecido se despedia de um Mateus Terminus mais jovem, deixando em suas mãos um projeto para a construção de uma máquina do tempo portátil.

(...)

Uma semana atrás...

- Agora estou mais maduro e compreendo que o que fiz foi um erro. Não deveria ter alterado a cadeia de eventos e mexido com o espaço-tempo. Posso ter criado um paradoxo.

Andava distraidamente quando notou que hoje era a abertura de uma exposição cultural e artística no centro da cidade. Por este motivo resolveu ir até lá. Conhecimento sempre o atraía. No meio do caminho esbarrou em uma pessoa familiar, que logo o agarrou e sacou sua arma, dizendo:

- Você não sabe como o futuro virou um caos depois que você resolveu produzir a máquina do tempo portátil em massa. Por isso, darei um fim nisto hoje!

Um estrondo foi ouvido e logo a polícia temporal havia chegado.

- Alto lá! Não podemos permitir que o senhor gere um paradoxo irreversível, senhor Terminus! O senhor acaba de infringir a segunda lei temporal!
- Espera! Terminus? Eu? – disse, desvencilhando-se de seu captor.
- Vou lhe matar aqui e agora! E o futuro jamais existirá!

Com a distração, o homem da polícia temporal conseguiu golpear Terminus, que deixou sua arma cair no chão e saiu correndo. Entendendo que aquele era ele mesmo e que poderia alterar o futuro, Terminus juntou a arma do chão e atirou em si mesmo, pelas costas. Um rapaz que passava por ali ficou espantado e começou a tirar fotos...

(...)

Hoje...

Sentado na cadeira do réu, o professor e cientista naufragava em pensamentos, enquanto murmurava: “foi em legitima defesa”.

“Eu criei um paradoxo temporal. Se eu não tivesse voltado no tempo e criado a máquina que estava nos projetos, nada disso teria acontecido. O único jeito agora é acabar com a fonte dos problemas, ou seja, eu. Preciso deixar uma mensagem para mim mesmo. Pensando bem, não parece uma boa idéia.”

E, após alguns instantes...

“Essa não! Acabo de criar um paradoxo irreversível! Mas se acabei de desistir de me matar, como isso vai ocorrer?”

Ao terminar de meditar nessas palavras, notou que o tempo ao redor havia parado e só percebeu o que estava acontecendo quando ouviu o clique da arma da polícia temporal em sua cabeça.

- Ah... O fator externo. Havia me esquecido disso. A única solução para um paradoxo irreversível é um evento externo. Mas saiba que voltarei e darei um jeito de me avisar sobre você. Nem que seja através de uma carta...
- O senhor já fez isso... Mas isto acaba aqui.
- Ainda existirá um paradoxo.
- Sim, mas não um paradoxo irreversível, apenas um paradoxo concebível.
- Não me diga que...
- Sim.
- Deveria ter sido médico...

O gatilho foi puxado e o tempo voltou ao normal. Um corpo estendido no meio do anfiteatro apavorou a todos.

- Aqui é a polícia temporal. Missão cumprida. Sigam para o plano B, o paradoxo concebível. E rápido! Ou nem sequer existiremos, quanto mais as máquinas temporais portáteis!

Dez anos antes...

Quando Terminus estava prestes a entregar o projeto a si mesmo, escutou um tiro e caiu. Antes de desaparecer por completo, ele encarou o policial e disse:

- Por favor, cuide bem dele. Entregue esses projetos a quem saberá cuidar melhor e pelo amor de Deus, criem uma polícia temporal!
- Vou cuidar dele sim, pode deixar...

Antes de partir, o policial retirou o capacete e deu um amplo sorriso, deixando um bilhete para o recém formado professor, que dizia: “seja um policial temporal e não irá se arrepender!”.

E foi o que aconteceu... Mateus Terminus digitou as coordenadas da Central da Guarda Temporal e deu uma gargalhada alta.

- Paradoxo concebível... Missão cumprida!
Brian Lancaster
Publicado no Recanto das Letras em 10/10/2009
Código do texto: T1858760

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Comentários
17/10/2009 10h24 - Jacqueline K
PARABÉNS!!!!! Ainda existem histórias a contar sobre os paradoxos possíveis derivados do encontro consigo mesmo, e voce o faz com maestria!
11/10/2009 00h11 - Vitor de Silva
Li o link do seu conto no fórum e vim dar uma conferida; você manda bem. Ganhou um leitor duplo, a quebra de simetria do continuum da leitura me fez ler duas vezes. Diria que o paradoxo concebível chega na sofisticação do paradoxo do avô. Abraço.
10/10/2009 15h21 - Aline Braz Rosso
Que delícia ler seu conto! Puxa, quanta criatividade, ainda estou longe do seu nível! Parabéns!

Sobre o autor
Brian Lancaster
Cricíuma/SC - Brasil, 26 anos
50 textos (4347 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 11:46)

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