Erath – O despertar II
Capítulo 2
Planeta ‘Erath’. Duzentos ciclos estelares ‘ yin Hava’.
Ao longo de uma região recortada por imensos desfiladeiros, uma avançadíssima nave-cargueiro da temida Frota Expedicionária Harkoni paira ameaçadoramente sobre o que outrora fora uma cidadela nativa de Erath.
Bem abaixo da imensa estrutura do encouraçado, na qual se podem notar, facilmente, dezenas de mecanismos de elevação semelhantes a recipientes cilíndricos lacrados, uma pequena população de erathianos é conduzida a eletrochoques por entre uma passarela improvisada de imensas colunas eletrônicas equipadas com cristais de ‘Kamádio’; uma fonte de energia sensível à aproximação de formas de vida orgânica.
Entre as colunas de Kamádio e a massa de prisioneiros, encontram-se os ‘Aanuh’; os ciborgues de assalto da frota, supervisionando e incitando os subjugados através do corredor até os recipientes de suspensão.
Ladeando o silencioso cortejo, estão as plataformas anti-gravitacionais garantindo a segurança do perímetro sob o comando de Harov, um dos muitos algozes a serviço de Lorde Sahrza, o grande favorito do Círculo Vitalício Harkonio.
Com uma envergadura intimidadora somada à pesada armadura de combate que ostenta, Harov é uma figura imponente e assustadora para seus inúmeros inimigos. A voz que ressoa através do elmo com o auxilio de uma série de micro-transmissores de ondas é, ao mesmo tempo, soturna e potente.
Encarregado da incumbência de subjugar e desapropriar de suas colônias todos os remanescentes do planeta, Harov o escolhido do Círculo, faz jus à sua reputação de portador de uma das nove chaves do abismo que, segundo as crônicas perdidas de Hava, foram responsáveis pelo surgimento do poderio cósmico Harkoni que, em eras passadas, devastaram civilizações inteiras sob seu incalculável poder.
Por entre a fustigada procissão, aproveitando-se de uma valiosa chance que se apresenta no instante em que seu algoz se retira por um breve instante para atender a um chamado de seus superiores, um pequeno grupo ajunta-se cautelosamente formando uma massa cada vez mais compacta de prisioneiros. Dentre os cativos, um deles de destaca pelo posicionamento ofensivo contra seus captores e pela frieza demonstrada no momento em que um deles incinera impiedosamente um de seus ‘patrícios’. Seu nome, é Nato Hagen; um ex-combatente do Ihn’rath (título dado à resistência Erathiana) que durante décadas vêm frustrando as várias investidas das tropas Harkonis em seu mundo. Durante o período em que foram deflagrados os ataques que culminaram com a queda do Ihn’rath, e conseqüentemente de toda a colônia, todos os ataques desferidos pelas tropas de assalto Harkonis concentraram-se na total aniquilação da última casta de guerra Erathiana. Fitando discretamente cada movimento do comandante mercenário, Hagen quase desiste de ocultar seu segredo e sua fúria ao relembrar os nomes de todos seus companheiros mortos sem piedade ainda em seus leitos de repouso.
Movimentando-se com a energia cinética similar à de um inseto, a plataforma antigravitacional de comando de Harov projeta-se por sobre o acampamento improvisado com extrema estabilidade até o complexo principal da frota. Após acoplar o tombadilho esquerdo da plataforma ao nível superior da avançada instalação militar, Harov sente uma familiar fagulha de ansiedade ao notar a tremeluzente imagem que se forma um pouco acima do disco de projeção holográfica.
Mesmo antes de alcançar a definição apropriada, a aparição emite um som estridente e fantasmagórico.
– Apresente-se, escolhido de Sahrza – vocifera a aparição digital.
– Salve, ó poderoso Sahrza. Filho dileto do cosmo e patrono do poderio Harkonio – exalta o algoz, curvando-se e exibindo sua ‘Harikki-ha’, uma espécie de espada ancestral que simboliza sua aliança com a Dinastia e total devoção ao Círculo Sagrado.
– Todos os que antes habitavam a região rochosa, outrora denominada Estreito de Khrinna, deste momento em diante se encontrarão sob seu jugo, meu senhor – relata de forma enérgica o algoz.
– Para a honra e glória do Círculo Sagrado, a conquista de Hava deve ser completa – pronuncia a imagem do comandante – em nome do alto-comando a mim conferido, eu Sahrza, oficial-administrador de Kestoria e iniciado Harkonio, declaro que não haverá conquista enquanto não se fizer o equilíbrio... O equilíbrio, por sua vez, não se consumará enquanto o ciclo não se fizer completo. O ciclo... não se fará completo enquanto ‘Ele’ sustentar o abismo.
Com esta última sentença, Harov se faz estupefato como raramente se deixa aparentar e quase que num gesto de insubordinação, ergue-se lentamente tentando balbuciar algo que, pelo menos para a sua mente, neste instante, assemelhava-se a uma solicitação de esclarecimento.
Ainda de um modo ininteligível, ele tenta chamar, inutilmente, a atenção de seu mestre e empregador como se, de repente, em sua atual posição, fosse possível arrancar alguma resolução para tamanho enigma.
No entanto, a imagem se desvanece. Desaparecendo por completo, como se nunca tivesse lá estado.
Bem abaixo da plataforma, Hagen, que se esforçara para não ser percebido enquanto rastejava para longe das celas, consegue captar instintivamente os pontos cruciais do diálogo entre seus dois inimigos. Mas a exemplo de seu captor, acaba também ansioso por um melhor esclarecimento de tamanha charada envolvendo aspectos tão supersticiosos. Enquanto tenta mover-se sorrateiramente, mantendo assim uma distância segura dos desintegradores de Kamádio, Hagen, absorto no movimento da plataforma de comando acima de si, não se detém quando uma sentinela o adverte engatilhando um bastão energético.
Ao perceber uma alteração no movimento em volta, o incauto espião reage de forma inesperada diante da guarda Harkoni que, após ver estarrecida uma das sentinelas ser desarmada e posta fora de ação pelo prisioneiro em questão de segundos, ativa o código de segurança de aplicação às emboscadas. Em poucos minutos, um pequeno destacamento de pacificadores aéreos se dirige para cima do agressor que, ao contrário do que se esperava, não recua em nenhum momento.
Após uma luta ferrenha, Hagen tomba imobilizado por cabos de constrição que o enlaçam e o asfixiam a cada reação furiosa que deixa escapar devido às estocadas elétricas desferidas pelos bastões energéticos das sentinelas.
Alheio à movimentação abaixo, Harov se encontra profundamente absorto em sua pesada designação quando, finalmente, é convocado a atentar para o fato ocorrido com o prisioneiro insurreto. A princípio, o algoz não demonstra muito interesse com relação ao aparente contratempo, mas, ao notar mais atentamente a cena onde três de suas sentinelas se encontram abatidas, Harov desce a plataforma e segue a pé em direção ao local da contenda, sempre mantendo sua habitual postura; fria e silenciosa. Hagen, por sua vez, estando totalmente indefeso, limita-se apenas a estudar a situação em busca de uma ínfima chance de contra-ataque.
Com a sua aproximação, Hagen é erguido à altura do comandante Harkonio por um de seus ciborgues. Estranhando a intensa predisposição do prisioneiro ao combate, Harov solicita a um de seus subordinados diretos a identificação do prisioneiro.
– “Cativo Erathiano classificação 0019 <colônia A9> sob regimento Harkonio” – pronuncia quase que imediatamente um dos terminais eletrônicos de leitura genética.
Ignorando o termo protocolar previamente citado, Harov, como que movido por um aguçado sentido de alerta, agarra o longo cabelo do rebelado e descobre, por detrás de seu pescoço e próximo à base de seu crânio, a marca do implante de assimilação cibernética; um avançadíssimo ‘equipamento’ capaz de conferir ao seu portador a capacidade de adaptar-se a praticamente qualquer equipamento bélico de interpretação neural.
A partir desta inquietante descoberta, o mercenário desvincula-se de qualquer dúvida restante com relação à identidade de seu arredio prisioneiro.
– E então seu comandante de covardes – esbraveja Hagen – vai esmagar meu crânio agora que estou aqui acorrentado, ou prefere aguardar até que eu adormeça? – desafia Hagen expressando um inesperado sarcasmo dada a desvantajosa condição em que se encontra.
Sem entender precisamente o real motivo de tal ameaça, Harov detêm-se por um instante em sua posição apenas observando o par de olhos oblíquos que se apresentam como duas esferas acinzentadas sob a franja desgrenhada com as quais o prisioneiro passa a fitá-lo de forma cada vez mais intensa. Como se no ápice do furor que toma a sua alma neste instante, intentasse com os mesmos perfurá-lo tal como a uma adaga extremamente afiada e rasgá-lo ao meio, Hagen apenas aguarda a resposta explosiva do comandante Harkonio.
Mas, inesperadamente, e sem nenhum aviso, o comandante simplesmente dá meia-volta e retira-se em direção à plataforma de comando.
– Levem-no para os tubos de contenção criogênica – ordena Harov acionando sua plataforma antigravitacional – os biotécnicos da cidadela há muito anseiam por um espécime – completa o impiedoso algoz a desagradável sentença do prisioneiro que, em seguida, é erguido no ar como uma marionete por um dos ciborgues Aanuh.
Hagen, neste instante, cerra intensamente os punhos e jura para sí mesmo e em nome do fôlego de vida que lhe resta, que as súplicas do algoz e seu senhor se farão ouvir até no mais ermo dos túmulos de seus irmãos tombados.
Hike
Publicado no Recanto das Letras em 12/10/2009
Código do texto: T1862062
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