Dom
+Prólogo+
Tenho quase exatamente quarenta minutos de vida. O que fazer com eles? O ditado diz que todo homem durante a vida deveria ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro.
Sou, apesar de tudo, muito jovem para ter um filho. Árvores existem aos montes por aí, além do quê, demorariam muitos anos para crescer. Não tenho todo esse tempo. O que me resta? Um livro, afinal. Ótimo. Contar a minha própria história.
Serei rápido; como uma lança afiada num pescoço fraco.
+Começo+
Janeiro. Mês do meu aniversário. Eu já era bem grandinho, mas confesso que a idéia de receber presentes ainda me agradava bastante. Passava as semanas antecedentes imaginando se receberia tudo aquilo que eu realmente estava necessitado: um Headphone Bluetooth e a última temporada completa de Lost. O resto era apenas lucro, caso esses dois chegassem.
Com certeza a caixa de sabonetes estava garantida. Todo ano minha tia-avó me mandava uma. Enquanto me lembrava disso, rindo, me ocorreu um pensamento estranho. “Não esse ano”. Acompanhando este pensamento, um arrepio leve subiu pelas minhas costas.
Não esse ano. Sabia que era um pensamento besta, mas o sorriso se foi. Durante o resto do dia ele me voltou à cabeça. Sempre acompanhado de um leve arrepio. A cada vez, ficava menos nebuloso. Não era minha voz, era voz feminina. Não esse ano.
Minha tia-avó não era uma pessoa tão presente na minha vida a ponto de eu me perturbar desse modo com um simples devaneio sobre ela. Não, o problema não era isto. Era o quão real aquela mensagem foi. Parecia, digo apenas parecia, um alerta.
Na noite seguinte, depois do jantar, minha mãe estava revendo alguma coisa importante em um caderninho importante. Tudo era muito importante. Até demais. Eu estava esparramado no sofá, vendo televisão e com um livro aberto em cima da almofada. Era um hábito meu ver TV e ler ao mesmo tempo. Alguém pode duvidar, mas eu compreendia bem ambos.
Foi quando o telefone tocou. Minha mãe se levantou para atender. Podia ser importante, afinal de contas. Após cerca de quinze minutos, com ela calada, apenas murmurando algo vez ou outra de forma consoladora, foi que ela desligou o aparelho. Tirei o som da TV assim que ela me olhou. Estava lívida.
- Era minha prima. Acho que você não se lembra dela... – minha mãe deu um sorriso morto, típico de quando ela não encontra as palavras certas para dizer algo – eu acho que... Acho que você não vai receber aqueles sabonetes esse ano. Não esse ano...
A ficha caiu naquele momento. A voz, claro! Como eu não havia percebido que aquela voz era a da minha própria mãe? Não estava nítida o suficiente. Foi como uma memória antiga que voltava à mente. Mas agora eu entendia tudo.
Pensando bem, eu não entendia não. Ela acabara de falar isso, como eu poderia me lembrar? Não se lembra de coisas que ainda não aconteceram... Era melhor tirar aquilo da cabeça. E garanto: ver TV é ótimo para se tirar coisas da cabeça!
+Meio 1+
Título estranho esse aí. “Meio 1”. Mas fazer o quê? Talvez alguém mais criativo e, principalmente, alguém que não esteja prestes a morrer, o mude. Mas vamos lá.
As vozes, como você deduziu (ou não), me diziam o futuro. Na primeira semana achei que estava louco. Na segunda também. Até agora, na verdade, não descarto a opção da loucura. Mas os fatos que se seguiram gritam para mim dizendo que tudo foi, e ainda está sendo, real.
Os fatos foram os seguintes: tudo, exatamente tudo, que eu ouvi “meio nebuloso”, aconteceu. È estranho assim mesmo. Sempre imaginei que vidência seria algo mais elegante. Eu não via o futuro, nem pintava, nem sonhava. Eu literalmente o ouvia.
Chequei ao cúmulo de ouvir minha própria voz “meio nebulosa” dizendo satisfeita: 26 de janeiro. Meia hora depois ouvi na TV, num desses programas que dão prêmios a quem responder certo às suas perguntas, a seguinte: Quando é comemorado, na Austrália, o Dia da Austrália?
Foi automático, eu juro. Quando vi, estava com o telefone na mão, dizendo satisfeito: 26 de janeiro. Esse, acredito agora, foi meu primeiro e maior erro no uso do meu confuso dom.
Hipocrisia sua leitor, seja lá quem você for, em dizer que não faria o mesmo que eu. Não roubei, nem fiz nada de mau a ninguém. Estava apenas ganhando a vida com a habilidade que Deus me deu. Se é que foi ele mesmo que deu...
Acreditei que estava feito! Nada de me preocupar com faculdade, muito menos emprego. Passei dos programinhas fúteis às grandes apostas. Era só concentrar, ouvir, usar a inteligência e então o mundo era meu. O grande conquistador do mundo: O Jovem Vidente!
Levei isso tão longe que se durasse mais um pouco, eu sairia de máscara e capa preta na rua. Não salvando as donzelas indefesas, isso não. Eu ia era deixar as Vozes do Futuro me levar para lugares maravilhosos!
Então!... Elas fizeram isso. Levaram-me para lugares. Só que “maravilhosos” não os define bem...
+Meio 2+
Só para constar: aquele headphone que eu tanto queria de aniversário? Chantageei um primo meu depois de ouvir nebulosamente umas conversas suas e ele me presenteou carinhosamente o aparelho. E a temporada de Lost nem quis mais... Já sabia de todas as falas antes de assistir mesmo.
Ah! Acabo de ouvir, não - nebulosamente, o helicóptero que eu tinha escutado, nebulosamente, quando narrava o capítulo “Meio 1” dessa história. Estou escondido num contêiner, mas não adianta nada. Com Lara à minha procura... Se estiver certo, tenho menos de vinte minutos.
Falei antes que tinha sido levado a lugares não-maravilhosos. Foi exatamente isso. Entende-se por lugar não-maravilhoso algo como uma bacia d’água e sua cabeça dentro dela. Dentro, depois fora. E dentro de novo, até você ficar quase morto. Ai dentro de novo.
Fui pego? Sim. Como fui pego? Simplesmente não pude ouvir o futuro dos meus raptores, e essa era minha única arma. Por quem fui pego? Aí o leitor me pegou!
Esses caras são maus com gente feito eu. È, existe mais “gente como eu”. Um pouco diferentes; cada um com o seu dom. Foi o que eles me disseram depois de quase me afogar na bacia d’água. O lugar era escuro, só consegui ver sombras estranhas.
Mas ouvi a voz de uma mulher. Não era real, nem nebulosa. Estava na minha cabeça. Foi extremamente desconfortável ter minha mente invadida. Sinceramente! Isso deveria ser proibido.
A mulher se chamava Lara, ou pelo menos mentiu que se chamava Lara. Vasculhou tudo. Virou-me do avesso. E então saiu. Assim! Sem, mentalmente claro, dizer um adeus e até logo.
Não haveria até logo. Eu não sei o que aquela... Aquela mulher disse em seguida, mas o que quer que tenha sido, fez uma das sombras responder:
- Tem razão. È um idiota. Vidência na mão de um idiota é perigoso demais para nós. Dou um fim?
Perdão, mas a expressão “cagar-se de medo” nunca fez tanto sentido para mim. Soube naquele momento que o fim seria dado em mim. Não tenho tempo para descobrir, mas acho que fugir também é um dom meu.
Não estava amarrado, por certo eles confiaram em Lara para me deter. Nem sequer demonstraram ação ao me ver correr aos tropeções e fugir pela primeira porta que encontrei. Já na rua, lembro de sentir uma dor terrível na cabeça, que passou para o corpo todo. Era Lara.
Gemendo de dor no chão, ouvi nebulosa e milagrosamente uma coisa: *Por que Roger o mandaria?*
Sem pensar muito, gritei mentalmente: Roger me mandou!
- Por que Roger o mandaria?
Foi minha deixa. Não sei que sentimento estranho passou por ela (na verdade sei, mas na hora nem imaginava) que a fez afrouxar a tortura. Assim que senti minhas pernas novamente, corri. Corri como um condenado fugiria do carrasco... È, a comparação é boa.
+Fim+
Pronto. Resumidamente, muito resumidamente, foi isso. Entrei no primeiro contêiner que encontrei e me tranquei lá. Estou aqui agora. Sei que Lara está me procurando como louca, agora que ela sabe que eu não sei quem é esse tal Roger. Eu sei que ela sabe porque eu tive uma... "uma audição do futuro”, assim que entrei no contêiner.
Foi assim:
*Som de maquina das docas trabalhando;
* Som da minha própria voz falando algo que parecia um resumo de minha vida;
*Som de Helicóptero;
* Som da minha voz continuando;
* Som de ferro sendo forçado;
* Lara falando:
- Roger não o mandou, mentiroso!
* Eu
- Oi Lara... Uma mentirinha, só para descontrair! Mas o quê você acha que eles pensariam se descobrissem que você trabalha para esse Roger e não para eles?
* Lara
- Como você sabe que eu trabalho para Roger e não para eles?!
*Eu
- Você acaba de me informar.
* Som de ferro sendo forçado com mais força;
* Mente de Lara furiosa, me torturando novamente;
* - Por que você ri se sabe que vai morrer?!
* - Porque é inevitável. E a morte é silenciosa sabe...
* - Você ouviu a morte?!
* - Essa é a questão. Eu não ouvi mais nada, nada, depois que eu disse “disse”...
È. Eu ouvi o momento de minha morte. Então resolvi contar minha história num desses gravadores que tem aqui no contêiner.
Sabe que, pelo menos para mim, a morte foi (ou será) silenciosa mesmo? Não ouço mais nada além disso. È como um vazio profundo.
Muitos atribuem à cor preta a ela. Eu, humildemente, atribuo à morte o silêncio. O melhor e pior silêncio que eu já ouvira.
O Absolutamente Nada.
Mas eu ainda não morri de verdade. Nesse momento, escuto o som de ferro sendo forçado.
+Epílogo+
P.S: Poxa! Alguém ai que comprar esse gravador poderia escrever essa história? Já tá toda preparadinha, eu até dei nome aos capítulos. Faz esse favor à um falecido vai...
...
- Oi Lara...
Clic.
Yuri Araujo
Publicado no Recanto das Letras em 17/10/2009
Código do texto: T1871905
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