Aroldo Trindade - A Procura do Chupa-Cabra - Parte 2
Parte 2
O projétil foi em direção à cabeça do ET, passando pela joaninha que com muita dificuldade e destreza conseguiu desviar-se, e parou a alguns milímetros da cabeça do alienígena, que, já recuperado providenciou um campo de força por telecinese protegendo o grupo. Ouviu-se então um som vindo do céu como se um coral de 3.250 vozes, masculinas e femininas estivesse cantando em um único tom e em uma única sílaba. O som foi chegando cada vez mais perto. Pareciam agora 4.600 vozes entoando um Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh infinito. Ninguém se movia, todos olhavam para o céu, embasbacados. Em meio a uma nuvem apareceu uma espaçonave de resgate unapoueriana, Sua cor púrpura cintilante era maravilhosa. A velocidade da espaçonave era estrondosa, parecia que não iria parar. Todos se agacharam colocando suas mãos sobre as suas cabeças para se protegerem. Como se o fato de se agachar e de colocar as mãos sobre a cabeça fosse proteger alguém, de alguma coisa que vem em direção a ela. Principalmente quando alguma coisa é uma espaçonave. Apenas o Unapoueriano ficou de pé, imóvel. A espaçonave parou bruscamente alguns metros acima da cabeça do Una. O som cessou no mesmo instante. O deslocamento de ar foi tão grande que a joaninha, que se recuperava do susto, e a vam foram desintegradas. Toda a terra em volta do grupo foi removida. O Exercito foi removido, os jeeps, os helicópteros, as árvores, os animaiszinhos e tudo mais num raio de mil metros. Foram arremessados ninguém sabe para onde. O fato é que eles e tudo mais que foram removidos pelo deslocamento de ar não estavam mais lá. Nem a joaninha. Pobre coitada.
Akira havia se mijado nas calças. Aroldo estava pálido não acreditava no que via. Zaqueu foi um pouco pior, tinha se cagado nas calças e Al estava indiferente com tudo que havia acontecido. Inclusive com a joaninha. Uma porta se abriu e uma rampa desceu até os pés do Una, que os convidou a entrar. Logo no “hall” de entrada um outro Unapoueriano aguardava-os com uma caixinha translúcida nas mãos repleta de flaconetes também translúcidos, cheios de um pó branco com o nome impresso no flaconete, que traduzido para o português se lia ANODARAM: “Ativador Nasal Ondular Dinâmico Alternativo Realístico Alucinógeno Mental”. Nada mais nada menos que Nano Draps* para inalar. Eles teriam que cheirar o pó branco, assim entenderiam quaisquer línguas faladas, escritas e pensadas.
"Nano Draps quando inalados ativam uma parte sensorial obscura do cérebro, que, o individuo, humano ou não, e que não utiliza esta parte por ela estar na obscuridade total, passa, por efeito dos Nano Draps, a usar esta parte do cérebro retirando-a da obscuridade. As nano cabeças pensantes começam então a traduzir tudo que o individuo vê, ouve e pensa. Os neurônios se encarregam de levar as informações já traduzidas até o córtex fazendo o individuo compreender tudo.
Impressionante é a diversidade que os draps proporcionam. Podem ser usados em quase tudo. Os Unapouerianos não sabem ao certo quem inventou ou quando surgiu esta substancia. A informação existente a respeito, é de que, um Unapoueriano eremita que veio das Cordilheiras Tridimensionais do Sul onde teve contato com os draps. — Os draps eram produzidos pelos nativos da região e eram extraídos de uma planta também nativa, que ninguém sabe de onde ela veio e nem como foi parar lá. Os nativos utilizavam os draps para fazerem pinturas rupestres nas paredes das úmidas Grutas Quadrimensionais que ficavam logo depois das Cordilheiras Tridimensionais. O eremita Unapoueriano cheirou este pó num ato de insanidade e de loucura, só para ver qual era o barato. — Ele apareceu na Central Galáctica Térmica pedindo emprego, que acabou lhe sendo concedido por sua insistência paranóica, mas foi enviado para o pior lugar que se poderia imaginar. Para o Poço de Refrigeração do Propulsor Cíclico de Redundância nas Industrias Fresnoc & Fresnoc Espaçonaves Interestelares. Até então as espaçonaves Fresnocs não atingiam a velocidade Putzz e era demais entediante uma viagem interestelar sem a velocidade putzz em uma espaçonave Fresnoc. A empresa estava à beira da falência, pois não vendia as suas espaçonaves. Tinham paralisado a fabricação de rosquinhas Fresnocs, que era o carro chefe das industrias, para produzirem espaçonaves. O trabalho do Unapoueriano eremita consistia em molhar o Propulsor Cíclico com uma canequinha de aluzílio cheia d’água para refrigerá-lo. Ele e mais 3.499 outros trabalhadores do setor. Um dia ele estava muito ansioso e foi cheirar o seu pó deixando cair, sem querer, seu flaconete translúcido dentro do Propulsor Cíclico. O que se viu e ouviu em seguida foi uma reação em cadeia dentro do propulsor. Imagens multicoloridas se formaram e tinha-se a sensação de que um coral de 3.250 vozes, masculinas e femininas estivesse cantando em uma só voz, em uma só silaba e em um só tom. O que se ouviu foi: Ohhhhhhhhhhhhhhhhh! Interminável. E a nave atingiu a velocidade de 10 putzz. Ao mesmo tempo em que os draps, “cabeças pensantes”, refrigeravam o propulsor cíclico com seus pensamentos suaves e líricos numa maestria sem igual. A velocidade Putzz usa a mesma teoria da Dobra Espacial, só que com mais dobras. É mais ou menos assim: Vamos pegar uma folha de papel alcalino 75 gr. com 20 cm. Suponhamos que se, a joaninha ainda estivesse viva e ela quisesse percorrer a folha de papel de um ponto ao outro, andando, provavelmente ela teria que percorrer os 20 cm da folha de papel, ou não, dependendo da distancia entre os dois pontos. Na teoria da Dobra Espacial, se você dobrar a folha de papel ao meio e unir os pontos ela só teria que percorrer alguns milímetros voando para alcançar o outro lado. Na teoria da Velocidade Putzz você simplesmente faz mais dobraduras nesta mesma folha de papel (espaço), transformando-a em um leque ou sanfona, como você quiser. Para cada dobradura a mais, é um Putzz. Logo chegamos à conclusão de que dez dobraduras são 10 Putzz. Nuca foi possível ir alem da velocidade de 10 Putzz. Primeiro porque o cara que dobrava o papel estava cansado e enjoado de ficar dobrando folhas de papel e segundo não existia papel alcalino com mais de 20 cm de tamanho na ocasião. Tentaram fazer a mesma coisa com folhas de jornal, que são maiores, mas infelizmente não deu certo, muitos acidentes aconteceram, Talvez pela qualidade do papel. Era muito ruim".
Era o que estava acontecendo neste momento com Aroldo, Zaqueu, Alzheimer e Akira depois de cheirarem o pó. A vontade que eles tinham era de abrirem suas cabeças, despejar vários cubos de gelo, colocar limão, açúcar e tomar com canudinho. Zaqueu preferia groselha ao açúcar, e Aroldo adoçante. Tudo isso em míseros trinta segundos, mas que pareciam uma eternidade para eles.
Passados os trinta segundos eles já estavam bem.
— Senhores. Podem me acompanhar. — falou o Unapoueriano que segurava a caixinha, o qual Aroldo estava com vontade de esganar.
— Fantástico! Posso entender o que ele falou e posso ler o que está escrito no flaconete!
Zaqueu lia no flaconete o nome, ANODARAM, que por coincidência, ou não, ao contrário lia-se MARADONA.
— Se os Senhores olharem pela janela à direita verão a espaçonave Fresnoc XVI. A espaçonave Fresnoc XVI esta parada por motivos de pane elétrica a pelo menos 112 longos e entediantes anos terrestres, a espera do Modulador Randômico Multifacetado de Memorização. Esta peça é importada e vem do estremo oriente da Constelação de Chináclia. Por isso da demora. Perdoem-nos.
— Nossa! Tem a forma de uma rosca gigante... só que ovalada! — exclamou Zaqueu.
— Impressionante o tamanho dela! — exclamou Aroldo.
A espaçonave realmente era grande, provavelmente era maior que muitas cidades do Brasil. A cor púrpura cintilante era predominante na espaçonave que acabava deixando-a mais... púrpura e cintilante ainda. Agora passavam por cima da espaçonave e viam uma redoma translúcida com uma praia dentro dela. Como a espaçonave Fresnoc XVI é utilizada para cruzeiros intergalácticos e ao mesmo tempo para transporte de prisioneiros para descarte no planeta Chifron, e que por este motivo ninguém viajava nela a cruzeiro. A praia só servia para os prisioneiros tomarem sol. O grupo olhava, mas não acreditava no que viam. Deu para ver de onde estavam, que alguém em algo que parecia ser um catamaran navegava nas águas calmas da intrapraia, é assim que são chamadas, quando de repente um Zanterpárpavos* saiu de dentro d’água e engoliu o alguém e o catamaran juntos, assustando a todos.
"Zanterpárpavos – Seres horrendos, vertebrados da família dos Zanterpárpavus, que se alimentam de formas de vidas baseadas em carbono ou não, vertebradas ou não e outras coisas que não tenham vida como catamarans. Seus pulmões quadrifásicos são capazes de processar quatro diferentes gases ao mesmo tempo: Gás carbônico, metano, oxigênio e hélio. O gás que se forma no processo de sua digestão é oxigênio puro. Esta foi uma das formas encontrada para suprir a escassez de oxigênio dentro das espaçonaves do porte da Fresnoc XVI. Vivem nos Oceanos Revoltos de Zakzonzéba II, planeta um pouco menos medíocre que Zakzonzéba III. Não vamos comentar nada a respeito de Zakzonzéba I, pois é definitivamente irrelevante qualquer assunto sobre ele, seus habitantes e sua política. Os Zanterpárpavos são utilizados como “cães” de guarda nos intramares das espaçonaves Fresnocs, na tentativa de inibir fuga, em massa ou individual, de prisioneiros. Fato esse que intriga a todos, pois mesmo sabendo que o outro lado da intrapraia não os leva a lugar algum tentam escapar mesmo assim".
Um sinal sonoro soou e uma porta imensa se abriu e a espaçonave onde estavam entrou. A parte interna da espaçonave Fresnoc XVI era ainda mais púrpura cintilante que do lado de fora, muitas partes internas dela eram translúcidas causando um efeito translúcido púrpura cintilante maravilhoso. O visual era impressionante, a espaçonave era muito maior pelo lado de dentro do que pelo lado de fora, se é que, é possível alguma coisa ser maior do lado de dentro do que do de fora. Talvez fosse o efeito causado pelas partes translúcidas da espaçonave. Está aí uma coisa que os Unapouerianos gostam mais do que suas próprias mães, coisas translúcidas. Se você quiser deixar um unapoueriano feliz é só resolver os problemas com panes elétricas e dar a eles alguma coisa translúcida de presente de preferência com um rótulo na cor púrpura cintilante. Ah! Como eles ficam contentes. A espaçonave taxiou por duas horas até achar uma vaga, mesmo estando as 100 vagas para deficientes físicos vazias, e, mesmo sabendo que não existiam unapouerianos com deficiência física, pois eles manipulavam o DNA. Mesmo assim a vaga não foi usada. Nem com a insistência de Zaqueu dizendo que eram apenas cinco minutinhos e que as vagas eram tantas. Os Unapouerianos são considerados universalmente a única espécie a respeitar plenamente os deficientes físicos. E os seres humanos, a que mais desrespeita. A espaçonave então achou uma vaga e parou. Ao descerem da espaçonave um veículo de transporte os aguardava. Ouviram, não sabem de onde, uma voz rouca e feminina, muito educada e muito parecida com a voz de Daniela Cicarelli. Os Unapouerianos adoram a voz dela por isso usam-na no sistema de som da espaçonave, que por sinal é muito eficiente. Mesmo o veiculo estando em movimento é possível ouvi-la, sem interferências e sem estática. Bem diferente, por exemplo, do sistema de som do Metrô de São Paulo, que quando o locutor fala, você não entende, pois o som está baixo. Quando o som está alto você não entende por causa da estática e quando não há estática você não ouve por causa do barulho do trem. Então fica a pergunta. Por que existe esta porcaria de sistema de som, se ninguém ouve ou entende? — Bem, continuando. — A voz dela era usada nas empresas de telemarketing, campanhas publicitárias, inclusive, nas orientações sexuais que eram feitas com os presos na intrapraia, onde um clone de Daniela Cicarelli fazia as aulas praticas de orientação sexual com os prisioneiros. Com todos. E de uma só vez.
— Por gentileza queiram entrar no veículo de transporte, sentem-se, permaneçam em silêncio — neste momento Zaqueu estava apertando um dos milhares botões existentes no painel multicolorido púrpura cintilante e tomou um tapa na mão, de Aroldo, — e não toquem em nada! — disse à voz que não foi tão gentil assim nesta hora. — O veiculo ira levá-los à Central Universal Telemétrica*.
“Para entender o que é “Central Universal Telemétrica e o que se faz lá”, vai ser melhor você adquirir o livro digital intergaláctico “CUT – Central Universal Telemétrica – O que se faz lá?”, que é dado de brinde nos pedágios intergalácticos, e que vem com mais um encarte sobre a “CGT – Central Galáctica Térmica – Por que não usamos mais canequinhas de aluzílio?”. Como os encartes de brinde nunca são entregues, e depois são doados para alguma ONG que promove reciclagem, então você nunca vai saber a respeito destes assuntos”.
Continua
Gerson Balione
Publicado no Recanto das Letras em 20/10/2009
Código do texto: T1877406
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