RETROCESSO 2 - A suspeita
NOTA:
É necessário ler anteriormente:
*RETROCESSO - Prólogo.
*RETROCESSO 1 - O Santa Rita
*******************************************************
2
A suspeita
A similitude da sala de artes com a sala de video só era diferenciada pelas cadeiras de madeira com pernas de ferro e mesas para quatro pessoas. O restante, do piso de cimento as cortinas, parecia uma copia perfeita.
Ocupando a mesa central, encontrava-se duas pessoas de muita semelhança nas maldades, porém de grande diferença no condicionamento físico.
— Com todas as informações que temos, essa disputa já está ganha.
A frase partiu de um corpo magro, boca grande, mas ressecada pela maldade. Soraia tinha pouco mais de um metro e cinqüenta, apesar de dar impressão de grandiosa por causa da voz estridente, gestos nazistas e olhar corrosivo. Naquele momento se vangloriava de informações trazidas do outro grupo, onde botara um espião.
— A derrota deles será um júbilo para nós.
A segunda voz era de sua melhor amiga, Amélia: cinco centímetros mais alta, voz macia como um veneno adocicado, seios fartos por estar amamentando um rebento nascido dum relacionamento libidinoso e anti-cristão com outro aluno de trejeitos bárbaros; olhos negros sempre a procura de alguém inocente que pudesse enganar, destruir pelo simples prazer de faze-lo. O corpo já estava corrompido pelas gorduras salientes, formando um um contorno irretratável de uma futura obesidade.
Soraia levantou-se da cadeira, aproximou lentamente da janela e viu seu informante atravessando o pátio. Sem se virar para a amiga – que passava distraidamente os dedos adornados por unhas pintadas de preto, pelo cabelo – anunciou de forma apocalíptica:
— Essa é minha oportunidade. Provarei que sou melhor que todos.
OS PASSOS ERAM DE UM SOLDADO QUE DESFILAVA SUA VITÓRIA. O DEVER FORA CUMPRIDO. SENTIA-SE JUBILOSA AO ENGANAR aqueles idiotas. Cada passo vinha acompanhado de um sorriso matreiro.
Parou diante da porta pintada de um cinza claro: Atrás daquela porta estavam as pessoas consideradas as mais inteligentes do Santa Rita, capazes de ler Dostoiévski, discutir Freud, fazer previsões sobre o futuro da política e discordar das idéias de Sócrates. Mas era ela – mergulhada na sua ignorância, desprezada por sua falta de cultura – que por fim passaria a perna naquele bando de suposto gênios, esfregando seus egos na lama.
QUANDO A PORTA DA SALA ONDE ESTAVA UNIDA A PROMOTORIA SE ABRIU, A SALA TODA MERGULHOU NUM SILÊNCIO DE VELÓRIO, olhando diretamente para a figura que entrava.
Antonia vetou a entrada, dirigindo-se e ocupando o lugar de outrora, ao lado de Ederson e na frente de Vandeir.
— Ninguém vai dizer nada – Helena interrogou com o olhar cor de mel cada membro da sala.
Não obtendo resposta, encarou sua presa:
— Então falo eu. Antonia, nós acreditamos que esteja passando informações do nosso grupo para a Soraia.
Calúnia! Difamação! Seus ouvidos não queriam aceitar tamanha atrocidade. Em que momento teria dado qualquer motivo para que fosse ofendida dessa maneira?
Natália interferiu nas exclamações exageradas da acusada:
— Não é necessário tanto assombro.
— Como não. – Apontou para Helena. – Ela me acusa da forma mais viu e você vem me dizer que não é necessário. Gente, juro que não fiz isso.
— Tem de convir que é bem estranho Soraia saber de tudo que vamos apresentar. Já percebemos que ela sabe. – Naty tratava do assunto de forma branda, fazendo jus sua fama de centrada.
— A acusação é absurda. – As palavras foram atiradas – Se fizesse isso, também me prejudicaria.
— Não estamos lhe acusando, apenas suspeitando. – Ederson tomou a palavra com voz firme, no entanto, afável, que não deixou-a perceber sua quase certeza na culpabilidade que sentia pairar sobre a moça.
— Eu estou acusando. Ela é a culpada – Helena apontava Antonia com a certeza do delito.
— Não temos prova – disse Vandeir com a firmeza dos justos. Mas todos ali reunidos sabia que dizia isso apenas para colocar mais lenha na fogueira. Do mesmo modo que Ederson, fazia papel de apaziguador, mas continha um desejo sádico de ver uma boa briga.
— As saídas que dá durante nossas reunioes já são provas suficientes. – Helena estava com o rosto rubro diante de tanto cinismo.
— Só vou ao banheiro
— Nem se você estivesse com diarréia, sairia tanto assim.
Exceto Antonia, todo o resto caiu numa gargalhada com as palavras do Vandeir.
E começando a chorar, pondo as mãos sobre os olhos:
— Nunca imaginei que fossem capazes de desconfiar de mim.
Natália sentiu uma sensação ruim ao ver as lágrimas da outra. Acreditava ser difícil que ela estivesse falando a verdade, mas não gostava de ver atormentadas pobres criaturas.
Manoel, prostrado em sua cadeira, tirava sujeiras debaixo das unhas; não interessava-lhe se havia ou não vazado informações. Sendo o inútil que era, qualquer palavra dita poderia ser recebida com ofensas, o que não estava disposto a suportar no momento.
Ederson, Vandeir e Helena tinham sobre o rosto o capuz preto do algoz, prontos para soltar a corda da guilhotina e ver a cabeça da cretina separada do corpo por uma lâmina afiada. Para puxar essa corda, a moça loura, de rosto vermelho se prontificou dizendo:
— Lágrimas de crocodilo não comove.
— Juro que não passei informação alguma – Secou os olhos com as pontas dos dedos e pôs-se a olhar os algozes.
— Então recuse-se a ser promotora nesse júri simulado, passe a ser testemunha. – Amenizando a sentença, não querendo ver a cabeça se desprender do corpo, Ederson deu essa sugestão. Afinal de contas, não sendo promotora, não precisaria fazer parte das últimas reuniões, não tendo assim mais nenhuma informação.
— Eu quero ser promotora – insistia a bandida.
— Troque de lugar e prove sua inocência – insistiu Vandeir, para apoiar Eder. Por ele, não só gritaria: “cortem-lhe a cabeça”; como adoraria espalhar pedaços da vítima pelos quatro cantos do colégio.
— Não vou mudar de lugar – Já não tinha nem uma lágrima nos olhos. Percebeu que não poderiam expulsá-la do grupo, portanto permaneceria como estava: com sua cabeça sobre o pescoço.
O que ela não sabia, é que por detrás da porta, com o ouvido bem alerta, o professor que havia dado a idéia do júri, ouvia toda a conversa, chegando a um veredito: Culpada.
— Acreditamos que não foi você. – Natália tinha pouca convicção no que dizia e o fez apenas para encerrar o assunto.
— Vou tomar água – foram as palavras ditas por Antonia, que mais uma vez deixava a sala.
SEM PERCEBER QUE NA ESCURIDÃO, AS SUAS COSTAS, AO FUNDO NO CORREDOR, O PROFESSOR A OBSERVAVA. ELA CAMINHAVA saltitando, sem lágrimas nos olhos e carregando nós lábios um sorriso de deboche.
SORAIA NÃO TINHA DOTES SUFICIENTES PARA VENCER AQUELE JÚRI HONESTAMENTE. AMÉLIA APOIAVA ESSE PLANO APENAS para estar do lado da amiga. E Antonia, qual caminho tomaria? Qual a verdade daquele sorriso debochador? Perguntas que todos queriam saber, principalmente Natália. Ela não conseguia entender porque uma pessoa prejudicaria o próprio grupo.
Vendo aquele ar de interrogação no rosto da amiga, Vandeir sorriu. Só ele sabia que o professor estava ouvindo a conversa do outro lado da porta e só ele sabia o final dessa história.
Vandeir Freire
Publicado no Recanto das Letras em 29/06/2008
Código do texto: T1056322