Texto

ÍNGREME

A brisa da manhã veste-se tepidamente com o brilho solar,sinais de exaustão e o ruído dos pássaros.
Me reviro,mas a luz invade as frestas das janelas,insistem em convencer-me.Devo abrí-las?
Ah!Abrí-las.E então,me deparar com o grito polvoroso de milhões de vozes berrando a dor.Gritos assustadores lancinando minha cabeça,são terríveis.
O mais terrível são as almas suicidas a convocar meu nome em voz alta,clamando a libertação.Querem desprender-se de seus grilhões.

Enfim,abro as janelas.A escuridão inexistente,o trajeto da multidão,a imensidão de veículos a confundir minha existência.
A espreitar da janela,meus companheiros de toda manhã,surgem para o consolo.
Corvos!Aves complexas,descontentes.Pagãs!Prenunciam o óbito.

As ruas frias,gélidas.Uma manhã de inverno .Tudo incansavelmente frustrante.Lojas,supermercados,empresas,carros,multidão,acompanham o progresso.
Por um instante,olhei para os prédios e seus apartamentos.Encantado,fixei meu olhar em uma única janela.
A janela repleta de corvos e um rapaz por volta dos 20 anos,chamou minha atenção.Estava debruçado sobre a varanda,com o olhar vago e tortuoso.Apoiava-se no balcão,no intuito de reduzir a aflição.Afastou-se da varanda e penetrou a janela.Desapareceu por instantes,tempo o bastante para os corvos voarem,sumindo na imensidão do céu.
O jovem retornou ao local de outrora,empunhando algo.Pressionei meus olhos,tentando descobrir o objeto segurado.Aproximou-se novamente do balcão,apoiou-se galgando o mesmo.Dependurado,empunhando um lírio na mão direita,iniciou seu epílogo.
''O chamado tácito
Congelante
Invadiu minha janela
Arranhando em minha garganta
O desejo irrevogável
A fome de libertação
Voar infinitamente
Sem grilhões"

De olhos arregalados e ouvidos atentos,aquele último verso se espalhou ao meu redor:''Sem grilhões''.
Belíssimo verso para saltar do 15º andar.
O rapaz deslizava no ar de forma desesperadora,com um sorriso em seus lábios,um gozo infindo.Os olhos fechados,desfrutando da leveza e o corpo arrepiado,apreciando a brisa.Sua alma enchia-se de um deleite inesgotável,parecia penetrar o Éden e desfrutar de belas ninfas em lagos inconscientes de nossa memória.
Foram segundos infindos em júbilo e dor.A nuança da glória e derrota.

Estava cercado pela multidão e pelo líquido vermelho da morte.Minha cabeça prensada,jorrava uma enorme quantidade de sangue.
A juventude se jogando da varanda,e a última coisa a recordar é o triste silêncio.A penumbra abissal se fundiu na minha memória.
Gloriosa queda do 15º andar.Atirei-me e desfrutei do gozo primário.Banhei-me em sangue e o espectro do óbito,acariciou e segurou minha mão.Conduziu-me para a liberdade.Arrancou meus grilhões.
Cristiane Vieira de Farias
Publicado no Recanto das Letras em 30/06/2008
Código do texto: T1058480

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Sobre a autora
Cristiane Vieira de Farias
São Paulo/SP - Brasil, 21 anos, Escritora Amadora
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