O monstro
Havia alguns passos na grama verde.
O homem agachado sobre eles, observava com certa vibração no olhar, mesmo que aqueles ao seu redor não percebessem tamanho ardor.
Ou seja… ninguém, além dele, havia notado tamanha pista.
Conteve o grito de “aqui!” para si. Tinha que saber se o que via era realmente uma prova! Afinal, informar algo que possa se tornar uma pista inversa não seria nem um pouco útil para sua carreira…
Havia duas grandes pegadas…
Quer dizer, aquilo pouco queria dizer… nada além de que alguém por ali havia passado…
Mas, e aquele corpo, totalmente retalhado encontrado dentro da casa? Será que eram da pessoa que o havia deixado daquela forma, tão monstruosa, aqueles passos? Aquelas pegadas?
O homem, ainda sem tirar os olhos dos pés que ali estavam, imaginava, ou tentava imaginar, como poderia ser a pessoa que havia tais marcas.
Não deveria ser ninguém excepcional, conclui, primeiro, pelas marcas terem pouquíssimos vincos. Quer dizer, isso lhe fornecia duas informações, precisas, porém passíveis de serem opostas!
Ele pode ser um homem até gordo, pesado, mas tinha os sapatos extremamente gastos. Uma pessoa pobre, de pouca criatividade furtiva, e, principalmente, inexperiente.
Porém, a verdade também poderia levar-lhe a outro caminho… era um homem magro, esguio o bastante para marcar com leveza a grama pela qual passaria.
Mas, isso não garantiria sua experiência como assassino, ou nem o tornaria o principal suspeito!
Podia ser um amante! Quem sabe?
Eu odeio dúvidas.
Ficaria com a idéia de que era um homem gordo. Realmente… as passadas descompassadas demonstravam o esforço para carregar sua obesidade! Não havia dúvidas.
Ergueu-se, mas não antes de tirar umas fotos em sua câmera digital das passadas.
Olhou para os lados e, ainda escondido sobre as sombras da noite, viu-se solitário em sua descoberta. Ninguém por perto!
Será que havia mais delas? Para onde levariam?
Tentou iluminar um possível caminho. Com o celular, foi rodeando seus 360 graus de visão, até perceber um graveto quebrado. Ali estava o homem!
Havia passado por baixo da cerca viva! Esguio, o maldito!
Era inteligente chamar o pessoal agora…
Será? Não, ainda não!
Aquele seria o caso de sua vida! A solução para seus problemas financeiros!
Este caso é meu.
Tentou passar por entre os gravetos quebrados e notou-se gordo demais para aquela tarefa, demasiadamente largo.
Magro, esguio… pequeno?
Será que era um adolescente?
O homem que todos estão caçando é um menino?
Isso começava a lhe assustar… ele, logo ele, pai de duas crianças… imaginar que elas podem se tornar algo tão… monstruoso.
Não havia opções, ele tinha que achar aquele sujeito! Agora não havia opções… entrara de cabeça.
Não posso acreditar que uma pessoa… uma criança seja capaz de matar uma mulher! Não, não daquela forma!!
Se fosse um acidente, tudo bem… uma arma engatilhada esquecida sobre o criado-mudo… mas não!
Ele havia utilizado uma faca. Uma simples faca de cozinha!
Fatiar uma pessoa exige muita, muita frieza!
Não, só pode ser minha imaginação…
Não, não era um adolescente! Podia ser um homem pequeno simplesmente!
Seguiu a trilha torta que levava à rua do outro lado da casa. Meu Deus, ele esteve aqui atrás, o tempo todo, nos observando!
A polícia chegou quase que imediatamente, após o telefonema. A voz fina e fria dizia somente que havia encontrado algo monstruoso dentro de sua casa!
Um corpo, um corpo totalmente desmembrado! Parte por parte…
Vomitou ao rever a imagem em sua mente…
Passou a ver seu filho com uma faca nas mãos, sorridentemente a fatiar a mulher!
Não havia ninguém mais na parte de trás da casa… só estava ele. Só.
Ele e a imagem sinistra de uma criança matando uma pessoa.
Correu os olhos sinistramente pela rua abandonada. Tudo que via era um enorme breu.
Uma sombra!
Movendo-se, por trás das árvores!
Começou a correr. Desesperadamente. Tinha que alcançá-lo.
A sombra era tão pequena que mal era possível de distingui-la por entre os galhos baixos das árvores.
A sombra sumiu próxima a um carro. Tinha que correr.
Mais rápido!
Mais rápido!
O alarme do carro começou a soar!
Gritando para todos os outros policiais. Iriam, agora, saber que eles estavam ali atrás.
Meu caso! A merda do meu caso!
O carro saiu cantando pneu de ré. Tinha que achar outro carro. Não poderia deixá-lo fugir!
Se, pelamordedeus, não seja… se era uma criança, eles nunca mais poderiam colocar as mãos nela!
Achou um carro e não pensou duas vezes. Usando o cotovelo protegido pela manga do grosso casaco, estilhaçou o vidro do motorista e logo entrou.
Aprendera muito bem a fazer ligação direta durante seus cursos.
Saiu cantando pneu.
O pequeno sabia dirigir muito bem!
Estava cada vez mais rápido, mas parecia perdido.
Já ele não estava! E conseguia se aproximar.
Aquele caminho que o moleque está fazendo tem um desvio na frente. O homem poderia cortá-lo e logo chegaria no carro sem direção.
Estavam muito próximos agora!
Essa vizinhança… ela é familiar!
Não…
É meu bairro…
O carro continuava a andar em zigues-zagues. Até se chocar contra um poste!
O homem desceu do carro desesperado! Tinha que alcançá-lo!
Correu, sem fôlego… é, a idade…
O pequeno assassino tinha que estar ferido! Ninguém sairia sem ferimentos de um acidente como aquele!
Não há como alguém sair andando tão tranqüilamente de um carro como ele saiu!
E ele corria!
E os dois corriam!
Dois loucos por entre as vielas e ruas apertadas pelas sombras da noite.
O homem já estava esgotado, mas o moleque não parava! Ele teria que atirar.
Não, não é solução! Eu não posso atirar em uma criança!!
E sumiu!
Droga! Ele sumiu.
Essa casa…
Essa…
Casa.
Bateu na porta com delicadeza.
Estava fechada ainda. Parecia que alguém a trancara por dentro.
Pegou a chave, e, tremulamente, colocou-a na fechadura.
Girou.
Lá estavam.
As duas crianças, olhando para a televisão, como se nada houvesse acontecido.
Uma criança, uma criança como aquela havia matado uma mulher a sangue-frio…
Aquela cara de inocência… aqueles corpos tão miúdos. Será que é isso que esconde a verdadeira essência do ser humano? A aparência.
Dizem que a aparência do mal é pior do que o mal em si… mas, e se o mal se esconde sob a aparência do inocente! Será que todos, um dia ou outro, inexoravelmente, se tornariam maus?
Aquelas crianças… tão inocentes?
O que se tornariam?
A solução se tornou óbvia.
Corte o mal pela raiz, dizia seu pai, durante a seção de fiveladas.
Pegou a arma e não conseguiu fechar os olhos, antes que seus dedos agissem.
A arma, quente, caiu ao chão, após realizar sua função.
Os tiros, ouvidos por todos.
Quando a polícia chegou, a imagem foi monstruosa…
Um homem… com um emblema falso da polícia… insanamente abraçado aos seus dois filhos mortos… e a televisão, no último volume, mostrava a prisão de um assassino…
Monstruoso…
Michel Montsalvy
Publicado no Recanto das Letras em 30/06/2008
Código do texto: T1058662
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