TUTTI PRESTO
Tutti Presto
Um Conto de Terror Italiano
SONO.
As pessoas acham que sabem o significado de uma palavra. Subversão. Esperança. Amor. Desde sempre, as pessoas falam "eu te amo" com essa absurda rapidez. Esperança também é ver aquele caixão durante cada um dos minutos que compuseram quatro curtas horas e saber que alguma coisa ainda podia acontecer antes do caixão ser fechado na nossa frente. Então uma pessoa se conscientiza, se puder tanto, que está apenas mergulhada em esperança, desespero, amor. Amor também é saber que errou tanto e que a pessoa não vai mais voltar. Então outra pessoa se conscientiza, se tanto capaz, de que continuará inevitavelmente amando, mesmo quando aquela pessoa amada honestamente não se importa.
O fardo diário é muito pesado. E não há retorno. Subversão. Esperança.
Mas Amor. E desespero.
Ah, maquinário social robotizante do comportamento humano.
Muito sono. Finalmente entendi que tenho trabalhado demais. Uma mulher magra e jovem, com a escuridão desses cabelos órfãos, longos e brilhantes nesse espelho da parede. Uma moça que poderia estar se divertindo agora com os amigos em uma boate, eles estavam lá, eu estudando. Essa farmácia de dia, os livros em baixo da bancada e à noite eu escalo paredes e pulo muros, correndo de marginais.
Porque agora eu também sou marginal.
Eu era sedentária. Ontem à noite. Eu corri de marginais.
E o improvável. No meio de tudo. Ele é vindo de um sonho. Só pode ser psicopata. Ele é perfeito demais. A questão é simplesmente essa. No meio do redemoinho ele entrou na farmácia.
E antes de ontem eu fiz algo muito arriscado. Mas considerando esta minha nova condição. O que é arriscado?
A gente naquele galpão, meu Deus, Murilo. Você brincando com meus cabelos enquanto eu duvidava da vida, naqueles lençóis.
Era o som de Mozart no ar, esculpindo aquele encontro.
Acordei tarde ontem pra abrir a farmácia e vi uma bandeja perfeita de café posterior à noite perfeita com suco bem na minha frente.
Na mesma hora, lembrei daquela tarde no início de Janeiro quando conversávamos no balcão, eu estava fechando os olhos, mal pude falar, sono, sono, você saiu sorrindo, lindo comprador de aspirinas. Sei que dormi e me assustei, porque não ouvi ninguém entrar ou sair, só vi o copo quente de café em cima do granito da bancada. Vindo de um sonho.
Porque real é o psicopata, o marido bêbado que bate na mulher, em qualquer época ou civilização.
Murilo. Maridos como você não existem.
ROSQUINHAS.
Recebi o telegrama e não sabia se eu conseguiria sair viva disso.
Eu não tinha como saber.
Fui pro lugar que o “Coronel” tinha indicado. Sem pressa, sem fome, a droga do estômago era outro redemoinho me afirmando com certeza que antes do fim daquela noite eu iria vomitar minha alma, nervosismo infernal.
Passei na padaria e tentei simular normalidade pro meu estômago, farsa mais mal feita. Comprei rosquinhas pra lembrar da minha infância, de antes de tudo isso, mas vampiros não podem comer rosquinhas.
Todos reunidos. Como um cão em um local hostil, oprimida eu mastigava minuciosamente cada rosto naquela sala, cada detalhe, farejando cada elemento, mais do que em um filme de terror, bem pior.
Fotos espalhadas, horários e rotas das pessoas que foram monitoradas, nunca vou saber se essas pessoas condenadas são mesmo marginais.
Na minha insanidade deslocada, joguei as rosquinhas na mesa, perto das fotos e das armas. E olhei tudo aquilo tão sem sintonia, as rosquinhas da minha infância e os marcados pra morrer.
- Hera, está ouvindo?
- ... Hum-rum.
- Você entra depois do Zero. Só depois que o Zero entrar na casa, ouviu bem?
Eu e minha timidez, mal éramos capazes de falar. Mas ali, demarcando meus atos naquela peça trágica, eu queria era ter um colapso, desmaio, entrar em coma. Infarto, um infarto. Droga.
Segundos antes de entrar no carro, o “Coronel” muda o tom de voz, e eu nem sei se as coisas ficam melhores, mas ele fala como um pai carinhoso. E eu nem sei como um pai carinhoso fala.
- Hera, como você falou. Sem mulheres nem crianças.
Depois do desastre, apareci no galpão como um fantasma. Ele me disse que nem sempre estaria lá, mas estava. Na noite em que eu precisava que ele estivesse. Murilo.
Logo depois amanheceu e não havia fome ou nervosismo. Que estranho batizado a criminalidade opera. Que limpeza das víceras, rasgando e esburacando os princípios de uma pessoa. Que morte os escrúpulos sofrem. Vomitei tanto no caminho pro galpão que eu era só cansaço depois. Sentia muito frio, mas ele me abraçou e entendeu. Eu não poderia falar.
Tão estranho quanto eu. Ele nunca fazia perguntas. E eu precisava apagar.
Como se faz com uma lâmpada. Ou com um inocente.
SILËNCIO.
E aquela Música no ar.
Eu acordava e voltava a dormir. Cenas demais. Tiros demais. Minha cabeça doía. Muito frio. E uma hora eu acordei e vi ele cozinhando. Ele me olhou com tanta calma por trás dos óculos, como se esperasse. Voltei a dormir, sem escolha.
Depois do primeiro “trabalho”, eu fiquei mais sem ter o que falar. Nenhuma frase era válida. Um som bastava pra qualquer pergunta que me fizessem.
Cada vez mais eu combinava com Murilo.
CAÇADA.
Nenhuma capacidade para abrir qualquer livro da faculdade, eu fechava a caixa registradora como um robô. Mas havia algo estranho acontecendo comigo, era automático, eu reconhecia o rumo daquele galpão como um animal predador. Meu Deus, era mais forte do que qualquer argumento. Nenhuma necessidade de frases. Além dos nossos gritos.
Murilo, meu Deus, Murilo. Ainda sinto agora o peso de cada gota sobre a minha pele. Cada uma delas eu ainda sinto agora, nesse mais precioso momento. A sua pele suada. Em cima de mim. E o único foco de luz vindo pela janela.
Aquilo tudo, Murilo, aquilo tudo aconteceu mesmo?!...
NÃO FALE DA MORTE.
Então outro telegrama. Eu queria fugir, mas eles são os caras que acham quem foge.
Eu deixei claro, quando me sentei no chão e me encolhi, lágrimas sem som, eu não era parte daquilo.
O “Coelho”, o mais animado de todos, muitos filhos, esposas em trabalho de parto e ele, comemorando em boates com várias mulheres ao mesmo tempo, chegou perto de mim no chão e disse:
- Na hora em que você pediu um favor, não teve grana nem escrúpulos. Agora não quer retribuir. O que a gente faz com você?
- Chega, Coelho. Hera, tudo bem. Você nos pediu um favor, era mesmo algo bem grave. Fizemos um favor, você faz um favor. Só três “trabalhos”. Só faltam dois agora. Só dois.
- Estamos em 1982! Em 83, você nem vai se lembrar da gente!
Vi todos se entreolhando como se eu não fosse ver 83 chegar.
Eu não tinha como sair daquilo. Eles me salvaram. Eu não tinha mais a quem recorrer. Agora eu tinha uma dívida com quem não se deve ter. Só mais dois agora. Só mais dois. Meu Deus.
Só mais um agora. Eu vendi minha alma. Acabou. Não era eu quem fazia aquilo. Que tipo de monstro qualquer um é capaz de se tornar.
E andei pelas ruas desertas como se eu não tivesse motivos pra ter medo da noite.
TEREI MAIS A DIZER QUANDO EU ESTIVER MORTO.
Seqüência de dias. Fechei a farmácia e abri a porta do galpão. Fantasma até sentir seu cheiro.
Naquela noite eu perguntei se ele lembrava do café na bancada daquele início de Janeiro.
Ele lembrava de tudo. Até das minhas roupas.
- ... Tava muito doce?
- ... Tava perfeito.
Ri por confirmar o carinho em cada gesto. Tão cuidadoso. Murilo.
- Você me ajudou a fechar o expediente. Quase consegui estudar naquele dia!
- ... Que bom.
A Música suave de fundo era instrumental, o coro angélico definitivo na forma de cordas, talvez Bach. Mozart somente quando ele estava falante. Quase nunca. Mas sempre era Música.
- Foi um gesto muito lindo...
Ele me olhou sem me encarar, parecia tão ressabiado quanto eu.
Dois animais desconfiados.
- Não sou boa nisso... Nos entendemos como se fôssemos feitos da mesma matéria.
Acho que sorri pra ele, há muito tempo eu não fazia isso. Olhou alguns segundos pela janela e depois pegou meu rosto.
- Anna... Quero cuidar de você.
E não falamos mais nada durante a noite inteira. E meu desejo não passa de um cão farejando aqueles lençóis.
Meses. Mas uma pessoa deve falar "eu te amo" depois de décadas. Minha imensa vontade é de falar agora.
Quem sabe depois desse inferno. Talvez tenhamos tempo. Murilo, eu amo você.
PEDRAS.
Quando o terceiro telegrama chegou, eu fui instintivamente pro banheiro da minha casa e me tranquei lá. Horas se passaram. Chegado o momento. Eu estaria livre ou sairia morta. Sem garantias.
Andei pelas ruas construídas por romanos, com pedras que conheceram o paganismo, as pessoas passando, os turistas desorientados e molhados, eu olhando minuciosamente para seus guarda-chuvas, seus casacos, seus sapatos. Quem sabe eu veria de novo toda essa movimentação humana?!
Uma casa, não. Uma mansão. Na frente um jardim onde múltiplos da minha casa se encaixariam antes mesmo do chafariz. Eu faria o pior de tudo. Era pra não deixar pistas, uma família de mafiosos. Quatro irmãos. Gente errada, por que a culpa?! Não, a questão é que eu não queria estar ali.
Certamente. Certamente, eu iria enlouquecer. Dias antes, gente tão mal encarada procurou meu herói no galpão e lhe entregava duas caixas tipo exportação. Armas. Ele brigou com aquelas caricaturas para nunca trazer nada ali, mas eu já tinha presenciado tudo.
Pedi, horas depois, com qualquer calma, que me dissesse de verdade o que o músico fazia.
Ele disse que o que quer que fosse, nunca me atingiria.
Tutti Presto
Um Epílogo Pródigo sem Filhos
Ato Inicial.
Esse vento na minha cara. Tão inútil esse carro correr tanto. Essas poças de sangue se formando muito rápido. Quando o “Coronel” nos reuniu, no início da noite, falando “Tutti presto!!” (Tudo pronto!!), era minha última missão. O Coelho, ainda sem fazer piadinhas, o Zero, psicopata excitadíssimo, sempre entusiasmado com seu trabalho, e eu ouvindo o relâmpago na minha mente.
Mentira.
Quando aquela mulher cortou fundo a minha perna esquerda com o caco de um cinzeiro, eu não imaginava a imensidão daquela dor. Tá doendo infinitamente e só me resta gritar.
Quando eu só queria robotizar o meu erro desgraçado, justificando o veneno injetado no braço daquela mulher mafiosa, ela compreendendo, lutou, gritando sua gravidez, eu, com meu Código da Cavalaria entranhado em cada uma das minhas malditas células, não tinha respostas. Nem retorno. Não adianta. Nunca tem retorno. Nunca tem retorno.
Mentira. Mentira!!
Ninguém está pronto pra nada!!
Eu fiquei parada sem olhar pra ela, porque não havia mais o que fazer.
Mas enfim, era minha última missão. Eu estava morta, eu estava viva. Eu deveria andar pelas ruas depois dos meus atos? Tomar café na esquina? Pagar o aluguel? Depois do que eu fiz? O preço que eu paguei. Alto demais. Não há alma neste corpo desgraçado. Nem posso pronunciar o seu nome agora. Se eu pudesse te conhecer antes. Ou te encontrar depois disso. Nenhuma religião, nenhum padre sabe do que eu estou sentindo. Eles não fazem idéia.
Ato Final.
O quê?! Aquele grupo havia se achado infalível demais. Aquela família poderosa havia sido atacada e haveriam retaliações.
O “Coronel” estava tranqüilo demais. Sorrindo, liberava meus serviços, me deixava na porta da farmácia com aquela frágil promessa de vida. Até que, menos de duas semanas depois, o Zero e o Coelho foram pegos e torturados e seus restos, ou o pouco que sobrou, abandonados em uma pracinha pouco visitada.
Tantas possibilidades de autores.
E o chefe daquele grupo aparentava uma calma sem razão.
Mas uma semana depois eu fui seqüestrada e amarrada e agora olhava para o chefe, em uma outra cadeira de madeira na aridez metálica daquele ferro-velho deserto. Finalmente entendi que nós estávamos muito longe e que ninguém iria nos ouvir.
Nada para serrar as cordas. Nem sabíamos o que nos atingiu.
Ficamos ali por um dia inteiro.
Então ele chegou.
Meu paradoxo mais lindo.
Transfigurado.
O “Coronel” ficou uns instantes pensativo, na calmaria dos filósofos estrategistas, mas a frase explicou tudo melhor do que eu gostaria de entender.
Ah, a ignorância. Maldito luxo que ali me foi negado.
- Você é o quarto irmão... Você não estava lá...
Eu vi que ele estava alcoolizado. Murilo me dizia que se livrou da bebida e não bebia agora por orgulho, por ter um motivo pra estar “limpo”. Nessas horas ele me beijava. Murilo.
Quando o homem de seus cinqüenta anos começou tranquilamente a falar, Murilo puxou uma pistola de suas costas, estraçalhando o joelho direito do “Coronel”. E eram dois mundos, dois universos espetacularmente paralelos. O homem em sua enlouquecedora dor física ao nosso lado, e seus gritos eram gigantes mostruosos espancando a parede invisível da nossa realidade. E nós, o casal desconstruído, derrotado, seus olhos de predador agora fixos nas paredes, um exato felino enjaulado, andando pelo salão com o brilho do álcool e da vingança nos olhos. Em nosso inferno particular, nenhum som, nem seus passos pelo chão.
Então ele segurou meu braço, sem encarar os seus olhos eu lutei instintivamente sem jamais dizer o seu nome tão cultuado, mas minutos depois eu sentia a morte me esvaziando, aquela seringa me injetou a certeza de que eu estava perdendo, eu era jovem e não queria morrer, eu sentia meu corpo gradativamente perdendo, um animal finalmente sabe quando está morrendo, decorando aquele cenário estavam os gritos do “Coronel”, tudo muito rápido, um tiro em sua testa, eu tentando sobreviver, a consciência fugindo e o tiro suicida desvairado daquele Romeu.
http://simplesamortotal.blogspot.com
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* Pirandello (1867-1936), eu nem chegaria tão longe. Mas tu me aponta ainda hoje o caminho. Grazie.
* Murilo, meu personagem definitivamente cultuado, a sua autora vai continuar amando você para muito além dos Portões da Morte. É o cúmulo da Literatura, não?
* Murilo Rubião (1916-1991), foi você quem me achou.
Arqueira
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2008
Código do texto: T1065000
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