Texto

O COLECIONADOR DE ALMAS

"Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (Lucas 12: 20)

Livros! Uma porção deles... Esse era meu segredo para fugir da dura realidade de minha infância. Lugares perfeitos, vidas transformadas... O que era feio tornava-se belo, o rejeitado encontrava amor, o atraiçoado triunfava em vingança... Não fora assim com o sapo-príncipe, o corcunda ou o Conde de Monte Cristo?

- Quantos contos de fadas existem na vida real?

Sempre fui pobre e meus colegas também o eram, mas apesar das dificuldades, eu via alegria em seus rostos. Sem contar com os finais de meus livros, aquela era a única alegria que eu conhecia... Olhos brilhando, abraços e beijos no encontro com os pais na saída da escola. Depois contar os últimos acontecimentos e os amores infantis... se eu não visse com meus próprios olhos eu diria que esse papo de felicidade era só enrolação; uma forma de se enganar e continuar vivendo, numa esperança de que amanhã aconteça algo diferente que quebre o habitual ciclo de misérias da vida real... mas ela realmente existia para alguns...

Meu pai era um alcoólatra e minha mãe passava o dia na rua pra ver se colocava comida dentro de casa; quando estavam ambos em casa e as brigas começavam, via minha mãe sofrer e esconder as lágrimas, para que eu não a visse chorando. Quando eu ficava sozinho com meu pai, e sabia que ele ia passar o dia de implicância comigo até achar algum motivo besta para me surrar, então eu pegava algum livro que tivesse alugado na biblioteca da escola, pulava a janela e corria para uma colina quase na entrada da minha cidade, que geralmente estava sempre deserta. Quantas vezes estive ali? Quantas páginas folheadas sob aquele céu silencioso e belo? Impossível dizer... Como, impossível era, contar as lágrimas que derramei e o ódio que remoí pela vida que levava.

Vim morar numa cidade de verdade quando estava com dezessete anos e achava que podia dar conta, perfeitamente bem, da minha própria vida. Eu estava certo! Passei um bocado de dificuldades desde que vim morar aqui sozinho e aquele rapazinho ingênuo e sofrido do interior passou a ver o mundo de cima agora, como um homem de verdade! Vejam a minha posição: Estou numa sala espetacularmente decorada, com um belo terno feito por encomenda e sapatos italianos que, cruzados no alto da mesa de mogno do meu escritório, refletem, meio turvo, meu sorriso Feliz; não é assim? Aquele que sofre muito tem no fim do túnel um final feliz. Não é o que dizem? Eu também encontrei meu final feliz e o preço nem foi tão alto assim...

- Digamos que eu seja um milionário excêntrico; gosto de ajudar as pessoas e em troca peço algo que não lhes fará falta. Meu robbie é colecionar coisas inúteis, mas que ninguém jamais pensou em fazer. Sou, na verdade, um colecionador de almas... - Foi o que aquele homem em trajes brancos, da cartola à sola do sapato, que caminhava apoiado sobre uma belíssima bengala de marfim, o que lhe atribuía maior classe e sofisticação, e exibia jóias caríssimas, me disse quando nos encontramos pela primeira vez.

Era um dia quente de verão quando, atravessando a rua, vi aquele ser fascinante. Eu parecia hipnotizado, não conseguia deixar de olhar aquele rosto sem idade, aqueles olhos inexpressivos, aquele andar gracioso... Sem dúvida era uma visão, no mínimo inusitada, aquele homem tão elegante, que ostentava tanta riqueza nos modos e nas vestes, cercado por seguranças fortes e atentos, contrastando com todo aquele ambiente imundo do subúrbio. Foi uma fração de segundos que uniu nossos destinos; ele estava atravessando a rua e num dado momento, não sei por qual motivo, decidiu voltar.

- Paaaare!

Eu gritei de onde estava e, talvez por susto, o homem ficou imóvel com os olhos nos meus. Ele não parecia realmente assustado, na verdade me convenço cada dia mais que a expressão em sua face era alívio, como se ele estivesse esperando por algo que enfim se realizara... Mas o que eu estava dizendo é que um carro passou em alta velocidade no exato local onde ele deveria estar se não houvesse parado por aquela miraculosa fração de segundos.

- Obrigado rapaz, você salvou a minha vida! Não sei onde estava com a cabeça... Vim neste lugar na intenção de montar um projeto social que salvaria algumas vidas por aqui e acabo tendo a minha própria salva.

Ele me agradeceu gentilmente e me convidou para almoçar; comemos juntos e hoje, tudo o que tenho devo a ele e aquele dia. Ele me disse: - Você precisa ser recompensado! Esse feito não pode passar em branco... - Eu agradeci, mas como poderia aceitar tudo aquilo que ele colocara diante de mim? Foi quando ele me falou de sua abastada condição e de seu robbie, concluindo a conversa:

- Bem, é algo que não lhe fará falta! É uma maneira de não sentir-se culpado ou envergonhado por minha generosidade.

- Eu não sei... Me parece estranho; como se não fosse certo...

- Hahaha... Eu não pareço o diabo, pareço?! Veja!

Ele mandou um de seus homens buscar algo no carro e em poucos minutos o homem estava de volta, com um grosso livro nas mãos.

- Aqui está o nome de todas as pessoas a quem ajudei. A nenhum ofereci o que hoje te ofereço, porque nenhum me salvou a vida.

- Obrigado senhor, mas este negócio de alma...

- Uma pequena excentricidade de um velho, mas se você não quiser eu entenderei... Vou dar-lhe meu cartão. Pense bem e depois me dê a resposta!

Mais uma vez, em um livro, encontrei o refúgio e a felicidade que tanto desacreditara. Assinei meu nome naquele livro e deixei minha digital impressa em sangue. Era parte da encenação e, no fundo, gostei de ver o rosto daquele homem iluminar-se, num estado que beirava a euforia.

- Obrigado rapaz, por deixar esse pobre velho retribuir o favor que me fez.

- Eu é que agradeço senhor, me faltam palavras... Acho que o senhor é um anjo que resolveu atender as minhas preces, e afinal de contas, o senhor não parece velho, é antes um anjo sem idade... hehehe...

- Os anos sempre foram excelentes para mim... hahaha... Talvez você esteja certo em suas suposições... hahaha ... - Sua gargalhada era cheia e bonita de se ouvir, mas o deixava com um aspecto meio doentio.

Essa é a minha história. Foi assim que consegui subir na vida e encontrar a felicidade. Se você vive uma vida de infelicidades, saiba que um dia a alegria pode bater na sua porta, como bateu na minha, e esse dia pode ser quando você menos espera.

Uma dica: - Saiba agradecer os presentes da vida!

Na última vez que encontrei aquele maravilhoso senhor, eu o agradeci muitíssimo; eu disse a ele o quanto eu estava feliz e o quanto eu gostaria de poder retribuir esse presente, pois hoje vejo como minha vida mudou graças a ele. No início não imaginava que viveria tudo o que estou vivendo hoje... sabem o que aquele bondoso e modesto homem me respondeu?

- Não se preocupe com isso rapaz, um dia eu saberei cobrar o que me deve... hahaha...

Ele é, sem dúvida, a melhor pessoa que já conheci...


"E levando-o, mostrou-lhe, num momento, todos os reinos do mundo. Disse-lhe o diabo: Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. Portanto, se prostrado me adorares, toda será tua". (Lucas 4:5-7).
Nelson Ávila Mesquita
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1681372

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Comentários
04/07/2009 00h18 - Divavid
Linda História, mas os favores dados por almas boas, nao se podem retribuir!Abrsc.!

Sobre o autor
Nelson Ávila Mesquita
Fortaleza/CE - Brasil, 22 anos
43 textos (2131 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/11/09 02:46)

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