Texto

MEU DOCE SOUVENIR

É engraçado como as coisas acontecem as vezes; de um momento para o outro tudo pode estar diferente, numa velocidade espantosa e incontrolável. Comigo aconteceu assim, embora possa dizer que não tenha sido engraçado por muito tempo...

- As delícias de uma viagem!!!

Eu estava só de passeio naquela cidade. Era uma pequena viagem que deveria durar três dias, o suficiente apenas para descansar da vida corrida da cidade grande, quando à encontrei... Linda, absolutamente perfeita! Suéter verde de gola rulê, da cor do gorro, que diferia apenas em detalhes de tom sobre tom, sendo um pouco mais escuro que seus olhos; olhos de esmeraldas, jóias incalculáveis! Sua pele era pálida, um pouco rosada nas maçãs e no narizinho afilado, e a boca era um vermelho vivo, o que ganhava bastante destaque; os cabelos afloravam do gorro em ondas castanhas; um tom de castanho-claro que indicava ter sido loiro na infância. Ela era a imagem de um anjo barroco...

Era um dia frio, mas não chovia. Talvez fosse o momento perfeito para se encontrar um grande amor, pois naquele tempo cinzento, vendo aquela imagem magnífica, tudo o que me passava pela cabeça era uma palavra de três sílabas: "abraço". Ter um corpo colado ao meu, numa troca constante de calor, dar e receber carinho... Como deveriam ser agradáveis suas carícias e doce o seu perfume... Não tive coragem de apresentar-me a ela e, naquela noite, sozinho, na penumbra do meu quarto de hotel, lembrava-me dos cânticos do Grande rei Salomão:

"De noite busquei em minha cama aquela a quem ama a minha alma; busquei-a, e não a encontrei." (Can. 3:1)

No outro dia voltei a mesma praça que a tinha visto, na esperança de ser presenteado novamente com aquela visão divina. Ela não estava lá! Sentei-me num banco e vi o tempo e as coisas perderem-se pelas vielas de meus pensamentos. Minha visão era turva e distante. Não via ou ouvia nada do externo, a vida se passava agora de dentro para fora, entre sonhos e desejos...

- Vai uma... Senhor... ?

- O quê?

- Perguntei se vai uma graxa aí, senhor?

- Não, obrigado!

Aquele menino me trouxe de volta ao mundo real e percebi que o sol já estava se pondo e era hora de voltar ao hotel. Era já meu terceiro dia de viagem, só a havia encontrado no segundo dia, então era hora de fazer as malas e pegar o avião das 21:00 horas; Apoiei-me no banco para levantar-me e que surpresa maravilhosa: Lá estava ela, a dois bancos de mim, lendo algum livro que não me trazia o menor interesse. Meu interesse era ela, somente ela!

- Desculpe, mas vi-a ontem aqui nesta praça e sua imagem não me saiu da lembrança. Vim aqui hoje só na esperança de revê-la... Posso saber ao menos seu nome?

Ela ficou meio surpresa, nem eu sabia como tinha tido a coragem de dizer aquelas palavras; no final ela sorriu pra mim meio perdida. Foi aí que de três dias passei a duas semanas. O avião das 21:00 horas? Nem lembrei dele. Era tudo tão supérfluo e sem importância diante dela...

Durante os primeiros dois dias fomos amigos e sorrimos bastante às voltas pela cidade. Nos dias seguintes tornamos-nos amantes... Um misto de sentimentos, sabores e odores formaram o nosso primeiro beijo. É verdade que fora roubado, mas ela retribuiu e isso era tudo o que importava!

"Os teus lábios são como um fio de escarlate, o teu falar é doce..." (Can. 4:3) "... Beija-me ela com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho." (Can. 1:2)

A vida não poderia ser melhor. Parece que eu tinha passado toda uma existência adormecido e só agora abrira os olhos para a vida, e como era bom viver... "Depois da tempestade vem a bonança..." O que vem depois da bonança? Era o que eu descobriria ao findar daquelas duas semanas.

Posso dizer que aquelas foram as melhores semanas da minha vida. Se pudesse voltar no tempo e escolher um destino, voltaria para aquelas exatas semanas e tentaria amar mais e dormir menos, para ter mais momentos na presença dela de que pudesse lembrar... Se tivesse um único desejo a ser realizado, desejaria viver aqueles momentos por toda a eternidade; mas a vida não é feita de desejos. Ela tem uma capacidade enorme de apresentar-se, na maioria das vezes, de maneira cruel, o que torna momentos como aqueles ainda mais preciosos.

Voltávamos de um teatro e caminhávamos devagar, apreciando um a companhia do outro e comentando sobre cenas que tínhamos acabado de assistir. O tempo era agradável e eu estava mais feliz do que nunca, com o braço em volta de sua cintura.

- Vamos cara, passa tudo! Depressa, depressa!

- Calma, tá tudo aqui, pode levar...

Ele viu uma correntinha brilhar no pescoço dela e puxou-a com brutalidade. Ela gritou! Alguém mais gritou: - Ladrão! Ladrão! - As pessoas começaram a se agitar em redor, alguns correndo. Ele se descontrolou. Ela levou as mãos ao pescoço, para massagear a área agredida. Ele disparou! Ela caiu e eu pulei em cima dele... Não vi mais nada. A última coisa que lembro é de alguns policiais me retirando de cima do homem caído. Minhas mãos e vestes estavam ensopadas de sangue; meu rosto, coberto de lágrimas. Meu amor estava morta... Eu sabia que ela já caíra sem vida.

Fui levado ao hospital; havia sido atingido, mas no calor do momento nem percebera. Trazia em uma das mãos aquela correntinha que custou a vida do meu amor... Era dourada e tinha o pingente de uma cruz vazia. Naquela cruz não havia mais um Cristo, Ele havia ressuscitado. Ao meu lado não haveria mais um amor, ela havia morrido... Tudo o que me restara fora aquele correntinha, com o perfume e o sangue dela... Era minha última recordação, e era doce como ela... Era minha doce lembrança... meu doce souvenir...
Nelson Ávila Mesquita
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1681966

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Comentários
05/07/2009 15h17 - Divavid
puxa, grande filme, espéctaculo!Gostei bastante!Abrsc,hortense

Sobre o autor
Nelson Ávila Mesquita
Fortaleza/CE - Brasil, 22 anos
43 textos (2131 leituras)
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