Texto

A Gameleira mal assombrada

           Era quase noite. Eu caminhava por uma estrada perto da minha cidade. A tarde estava calma, nem o vento eu conseguia sentir, estava tudo tranquilo demais; nem um barulho, os pássaros não cantavam, nem  mesmo as folhas das árvores balançavam. De repente, eu senti  a presença de alguém que se aproximava de mim; olhei para trás, mas via apenas minha sombra – mas como ela poderia estar atrás de mim, sendo que o sol estava se pondo em minhas costas?-  fiquei pensando naquilo e continuei a caminhar.
            O sol já estava quase se pondo, quando passei por debaixo de uma  enorme gameleira; parecia que ela não tinha fim! Suas raízes se espalhavam por centenas de metros e sua copa quase nem se via.  Estava bem debaixo dela, quando algo bateu em minha cabeça, um galho seco. Olhei para cima e meu medo me dominou!....  uma coisa negra, parecida com uma sombra pulava entre os galhos da gameleira em saltos espetaculares  e veio descendo em direção a mim... ficou me olhando e vendo meu medo, começou a dar gargalhadas, que soavam até as montanhas e voltava com um eco. Eu não conseguia falar, queria gritar, queria correr, queria chorar! E de repente saiu do chão uma enorme cobra negra e se enrolou a seu na sombra; beijava-lhe a face;  afagava... a sombra então levantou o “braço” e tão astuciosamente a cobra pulou na gameleira e sumiu.
            Há muito tempo, eu ouvi falar de uma estória que contava de um homem que vivera naquela gameleira durante anos e anos, e um dia encontraram-no morto por debaixo dela com uma enorme cobra negra enrolada no seu corpo. Dizem também que esse homem acreditava ser traído por sua sombra. Durante as noites de lua cheia, sua sombra deixava-o e ia até as montanhas fazer cultos ao diabo, e todas as vezes que isso acontecia uma gargalhada soava entre as montanhas e um homem era levado pela sombra até a montanha e ali, sua alma era oferecida em holocausto ao diabo.
            Eu não acreditava, era tudo fantasioso demais! Como poderia uma sombra fazer cultos ao diabo? Era difícil de acreditar! Mas depois que aconteceu comigo, eu não duvido mais!
            Depois que a cobra sumiu, a sombra sentou-se ao pé da gameleira e começou a falar coisas estranhas. Não sei, mas parecia estava conversando com alguém que vinha ao longe. Soltava estrondosos gritos, e com um punhal na mão, começou a golpear o tronco da gameleira. A cada golpe, ouvia-se um grito, um grito de dor, de raiva que vinha por entre as raízes da árvore.
            Eu já estava quase desistindo da vida, quase me entregando totalmente ao oculto, isso era o que ela queria, que eu prestasse alguma adoração a ela, que eu a vangloriasse, fazendo-a meu anjo da guarda. Mas eu sentia que algo estava me ajudando a fugir, estava me guiando para que eu não fizesse nada que pudesse engrandecê-la. Ao longe escutei galopes de cavalos, olhei e não vi nada, escutei tinir de espadas sendo desembainhadas – eu já não estava entendendo mais nada!-  de repente uma música, um hino celestial começou a tocar; formou-se um túnel no céu e um anjo carregando uma lira veio descendo em direção a mim. A sombra levantou-se de onde estava e pulou novamente na gameleira. Anjo desceu e ficou frente a mim, olhava-me com piedade nos fundos dos meus olhos, tocou a lira e eu adormeci.
            No dia seguinte quando acordei, estava em minha casa, em minha cama, pensei então que tudo aquilo era um sonho, que não passava de um pesadelo por causa das estórias que escutava sempre que íamos meu pai e eu a casa de um velho ermitão, que morava nas montanhas, perto da cidade.  Fiquei pensando naquilo e resolvi então ir até a gameleira por pura curiosidade.
            Fui caminhando rapidamente, o dia estava turbulento, ventava muito. Cheguei até a gameleira, olhei para cima e não vi nada, olhei para as montanhas estava tudo tranquilo, o que havia de diferente era apenas alguns cortes no tronco da gameleira, resolvi então, voltar para casa.
            Durante a caminhada, fui relembrando da estória; o tempo foi ficando mais calmo, o vento parou, o barulho também. Começou a me dar calafrios, e comecei a correr! Corria, corria desesperadamente, e no meio da estrada, uma enorme cobra negra atravessou rastejando velozmente, logo após subiu e uma árvore e desapareceu. Minha angústia só ia aumentando e eu não era capaz de controlar meu desespero. Naquele momento, passou por mim um carro, parou e perguntou se eu queria carona; eu não conhecia o motorista, mas também não queria continuar caminhando sozinho por aquela estrada, resolvi então aceitar e fui-me embora.
            Quando chegou à porta de casa, desci do carro e ele se arrancou – mas o que era aquilo em cima do capô do carro?!- uma coisa negra se despedia de mim fazendo gestos com a “mão”. Corri para dentro de casa apavorado; quando entrei no meu quarto encontrei sobre minha cama, uma lira e uma pena branca.
            É difícil de acreditar, mas tudo isso aconteceu mesmo! Desde aquele dia, não ouvi mais falar sobre aquela gameleira, nem mesmo quis passar perto dela, e o mais surpreendente disso tudo vocês nem imaginam... no quintal da minha casa um dia desses, quando eu regava as plantas, encontrei uma árvore diferente, crescendo que crescia ali perto da porta! Um pé de gameleira! Surpreendente, não?!

Guarda Mor, abril de 1999
Elvis Cristiano
Publicado no Recanto das Letras em 30/10/2009
Código do texto: T1895913

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Indique para amigos
Denuncie conteúdo abusivo

Comentários
30/10/2009 14h23 - igor
legal.

Sobre o autor
Elvis Cristiano
Catalão/GO - Brasil, 29 anos
168 textos (12460 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 10:23)

Como anunciar aqui?