Torturado
O homem sentiu uma umidade estranha sob seu corpo estendido no chão. Tentou abrir os olhos, mas o cansaço manteve suas pálpebras cerradas.
Pôde perceber que estava em um quarto pequeno e vazio pelo eco dos gemidos que saiam de sua boca. O quarto era fracamente iluminado por uma luz vermelha proveniente de um cronômetro digital ao seu lado marcando 00h00min, suficiente para não se enxergar nada que estivesse a mais de um palmo de distância.
Tentou abrir os olhos mais uma vez. Gritou de dor.
Percebeu um detalhe que levou uma expressão apavorada à sua face.
Os olhos não estavam fechados pelo cansaço, estavam costurados.
Não conseguiu levar as mãos ao rosto nem mover os pés porque também estavam presos no chão por quatro estacas de madeira. Uma cravada em cada membro. Gritou novamente.
Agora sentia gosto de sangue na boca e uma dor aguda na região lombar. Era como se o efeito de uma anestesia que levara estivesse passando aos poucos, revelando dor em cada parte de seu corpo.
Inúmeras perguntas se formavam no seu cérebro.
“Onde estou?”. “Quem fez isso comigo?”...
Olhou para o cronômetro ainda parado.
Em segundos, a luz do teto acendeu na medida em que a luz do desespero também começava a acender dentro de si.
Então ele compreendeu. Não sairia dali vivo por mais que berrasse.
Perdendo as esperanças, percebeu um vulto entrando pela porta e percorrendo o quarto, analisando visualmente alguns instrumentos esquisitos que faziam ruídos metálicos na mesa de mármore.
– Quem está aí? – berrou o homem no chão.
A resposta não veio.
Ele não queria morrer. Não antes de descobrir o quê ou quem o levara à possível tortura.
O vulto se aproximou do homem no chão e sussurrou com uma voz rouca e fria:
– Eu espero sinceramente que você tenha aproveitado e dado sentido a sua vida enquanto podia.
Por mais que tentasse, as palavras não saiam da boca do homem. Estava paralisado de medo. Perdido em pensamentos.
Desejava descontroladamente ver a mulher. Beijá-la.
– Sinceramente... – disse a voz rouca.
O homem no chão, assustado, fitou o cronômetro.
– Por quê? – foram suas últimas palavras após perceber que o tempo do cronômetro começara a correr.
E não se ouviu mais nada além do som de um objeto de ferro cortando algo duro. Um crânio, talvez.
Arthur Costa
Publicado no Recanto das Letras em 01/11/2009
Código do texto: T1899593
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