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Meia-noite

5° Dia da 3° Nova do inverno, Ano Imperial de 563

     Hoje completo cento e cinqüenta noites de vigília na busca pelo segredo de Clepsydra, esta misteriosa cidade do Vale dos Horrores que tanto me intriga. Durantes estes meses, analisei diversas mentes, muitas em vão, reclusas em atividades insignificantes e algumas com informações valiosas. Infelizmente, nenhuma delas trazia o segredo que procuro.
     Desejo muito ir até a cidade pessoalmente, mas temo ser perigoso demais. Talvez quando eu tiver mais conhecimento... Por ora, seguirei a orientação de meu tutor e continuarei minha pesquisa através da magia, mantendo-me na segurança da Torre de Amupherus.
     Esta noite decidi observar os pensamentos de Gael, um arqueiro que, acredito, fez parte da desaparecida Caravana do Aço. Um homem experiente, que já teve seus dias de glória junto ao exército de Jasênia, mas que agora era apenas um mercenário. Um dos responsáveis pela segurança da caravana que transportaria fabulosas armas vindas de Tanathis.
     Infelizmente para ele, a caravana jamais chegou ao seu destino.      Registro aqui, o dia em que ele chegou à Clepsydra.
 
     "Meus olhos coçam. Sinto-os pesados como jamais experimentei. Meus membros não pesam menos, implorando por alguns segundos de descanso. Desejo este que não posso satisfazer, não sem me entregar aos confortáveis braços da morte."
     "Sofremos um ataque horrendo, orquestrado por demônios horrendos e mortos translúcidos. Envolto nas expressões de horror daqueles que estavam comigo, vi esta névoa emergir do solo e nos cercar. Uma benção, impedindo que víssemos nossos companheiros serem devorados vivos, isto quando os demônios não tinham idéias melhores para nos torturar."
     "Em algum momento perdi meu arco, junto de uma de minhas botas e minha bolsa. Sei que corri o mais que pude, tropeçando em pedras, raízes e corpos. Corri até não escutar mais o desespero, mas a névoa não me deixou."
     "Há quatro dias vago solitário por estas terras negras, consideradas uma cicatriz no mundo, amaldiçoadas por um ódio secular. Tentar atravessá-las foi um erro. Desde o ataque sou acompanhado por este nevoeiro denso e fétido, que sufoca minha visão e rouba meu calor."
     "Não durmo desde então, procurando por uma saída, dia após dia. Ouço passos atrás de mim e sei que pertencem àqueles seres. Por isso não posso dormir. Não posso sequer relaxar. Preciso sair daqui, encontrar uma forma de...."
 
     Um sino toca. Eu o conheço de longa data, mas Gael o ouve pela primeira vez, o que faz seu coração se encher de esperança, arrancando lágrimas emocionadas de seus olhos. O sino toca outras quatro vezes, guiando o arqueiro pela névoa densa.
     A torre então surge, como se o som agudo dissipasse a cortina branca. Aos poucos ele consegue distinguir também os telhados abaixo do sino. Mais quatro toques. Seus pés sentem as pedras lisas que formam uma rua estreita e seus olhos notam as paredes das casas que o cercam.
     O som agudo ecoa mais duas vezes. Algumas pessoas, mais distantes, o observam desconfiadas: mulheres com vestidos longos, um homem que carregava uma saca cheia e uma criança que brincava até o momento.
 
     "O sino me guia como um farol indicando um porto seguro. Ao menos eu desejava que o fosse. Seu som faz a névoa se abrir, revelando uma vila a minha volta. Parece deserta, mas logo posso ver alguns de seus moradores. Havia contado onze badaladas quando uma mão segurou meu braço, junto do último toque agudo."
     "De um salto tento me desvencilhar, mas o mundo parece girar mais rápido que meus olhos e, tonto, caio sentado. Logo estou cercado pelos habitantes do povoado, que comentam entre si sobre minha presença. Aquele que segurara meu braço está na minha frente, de cócoras, observando-me."
     "– Demônios... – tento avisar. – Eles estão me seguindo."
     "– Não se preocupe, estamos em segurança. – responde ele. – Os malditos servos de Rashidi não terão coragem de se aproximar. Eles temem nossos arcanos."
     "– Sou Tom. – continuou, apresentando-se de mão estendida."
     "Após um cumprimento e um puxão ele me coloca de pé. Mas a tontura vem novamente e me apoio em um cercado baixo, para não cair novamente."
     "– Onde estou? Que vila é essa? – pergunto de olhos fechados, como se aquilo fosse espantar a vertigem e me recuperar um pouco das forças."
     "– Estamos em Clepsydra. Os comerciantes a chamavam de doze sinos. Mas parece que só restou um. – explica ele. – Você está mais pálido que um fantasma... Fome?"
     "– Estou acordado há dias... Sinto que vou cair morto a qualquer momento. Preciso descansar. Mas também preciso beber algo... Minha água esgotou-se há dois dias."
     "– Venha. – disse, começando a andar."
     "As pessoas ao nosso redor comentam assustadas sobre os demônios que anunciei. Alguns homens de armadura, aparentemente soldados, começam a se organizar. Outro, portador de um fino cajado de ferro, discute ordens junto a eles."
     "No estado em que estou não posso ajudar em mais nada. Aceitar o convite de Tom parece ser a melhor coisa a fazer. Sinto que finalmente estou em segurança."
 
     Tom o guiou até a Velha Torre, uma taverna situada no centro da vila, responsável pelo fim de muitos viajantes. Ela, assim como todas as outras construções, havia sido feita em volta do relógio d’água, monumento utilizado para marcar horas e sincronizar o toque dos sinos ao longo das doze torres que a cidade um dia possuiu. Diversas invasões e o severo passar do tempo haviam reduzido os sinos a somente um.
     O monumento estava como sempre o conheci: Duas fontes interligadas por uma larga pedra circular, que mantinha um ponteiro central girando, apontando para um dos doze sinos simetricamente desenhados em sua borda.
     A primeira fonte ficava elevada a três metros, de onde emergia a estátua de um belo anjo com uma espada ameaçadora em punho e uma das asas partidas pelo tempo. Seu rosto focava a outra fonte, com expressão irada.
     A segunda ficava rente ao solo. De suas águas surgia o corpo de um demônio com garras preparadas para atacar. Faltavam-lhe alguns dedos e sua cabeça jazia no fundo da água.
     Naquela ocasião, Gael, ao passar próximo ao monumento, notou escrituras apagadas que decoravam o ponteiro e perguntou a Tom sobre seu significado. Tom não sabia o que diziam.
     Nem eu.
     Foi uma criança quem se intrometeu e explicou seu significado aos dois, conhecimento adquirido de seu avô, segundo ela. Uma descoberta importante, talvez a maior nesta minha vigília. O ponteiro do monumento dizia: “O tempo foi derrotado”.
 
     "Tão logo entramos na velha taverna, jogo minha carcaça sobre uma cadeira e fecho os olhos por alguns segundos, ou mais. Uma mão puxando a minha me desperta. Meu corpo pesa como se revestido por cem armaduras, minha mente mistura as idéias como se tivesse totalmente embriagada. Olho para aquele que me acordou. É um garoto de rua. O mesmo que nos revelou o significado da escritura no ponteiro do relógio d´água. Com um gesto simples ele me manda ficar quieto. O medo em seu olhar é inconfundível, o terror está incrustado nestes pequenos olhos."
     "O sino toca e me distrai alguns segundos, mantendo meus ouvidos atentos e forçando minha mente cansada a executar a simples tarefa de contar as badaladas. "
     "Quatro."
     "– Não corra... Não chore... Não resista... – diz o garoto antes de correr e se esconder atrás do balcão."
     "As outras três pessoas também deixam a taverna, apressadas, com aquele mesmo terror nos olhos. Lá fora, as conversas cessam e os sons se afastam, como se fugissem dali."
     "Um forte baque faz tremer o teto e som de madeira rachando e rangendo ecoa no local. O ar fica pesado e difícil de puxar para o peito. Meu coração dispara e a boca seca. O que eles temiam? Por que se esconderam? Os demônios... Eles devem ter voltado."
     "Levanto-me apoiando em uma mesa que vira com meu peso e me joga no chão."
     "– Não corra... – sussurra a criança."
     "Os passos ecoam no teto rumo à entrada da taverna e algo salta, caindo em frente à porta entreaberta."
     "Olho em volta, procurando por outra saída. Fraco até para me levantar penso em rastejar para trás do balcão. A porta range ao ser aberta lentamente, paralisando meus olhos sobre ela. Pelos deuses, temo aquilo que está ali com cada pedaço de minha alma. E com razão. Pois vejo o porquê do medo de todos. Se aquilo é um demônio, seu nome é Horror."
     "Seu corpo nu não deixa dúvidas que pertence a um humanóide. A pele, porém, esticada e cinza, possui centenas de cortes disformes, de cor roxo-azulada, onde vermes transitam despreocupados. Ele não possui cabelo, barba ou pelos, tornando sua visão ainda mais asquerosa. Seu nariz fora violentamente arrancado da face e seus olhos estourados, escorrendo uma mucosa rubro negra até o queixo e deixando-a pingar ao chão."
     "Ele estende os braços, escancara a boca revelando suas longas presas, e urra em minha direção."
     "– Não chore... – ouço o sussurro quase inaudível."
Mas é impossível. Duas lágrimas correm velozes pelo meu rosto sujo quando ele dá o primeiro passo. Mais duas, quando ele estende as mãos.
     "– Não resista... – penso ter ouvido, como se houvesse chance de impedir aquilo."
     "O monstro toca minhas têmporas com suas mãos úmidas. A fraqueza aumenta enquanto sinto vermes em meus cabelos e rosto. Fecho os olhos como se isto pudesse me salvar e abandono meu corpo para o cansaço e a certeza da morte."
     "Mas ele me larga e o choque de minha cabeça com o chão traz meus sentidos de volta. Ele se foi. Pelos deuses, aquela coisa se foi.
Agora entendo porque eles temiam. Porque se esconderam e só agora deixam seus esconderijos, cercando-me condolentes. Alguns me cutucam, tentando arrancar respostas que o cansaço não me deixa proferir. O garoto se aproxima e apóia minha cabeça em sua perna, acariciando minha testa como se eu fosse seu próprio pai abatido."
     "Tom abre caminho do meio deles e me observa por alguns segundos. Só então segura em minhas mãos para tentar colocar-me de pé."
     "No estado que estou, sei que é inútil."
     "Este é meu fim."
 
     Quando o demônio Labúrd, quarto regente da cidade, surgiu, o fim de Gael se tornou óbvio. Dentre os cinco regentes era o mais fraco, mas suficientemente faminto para devorar a vida de qualquer ser vivo.
Gael já estava fraco, pois uma parte de sua energia já havia sido sugada por Tom e pelo garoto. Por este motivo o dei como morto e teria abandonado a investigação neste ponto, mas Labúrd o deixou vivo...
     Nas diversas noites de vigília em que invadi a mente destas almas, sempre considerei que estes fantasmas condenados matavam seus visitantes inconscientes do que faziam. Sempre ficou claro que seu toque causava a fadiga, mas eles nunca demonstraram necessidade de fazê-lo. Porém, o modo como o garoto, aquele misterioso garoto, tomou a cabeça de sua vítima para lhe acariciar a fronte não me deixou dúvidas. Ele sabia o que estava fazendo. Discreto, ele se alimentava do que restara da vida de Gael.
     Tom apenas encerrou com aquilo, sugando a última centelha de energia para si ao tentar ajudar o “amigo”.
     Os outros espíritos que o tocaram, de nada adianta mencionar, pois sua participação na morte do mercenário fora mínima.
Gael, uma vez morto, viu-se livre de seu corpo e toda exaustão que o mesmo trazia. Levantou-se como se tivesse ressuscitado, recebendo aplausos vigorosos daqueles que o cercavam e torciam por seu bem estar. Ele passará a ser um deles, como aconteceu com muitos outros. Como todos que morrem, ele também ignorou a visão do próprio corpo e não se indagou sobre os motivos de sua melhora.
     Vasculhei a alma de Gael, em vão, até o fim daquele ciclo, na esperança que houvesse algum vestígio de alguém que houvesse dito o nome do misterioso garoto. Bastava que alguém demonstrasse conhecê-lo, mas não obtive nada.
     Adquirir esta informação se apresenta um problema, pois todos parecem ignorá-lo. Percebo que não me verei livre desta pesquisa tão cedo.
     Quando o relógio d`água apontou para o número 12, os sinos se puseram a badalar como de costume. Conforme os sons agudos ecoavam a névoa cobriu a cidade mais uma vez, como fazia todos os dias, até a engolir completamente e sumir com qualquer sinal de seus habitantes fantasmas.
     Pergunto-me se minha pesquisa levará a algo. Se descobrirei o segredo que faz Clepsydra aparecer e sumir todos os dias, ou se passarei o resto de minha vida apenas “lendo” as almas que a habitam.
     O tempo foi derrotado, dizia o relógio d`água... As almas que ali estão vivem há séculos, do mesmo modo, como se nada de anormal os houvesse afetado. Sequer envelhecem. Teria sido uma tentativa de vencer o tempo o que os levara a esta maldição? Talvez esta frase seja a chave para o fim de minha pesquisa.
 

Julios Cimon,
Aprendiz da Torre de Amupherus,
Pupilo de Varsal Cimon


        *** Contos de Grinmelken. (www.grinmelken.com.br) ***
Leandro Radrak Reis
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1900215

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Comentários
02/11/2009 01h14 - TRILHAS DA IMENSIDAO
Muito bom. Não consegui parar de ler... Adorei

Sobre o autor
Leandro Radrak Reis
São José dos Campos/SP - Brasil, 30 anos
28 textos (1192 leituras)
1 e-livros (28 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 05:35)

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