Texto

O poço do terror

Amigos apesar de ir afastar-me do recanto durante algum tempo,quiz publicar o conto que a minha filha escreveu e que entrou no sábado numa antologia, concorreu ao concurso talentos fantásticos,da editora Edita-me,espero que gostem pois a mim deixou-me muito orgulhosa.um beijinho a todos vós.

         
                      CONTO


Existem certas coisas na vida de uma pessoa que não parecem ter explicação plausível.
Estava eu a dormir tranquilamente no meu quarto, quando de repente ouvi uma voz a chamar pelo meu nome. Acordei de imediato, confesso que um pouco assustado, e acendi a luz do candeeiro que se encontrava ao meu lado. Levantei-me e fui ver se os meus pais estavam acordados porque, caso contrário podia ter sido tudo fruto da minha imaginação. Na verdade eles estavam a dormir profundamente e por isso, fui deitar-me.
Entrei no meu quarto novamente e deparei com a janela aberta, a cadeira fora do lugar e outros objectos pessoais deslocados do sítio onde estavam. Achei aquilo estranhíssimo, uma vez que, estava tudo arrumado e fiquei aterrorizado sem saber o que fazer. A primeira reacção foi esconder-me por debaixo dos lençóis e esperar que algo mais acontecesse mas, felizmente adormeci.
No dia seguinte não conseguia parar de pensar no assunto então, pensei em contar aos meus pais o sucedido pois sentia que eles me podiam proteger. Fui para a sala de jantar, onde estes se encontravam e, disse-lhes que precisava de lhes dizer uma coisa, quando eles se preparavam para escutar não consegui dizer uma única palavra, senti os lábios a ficarem secos e uma sensação na boca muito esquisita. Parecia que o meu corpo estava a tentar comunicar comigo para não me deixar falar, fiquei apavorado. Passou-se a manhã e quando me preparava para ir à escola, como fazia todos os dias, vi um vulto. Ao início pensei que fosse paranóia minha e tentei esquecer o que se passara.
O resto do dia correu com normalidade até chegar a noite. Esta foi terrível, tive imensos pesadelos. Esses pesadelos, continuaram nas noites seguintes, de todos eles houve um que me chamou a atenção, pois era sempre o mesmo. Comecei a achar demasiada coincidência mas, não conseguia perceber o motivo que me levava a sonhar sempre com a mesma coisa. Ainda mais porque sonhava com o meu tio, irmão do meu pai, e com uma bruxa que mexia uma panela com uma grande colher de pau. Não fazia sentido até dia em que me comunicaram o seu desaparecimento.
Foi então, que comecei a associar os factos… o pesadelo com o meu tio podia ser uma espécie de aviso, uma mensagem a dizer que algo de mal podia ter lhe acontecido ou vir a acontecer.
Os acontecimentos inesplicáveis permaneceram, visões, vozes e agora algo pior e horroroso, conseguia prever mortes e uma delas a do meu querido e amável tio António, que depois se veio a confirmar. Bastava olhar para as pessoas que sentia de imediato uma energia positiva ou negativa dentro delas.
Era horrível saber que não podia fazer nada para evitar aquelas mortes. Como resultado, afastei-me de tudo e de todos, com medo de descobrir que alguém muito próximo de mim pudesse vir a sofrer algum acidente e falecer. O meu pequeno quarto passou a ser o meu refúgio.
A minha família, os meus amigos e as pessoas que me conheciam começaram a estranhar a minha solidão. Preocupados, os meus pais decidiram tirar uma semana de férias, que coincidisse com a pausa nas aulas para tempo de Páscoa. Fizemos as malas e fomos para o norte, mais propriamente para a pequenina aldeia dos meios avós, onde tínhamos uma casinha bastante confortável. A minha mãe achava que era a solução para a minha tristeza, que não sabia qual era, e o meu pai concordava com a ideia.
A viagem foi longa e portanto, quando chegamos fui dormir um bocado, sentia-me muito cansado. Sonhei com o poço que ficava a caminho da casa dos meus avós. Eu costumava ir para lá com os meus primos quando éramos mais novos, lembro-me que era divertido ver as pessoas mais velhas a tirarem água para regarem os seus campos e quintais.
  A certa altura senti que me tocaram nas costas e que deram-me um beijo na testa de uma forma muito carinhosa e acordei, era nem mais nem menos que a minha madrinha, para me convidar a ir dar um passeio pela simpática aldeia. Fui ao café, à padaria, ao mercado e à igreja cumprimentar os restantes elementos da minha família que já não via há algum tempo. Quando chegou a altura de ir para casa pensei em dar uma espreitadela ao poço, estava curioso.
Mal me aproximei deste, senti de imediato a presença de alguém, um espírito qualquer, uma energia muitíssimo negativa e fugi. Corri o mais depressa que podia para perto do meu pai que limpava o carro.
Estive ali sentado durante alguns longos minutos a olhar para ele e foi então, que me veio uma ideia à cabeça, porquê que não havia eu de investigar o poço!? A melhor maneira de o fazer é ir ao café da dona Almerinda e tentar sacar informações.
E realmente essa investigação deu frutos, descobri algo inesperado, aquele poço começou a ser o centro de todas as atenções naquela aldeia. Passou de ser um sítio calmo onde iam tirar água para ser um local que fazia terror a algumas pessoas, pelo menos aquelas que tinham conhecimento das mortes aparentemente acidentais.
Percebi que o meu sonho e a sensação desconfortável que tive ao aproximar-me do poço estavam com certeza relacionados com as mortes e fiquei intrigado e aterrado com a notícia. Apetecia-me fugir e voltar para a minha casa em Lisboa mas, ao mesmo tempo queria achar uma solução para o problema. Custou-me muito a decisão que tomei, contar toda a verdade aos meus pais, eles podiam ajudar de alguma forma.
Só pensava se eles poderiam, enfim, internar-me em algum hospital psiquiátrico por pensar que estava a ficar maluco. Inesperadamente, a minha família surpreendeu-me com o que me contaram, depois de eu revelar tudo aquilo que sabia. Estes disseram-me que o que eu via, sentia e pensava era um dom que também algumas tias minhas tinham. Elas tal como eu conseguiam adivinhar, prever, certas e determinadas coisas.
Eu de facto tinha herdado uma característica muito especial e perigosa que se não tivesse cuidado poderia sofrer consequências.
Agora restava apenas, desvendar todo o mistério que rodeava aquele poço. O que me aliviava no meio disto tudo, era saber que podia contar com as minhas tias. A primeira coisa que a minha tia Helena fez foi benzer o poço e tentar evitar ao máximo que as pessoas se chegassem perto dele já que se o fizessem estariam em perigo.
A minha tia mais velha a Maria tentou comunicar com o espírito negro para perceber as suas intenções. Infelizmente, não conseguiu, por isso, ensinou-me como estabelecer essa comunicação, eu sim tinha um poder ainda maior que o dela. Consistia numa sessão espírita, ou seja, o espírito entrava dentro do meu corpo, isso assustava imenso.
Tive de ganhar coragem para enfrentar a assombração e foi o que fiz.
Ficamos a saber quem era e o que queria. Tratava-se de uma idosa que morrera naquele poço profundo, fora esfaqueada e empurrada. Toda a sua fúria resulta da raiva que sente pelos habitantes da aldeia pois, estes nunca deram pelo seu desaparecimento e o bandido que a matara continua à solta.
Ela age como um demónio fazendo as pessoas caírem… a sua alma tem de ser acalmada e descansada para poder ir em paz para o céu. Para isso, terá de ser encontrado o culpado pela morte da senhora, esta tarefa coube à minha tia João. Através de documentos antigos descobriu-se que o afilhado da velha senhora ficaria a ganhar muito com a sua morte, duas vivendas, dois terrenos agrícolas e 120 mil euros, uma grande fortuna para apenas um único herdeiro. Pedro, como ele se chama, esteve preso durante seis anos e quatro meses por demonstrar atitudes agressivas para com a sociedade e envolvimento em tráfego de mulheres, isto segundo fontes próximas da falecida. Quando saiu da prisão foi visto a rondar a casa da madrinha mas, tempos mais tarde chegou a notícia de que fora viver para o estrangeiro.
Como tínhamos motivos suficientes para desconfiar de Pedro fizemos queixa à polícia. Passado algum tempo, os agentes da autoridade comunicaram-nos que a nossa suspeita tinha fundamento porque, confirmaram a morte de Maria das Dores. Pedro foi apanhado e detido no Brasil quando se preparava para roubar. Com a detenção o poço voltou à normalidade e o espírito parou de atormentar os habitantes.
Mesmo com o fim do problema do poço a minha vida nunca foi a mesma, conseguia era agir com mais normalidade. As bruxas, os espíritos e os demónios passaram a fazer parte de mim.


Ana Rita Santos

Anabela Santos
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1901440
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Comentários
22/11/2009 07h31 - SUSANA CUSTÓDIO
Amigos, custou eu chegaraté aqui...o tempo não é muito para percorrer tudinho. Quero deixar aqui bem expresso que filho de peixe sabe nadar, casa de pais escola de filhos, etc. Para uma primeira estreia a Ana Rita saíu-se maravilhosa com este conto. Está publicado na Antologia. PARABÉNS ANA RITA!!! criaste um belo conto do fantástico e tiveste o reconhecido prémio. Agora Parabéns aos papás babadinhos que já viram que a sua filhota tem talento, incentivem-na a continuar, ela não pode e não deve parar. Beijinhos
10/11/2009 03h46 - Karlla Caroline
O talento vem do berço. Adorei o conto, ele prende atenção por essa sombra de mistério que o rodeia. O caso do conto foi solucionado, mas ele tem um gostinho de quero mais e esse mesmo personagem poderia fazer parte de outros vários contos, como uma continuação deste com estorinhas diferentes. Meus parabéns. Abraços.
07/11/2009 19h33 - DULCINEIA
Parabens querida Anabela e Joakim têm uma filha linda e talentosa. Parabens minha linda Rita o´teu conto está muito criativo e muito bem escrito. Os fenómenos paranormais têm muito que se diga, e é um tema muito interessante. Continua a escrever tudo o que te apetecer tens muito talento. Beijinhos com carinho para ti e para os pais.

Sobre a autora
Anabela Santos
Portugal, 41 anos
206 textos (8145 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 08:18)

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