Louis Anton 2 – Rebeldia Sangrenta – Cap. 2 – Um frasco do perfume mais caro
Quando eu saí do salão encontrei Camile sentada toda encolhida no canto da escada.
- Camile? – eu perguntei preocupado - - Você está bem?
- Sim... – ela respondeu desanimada
- Não é o que parece... – eu me sentei ao seu lado e observei-a - - Nossa... qual foi o motivo que fez esses olhos tão graciosos se encherem de lágrimas?
- Eu não estou chorando! – ela tentou parecer brava
- Mas estava... – eu disse passando meu indicador em seus olhos ainda inchados
- Nossa... é horrível viver... – ela enfatizou a palavra - - Com pessoas que enxergam mais que o normal !
- Bom, além da visão e dos outros sentidos aguçados, eu também estou ficando cada vez mais interessado em sua vida... então, se você quiser conversar...
- Eu não quero conversar... E além do mais, não tem nada de interessante na minha vida para fazer que você se interesse...
- Além do fato de você viver com seres que vivem da morte de humanos... nada de interessante... – ela me olhou por um tempo, e quando me distraí ela encostou a cabeça em meu ombro. Instintivamente saiu um grunhido de minha garganta e minha boca se abriu deixando em evidencia meus caninos. Ela levantou a cabeça com uma expressão de medo
- Oh... me desculpe... – eu me recompus - - Você me pegou desprevenido...
- Tudo bem... – ela disse sem graça
- Vem cá... – eu a puxei para mais perto de mim e abri um de meus braços - - Pode encostar agora – eu ri - - Não vai mais acontecer o que aconteceu a pouco. – ela ficou um pouco receosa, mas logo se encostou novamente em mim... eu a abracei
- Deve ser bem estranho pra vocês ter um humano como “amigo”
- Não tão estranho, quanto deve ser pra você ter um vampiro...quer dizer... Vários vampiros em sua volta
- Eu já me acostumei...
- Eu não... na verdade acho bem estranho... Posso te falar uma coisa?
- fala ...
- O mais estranho aqui é a relação entre Nic e seu pai... sabe, ele é meio doido não é?
- Não! – ela disse ofendida
- Não quis ofender... desculpe... Mas por parte da Nicole também... Que isso não seja logo... mas um dia ele vai morrer... e ela vai ficar como? Sozinha de novo?
- Você está dizendo que não aprova o relacionamento amoroso entre duas espécies diferente, apenas por uma viver mais? Não concordo... – ela se sentou direito e olhou para mim - - O bom é viver o agora Louis... não pensar no depois
- Fácil pra você dizer isso
- Hãm! – ela se levantou e começou a descer as escadas
- Hey, espera! – eu estava na sua frente agora. Ela levou um susto ao perceber isso - - Olha, queria eu voltar a ser humano e viver como qualquer um vive... Mas não sou mais... e não acho certo você e seu pai viverem ao “nosso lado” se arriscando assim
- Isso é engraçado! – eu a olhei perplexo - - Você querendo voltar a ser o que eu sou e eu aspirando ser o que você é!
- Eu não acredito que você disse isso! – eu saí da frente dela e desci as escadas
- Disse sim! – ela desceu as escadas correndo - - Você não parece gostar da ideia...
- Eu não pareço gostar? Eu sou completamente contrario a ela
- Droga... já vi que você não vai poder me ajudar então...
- O que? Você queria que eu... – eu balancei minha cabeça colocando as idéias no lugar - - Claro que não! Nos meus braços você não vai morrer...
- Você mata tanta gente... no meu caso, eu não morreria, nasceria de novo
- Mato gente que não conheço... Isso não é certo.... pior do que matar qualquer um, é matar alguém de que você sente afeto
- Por favor! Eu seria igual a você... não precisaríamos mais ficar assim... tão longe um do outro... - ela chegou mais perto e tentou me beijar. Eu parei-a
- Eu não vou lhe transformar nisso! – eu peguei a mão dela e coloquei aonde havia alguns botões desabotoados da minha camisa - - O que você sente?
- Sua respiração
- Pois é... só isso... um frasco do perfume mais caro, mas sem o que lhe dá valor... o próprio perfume. Eu sou assim... Sei falar, sei me vestir... sei seduzir, mas não tenho nada dentro e mim
- Olha – ela pareceu me entender e pensou no que iria falar - - Um dia eu vou morrer certo? – ela pegou minha mão e a colocou sobre seu coração - - Você pode sentir?
- Mais do que você imagina
- Então, isso que está batendo aí vai morrer também... e eu não serei nada alem de um corpo comum enterrado. Mas se antes disso alguém... mesmo que não seja você.... me der uma nova vida, eu ainda serei apenas um corpo, sem nenhum batimento, mas com capacidade de sentir, de sorrir, de viver e de amar... O que importa não é o sangue que corre, ou o coração que pulsa... mas sim você acreditar e gostar do que é...
- Eu não posso fazer isso – eu baixei minha cabeça - - Não acredito que ainda possa sentir tudo isso que você falou – ela levantou minha cabeça novamente com um dedo
- Por que você não quer me matar? Por pena? Por medo? Não importa... qualquer um motivo que você falar vai envolver algum sentimento... Mas se não quer fazer isso, tudo bem... Eu não vou ficar com raiva de você...
- Obrigado...
- você me agradecendo? Que estranho – ela riu - - Posso te dar um abraço antes de ir pra casa?
- Pode sim... - Nós nos abraçamos e logo cada um foi por seus respectivos caminhos de casa.
... Continua...
Bellah
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1907058
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