Texto

João e Maria

- Vocês pagarão caro pelo o que estão prestes a fazer. Entenderam? – A velha senhora gritava.
- Vamos acabar logo com isso. – Respondeu o homem de feição severa ao pegar o pedaço de tronco em chamas.
A expressão de ódio era notável nos olhos da Sra. Anabela.
Amarrada em um pilar de madeira escura, ela observa aquele homem colocando fogo na palha espalhada ao seu redor.
-Ahhhhhhhhhh – Seus gritos eram ouvidos por toda a população do vilarejo.
O fogo consumia seu corpo lentamente. O cheiro de carne queimada se fazia presente.
As pessoas a chamavam de bruxa.
Estavam excitadas pelo espetáculo macabro.
Foram longos minutos até tudo terminar.
Entre eles, haviam duas crianças abraçadas a mãe.
Elas presenciaram o espetáculo de horror. Foi por elas que tudo isso aconteceu.

****
Dois dias antes.
- João, Maria, preciso que peguem alguns galhos secos pra acender o fogão. Vão mas não demorem. – Pediu a mãe.
- Pode deixa mamãe. Vamos voltar logo – Respondeu Joãozinho.
E assim foram os dois a procura de galhos entre uma brincadeira ou outra.
Maria viu a floresta. Sabia que não podiam ir longe, mas ela teve a idéia de explorar o lugar.
- Vamos Joãozinho, vai ser divertido. Vamos voltar antes de a mamãe dar por nossa falta. – Insistiu Maria.
E assim foram adentrando a floresta.
Maria teve a idéia de marcar o caminho com migalhas de pão. Assim não correria o risco de se perderem.
Enquanto recolhiam alguns galhos, aproveitavam para brincar com os pequenos animais.
Logo, perceberam que estava para escurecer.
Maria tratou de procurar os pedacinhos de pão, mas não encontrou nenhuma migalha.
Os pássaros do ninho ao seu lado, haviam comido tudo.
Estavam ambos perdidos no meio daquela floresta que a mãe já havia avisando tanto para não se aventurarem.
Tentaram se recordar do caminho de volta em vão.
- Estamos perdidos e famintos. – Choramingou Joãozinho.
O sol se foi para dar lugar a lua e a escuridão.
Enquanto Maria se assustava com pequenos ruídos, Joãozinho teve a idéia de subir em uma árvore para avistar algum lugar onde pudessem passar a noite.
- Ali! Estou vendo uma luz vinda daquele lado. – Gritou Joãozinho em um tom esperançoso. – Vamos, Maria.
Foram correndo, Joãozinho ia à frente e Maria, visivelmente cansada, acompanhava seu irmão.
Alguns minutos depois, chegaram próximos a casa.
Notaram que havia uma pessoa na entrada.
A mulher idosa de longos cabelos brancos encarava seus novos visitantes.
As crianças assustadas ficaram ali, olhando receosas para Anabela.
Em seu vilarejo, muito se comentava de uma velha que morava sozinha no meio da floresta. Ninguém se atrevia a visitá-la tanto pelo local quanto sua fama, mas nada que pudesse ser provado.
Enfim o silencio foi quebrado:
- O que duas crianças estão fazendo a essa hora perambulando no meio da floresta? – Questionou Anabela.
Joãozinho permanecia mudo. Sentia-se acuado diante da velha senhora.
Maria, mesmo insegura, decidiu responde-la:
- No... Nos perdemos. Estávamos recolhendo alguns galhos quando escureceu. Não conseguimos achar o caminho de volta.
Anabela ficou mais alguns segundos olhando para as crianças. Estava decidindo o que fazer até ouvir o ronco do estômago de Joãozinho.
Só não estava mais escuro devido à luz da lua. E fazia frio. Decidiu acolher aqueles dois e depois pensaria no que fazer no dia seguinte.
- Venham. Não quero ver vocês criando raízes no meu quintal.
João e Maria, mesmo receosos, decidiram confiar em Anabela. Em sua atual situação, não havia o porquê negar o acolhimento daquela senhora.
A casa era simples, mas muito aconchegante.
Assim que entraram puderam sentir o calor da brasa queimando no velho fogão a lenha.
Recordaram-se da mãe que provavelmente estaria preocupada com o sumiço dos dois, mas logo suas atenções se voltaram para a mesa, havia algo que nunca tinham visto antes. Uma pequena escultura que enchiam seus olhos e arrancavam sons de seus estômagos.
O telhado possuía uma cobertura densa de chocolate, janelas enfeitadas com balas coloridas e as paredes feitas de biscoitos e gelatina.
Anabela vendo a fascinação dos dois irmãos resolveu quebrar o silencio:
- Como podem ver esse é meu trabalho. Faço doces caseiros para vender no vilarejo. Não fiquem ai parados, comam. – Disse esboçando um leve sorriso.
João ficou meio receoso, estava faminto, mas não sabia se podia comer algo tão bonito.
Maria por outro lado não ficou acanhada. Aproximou-se da mesa e observou aquela pequena casinha. Seus olhos brilhavam, esticou seus dedos em direção da janela de biscoitos, antes de tocar olhou para a velha Anabela como se esperasse sua aprovação.
Anabela fez um leve gesto com as mãos e isso bastou para que Maria tirasse um pedaço da janela para enfim se deliciar.
João vendo sua irmã foi ao seu lado e tirou uma lasquinha do telhado.
- Vamos, não fiquem só pegando alguns pedaços, podem se fartar.
E assim fizeram, comeram o quanto agüentaram deixando apenas alguns farelos e rastros de chocolate na mesa. Não se lembravam da última vez que se fartaram assim.
Sua família era modesta, doces eram raros. Só ganhavam um caramelo em dias especiais como no aniversário.
No final da refeição regada a doce, Anabela ajeitou duas camas improvisadas ao lado do velho fogão a lenha.
- Está tarde, amanhã cedo vamos procurar pela mãe de vocês. Ela deve estar muito preocupada com o sumiço de duas crianças levadas que não a obedecem. Se deitem e durmam, eu irei acordá-los antes do galo cantar.
Maria e João não questionaram, sabiam que Anabela tinha razão. Sua mãe devia estar mesmo preocupada e quando se encontrassem, com certeza receberiam o devido castigo.
Não pensaram muito sobre isso, estavam cansado e depois de comer tanto, tudo o que queriam era dormir.
Assim que o dia começou a clarear, a velha Anabela acordou os dois irmãos:
- Vamos, levantem-se. Vão lá fora e joguem uma água no rosto para despertarem, depois voltem e comam alguma coisa. Temos de sair logo para encontrar a mãe de vocês.
Assim que os primeiros raios solares apareceram, saíram da humilde casa de Anabela em direção ao vilarejo mais próximo.
A senhora ia à frente e as crianças logo atrás. Desde aquela noite, depois de comerem os doces, não trocaram nenhuma palavra com Anabela. Estavam receosos quando encontrassem sua mãe.
Saíram da floresta, depois de alguns minutos de caminhada, avistaram algumas pessoas.
A velha contando com as descrições que os irmãos fizeram de sua mãe, perguntava se conheciam uma mulher que estava preocupada com o sumiço de seus filhos. Não demorou para que um conhecido lhes indicasse o caminho certo.
Os irmãos sabiam que estavam cada vez mais perto de encontrar sua mãe. Ao mesmo tempo em que estavam felizes também estavam preocupados com sua reação.
Chegando ao poço próximo a sua casa, a mãe das crianças viu uma estranha na companhia de seus filhos. Ela saiu em disparada para abraçá-los. Aos prantos, os agarrou e agradeceu a Deus por ver seus filhos salvos.
- Onde vocês estavam? Eu disse para vocês não se afastarem. Por que fizeram isso? – ela perguntou aos filhos.
Os filhos nada respondiam, estavam de olhos abaixados como que pressentissem que algo ruim fosse acontecer se dissessem a verdade.
 Anabela estava para tomar a palavra e explicar tudo quando Maria decidiu falar alguma coisa.
- Foi ela. Ela nos levou para dentro da floresta prometendo que se fossemos com ela, nos daria todos os doces que pudermos comer. Mas ela nos enganou, chegamos lá e havia um imenso caldeirão.
Anabela ouvia tudo aquilo com espanto. Ela não conseguia acreditar em como uma menina como aquela podia estar mentido daquela maneira.
João estava quieto, mas depois afirmou o relato de sua irmã acrescentando mais mentiras:
- Maria disse a verdade, mamãe. Essa velha nos enganou e disse que se viéssemos buscar a senhora, ela iria deixar a gente livre. Mas sabíamos que estávamos sendo enganados, ela é uma bruxa.
Tudo aquilo chamou a atenção dos moradores. Anabela estava abismada. Não fazia idéia de que tinha abrigado e alimentado duas crianças tão cruéis.
-Não... Isso não é verdade. Eu acolhi sim esses dois, eu não podia deixar eles no meio da floresta, no frio. – Anabela tentava explicar, mas era tarde. Todos a olhavam com desprezo.
Como pôde uma velha enganar duas crianças e sua mãe a fim de realizar algum feitiço contra eles? – Assim pensavam aquelas pessoas e a mãe de João e Maria.
- Bruxa! – gritou a mãe dos dois.
-Bruxa!- Gritaram os demais moradores.
Anabela estava acuada. Não tinha para onde fugir. Um homem se aproximou e a empurrou contra o chão frio de pedra o qual causou um leve corte em sua cabeça.
Suas mãos foram amarradas e foi levada e trancafiada no porão de um dos moradores.
Naquela noite foi decidido o seu destino. Seria queimada sob a acusação de bruxaria. Por ter se aproveitado da ingenuidade daquelas crianças.
Naquele dia, enquanto ouviam os protestos de Anabela e depois de presenciarem aquela cena horrível ouvindo seus gritos e lamentos, João e Maria recordaram-se do momento em que foram lavar seus rostos e tramaram toda aquela história absurda para não serem castigados.
Não havia arrependimento em seus olhos, mas algo mais medonho. Encaravam aquilo como se fosse uma inocente mentirinha e sorriram depois que terminou aquele show de horror. Ninguém iria descobrir, a única pessoa que sabia a verdade havia virado cinzas.
Para João e Maria, tudo não passou de uma brincadeira. Uma brincadeira real e cruel.

FIM
Narjara Oliveira
Publicado no Recanto das Letras em 31/10/2009
Código do texto: T1898118

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Comentários
01/11/2009 23h18 - Edson Tomaz
Se João e Maria fizeram isso com a Bruxa, tenho medo de pensar no que a Chapeuzinho Vermelho não aprontou com o Lobo Mau...rs. Pàrabéns, excelente texto!
01/11/2009 00h15 - Cadu Lima Santos
nossa, fiquei impressionado, parabéns!! mantenha contato, espero que sejamos amigos, me visite quando puder!!!
31/10/2009 19h43 - Nicolás Alberto
Caramba... que mente essa das crianças... e da escritora!! rs Muito bom! Quando sai a versão cinematográfica? Parabéns... e bom feriadão!

Sobre a autora
Narjara Oliveira
Diadema/SP - Brasil, 27 anos
11 textos (1628 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 09:35)

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