Infeliz Hallowen
Leo, esperava Jenni de frente a biblioteca, eles foram entregar uns livros, mas Jenni como sempre fez uma confusão.
- Nossa Jenni você ta cada vez mais parecida com a loura do banheiro - ele zombou quando a amiga apareceu na porta da biblioteca.
- Seu babaca, a loura do banheiro não tem que ser loura - Jenni revirou os olhos mas sabia exatamente a que Leo se referia.
- Quem disse? Eu nunca vi a loura do banheiro, você já viu? Dizem que ela é loura. - ele gargalhou e Jenni pensou por um minuto, vendo que tinha um fundo de verdade naquele besteirol, ela já tinha visto muitas esquisitices, mas nunca viu a tal "loura" do banheiro.
Eles foram andando muito devagar, as pessoas na cidade geralmente olhavam de um jeito estranho pra melhor amiga do Leo, mas ele nem ligava, dizia que era a coisa mais atraente que tinha na cidade, Jenni sempre o agradecia pela "coisa", mas eles acabavam rindo um do outro.
Entraram numa casa de cerca, com um lindo jardim e uma cor amarela chamativa, a casa do Leo. Assim que ele abriu a porta ouviu os berros da senhora Steven, a qual Jenni tinha certeza que não gostava dela, como o resto das pessoas sanas da cidade.
- Leonardo?
- Sou eu sim mãe - ele gesticulou pra Jenni entrar e depois falou baixinho - Quem mais poderia ser essa hora?!
Ela riu e entrou meia sem graça, ele bateu a porta.
- As caixas estão todas ai - gritou de novo a senhora Stven, agora deu pra identificar que ela estava na cozinha.
- Tá bom mãe - gritou o Leo, e depois jogou a mochila em cima do sofá - A Jenniffer vai me ajudar.
Isso interrompeu o percorrer do olhar de Jenni, que admirava a casa do amigo, era tudo tão aconchegante, no popular " lar, doce lar". os olhos redondos e puxados que dava ao seu rosto de boneca um ar sinistro, voltaram rapidamente para Leo. Que deu de ombros, com as mões no bolso, e um olhar de desculpa, abaixo da franja lisa, que dava formato ao cabelo redondo e castanho escuro.
- Ah - o ar de decepção na voz da senhora Steven , não negava que ela preferia que o filho tivesse outra amiga - Mas não quebrem nada - e essa não foi uma indireta mas sim uma direta.
- Você tá brincando ? - sussurrou Jenni com fúria.
- Acho que não - disse o Leo, olhando categaricamente por todas aquelas caixas espalhadas pela sala de madeira.
- Ah tudo bem, vamos começar logo então - ela tirou a mochila transversal, e largou do lado da do Leo no sofá. Não conseguia negar nada a ele, afinal era única pessoa na cidade que tinha coragem de falar com ela, a esquisita.
Eles começaram a arrumar tudo, Jenni teve problemas com sua franja que tapava sua visão as vezes, e seu cabelo muito longo. Iniciaram pelas cortinas, botaram umas negras de renda, que Jenni adorou e Leo disse que eram bizarras, mas era Halloween e tudo era valido.
Leo disse que Halloween era o dia mundial da Jenniffer, o que a fez jogar uma almofada nele depois caírem na gargalhada.
Botaram uma lanterna de abóbora em cada canto da casa, e depois foram pra caixas de mini bonecos, de assustar criancinhas. Uma múmia foi botada perto da teve, varias aranhas de borracha colante foram escaladas nas paredes, e Jenni botou um lobo na janela, pra que de noite ele uivasse pra lua.
Eles tentavam escolher mais alguns bonequinhos nas caixas mas estava difícil pois quase todos estavam com alguma parte danificada, como um fantasma decapitado, e um caixão sem tampa.
- Ei Jenni do que você vai se fantasiar? - perguntou o Leo tentando romper o silencio que se formou depois de alguns minutos.
- Eu tenho cara de quem se fantasia pra Halloween? É a noite do horror e eu já sou um horror o ano todo - ela riu com sua irônia.
O Leo parou de repente e ficou a olhando paralelamente, ela se perguntou se tinha algo de "diferente" nela.
Ele analisou, com os olhos semicerrados e uma expressão pensativa, primeiro desenhando seus lábios, que estavam com um batom preto como de custume, igual aos seus olhos contornados de um preto, também muito marcado, e quanto seu rosto parecia assustador juntando tudo aquilo a palidez de sua pele mais branca que a neve. Depois foram para a sua roupa, que como sempre era preta então não tinha muito detalhes.
- Sinceramente? - Disse ele por fim - Você não tem cara de quem se fantasia pra Halloween, até porque você já está fantasiada - ele gargalhou olhando a cara dela de espanto.
- Aha - ela sorriu sem graça - cala a boca Leo.
- Ah - soltou ele depois de enfiar a mão na caixa a sua frente - Já sei, porque você não se fantasia de vampira ?
Jenni olhou com olhos de um preto profundo e penetrantes arregalados, e se aliviou um pouco ao ver a bonequinha na mão direita dele.
- Leo - ela se levantou jogando o cabelo escorrido pra trás, e com um jeito apreensivo - eu tenho que ir.
Ela disparou batendo a porta..
- Ah tudo tudo bem Jenni - gritou o Leo quando ela já estava na calçada deixado o portãozinho aberto - Pode ir - sussurrou ele pra si mesmo olhando pela janela. E depois suspirou se voltando para as caixas.
Jenniffer não andava, corria, ou até voava. O vento desarrumava sua franja e seu cabelo negro como a noite ficava lá trás, quando ela dava um passo a frente. Pegou varias vezes suas unhas na boca a ponto de serem destruídas mas desistia quando olhava pra pintura perfeita e brilhando num tom azul marinho. Nem ligava pra todos cochichando e alguns rindo debochadamente, quando ela passava.
Jenni ficou com o coração apertado, ficou preocupada, ela geralmente ficava assim , toda vez que a palavra vampiro era mencionada, afinal era a única que sabia que tinha vampiros reais naquela cidade tola. Seu namorado, era um deles, e esse segredo nem seu melhor e único amigo sabia.
Entrou num beco escuro, ignorando o olhar de reprovação das pessoas, mas depois teve o cuidado de olhar pra ver se ninguém mais vigiava, e abriu uma porta arrastando numa lata de lixo gigantesca e depois tendo o trabalho de a botar no lugar e bater a porta. Desceu escadas escuras e depois andou cuidadosamente por um corredor tão escuro que não se vi nem sua própia sombra.
- Jenni amor é você? - Disse uma voz rouca a após ela bater numa grade.
- Sim - disse ela assustada.
Sentiu a grade deslocar e duas mões gélidas e firmes a pegarem, e a sugarem pra dentro e em seguida o barulho estrondoso da grade se fechando. A única coisa que ela viu no escuro foi aqueles olhos de ouro, e seus braços se enroscarem em volta do ser místico a sua frente. Sentiu um dos braços musculosos se soltarem de sua cintura e se estenderem pra cima. Uma luz se acendeu e Jenni viu que tinha razão até no escuro ela reconhecia seu Victor, ele a beijou fazendo-a perder o ar.
- Qual é ? Você é maluca? Sabe que não pode vir aqui de dia. - Disse uma voz firme da qual Jenni mais temia, era a voz de Phil, o vampiro do clã que mais a odiava.
- Deixa ela Phil - defendeu seu vampiro prediléto.
- É Phil - disse uma voz vinda da escuridão, que ganhou uma forma inesperada, era algum vampiro novo que Jenni não conhecia, mas ele tinha um estilo diferente dos outros que eram mais fiéis a tradição, esse era moderninho - Oi gracinha - ele agora sorria pra ela, e tinha os olhos no mesmo tom de dourado que os outros, e a pele mais clara e pálida que a dela, como os outros.
- Tudo bem - Seu amor imortal, sussurrou no seu ouvido, apesar de seus braços terem se enrrijecido em volta dela.
- Oi - a palavra quase não saiu, tinha alguma coisa nesse que lhe assustava mais do que nos outros.
Phil se clamufou na escuridão afastando-se irritado.
O vampiro moderninho bufou, se dirigindo para a grade na qual Phil estava a uns segundos atrás, ele encostou o pé e esticou o braço, encostando ambos na grade, naquele instante parecia mais rebelde que Phil.
- Então tudo pronto pra hoje a noite? - o seu ar superior deu a impressão de que aquele era o chefe da gangue de vampiros.
"A garota não sabe?- Ela olhou pra cima e viu o olhar cabisbaixo de Victor, os olhos do vampiro novo para ela, se encheram de maudade - Bem .. "
- Não - Victor se colocou na frente dela, e seus olhos negros como a noite quase pularam pra fora, seu vampiro prediléto não tinha mais o olhar dourado e brilhante, seus olhos agora estavam de um fogo ardente, as presas a mostra e seu peito rangia.
Todos os outros se juntaram com o vampiro "inimigo" numa espécie de proteção, enquanto o único vampiro, talvez o mais forte de todos ameaçava atacar, caso eles a atacassem.
- Calma, tudo bem - o vampiro chefe ordenou triunfante - Você não vai querer que a sua queridinha veja isso. Só mantenha ela longe.
- O que vai acontecer ? - Jenni tentou indagar assustada.
- Uma festinha, querida, um banquete de Halloween - ele piscou e sorriu sombriamente.
Victor que já tinha baixado a guarda, a abraçou enquanto ela tremia.
- Vou levar você embora daqui antes - ele sussurrou em sua orelha gélida, Jenni o afastou aterrorizada - O que foi ? Você me disse que nem gosta dessa gente daqui.
Ela engoliu a saliva e no mesmo instante se lembrou de Leo, pensou em pedir pro seu namorado proteger seu melhor amigo, mas como antes ela confiava que ele fosse um vampiro bonzinho, o típico vampiro "vegetáriano" e então não sabia mais se devia confiar a vida do seu melhor amigo a ele.
- Espere aqui mesmo, nós vamos assim que escurecer.
Mas Jenni saiu correndo, notando que o vampiro mau, tinha desaparecido.
- Jenni - ela escutou Victor trovejar enquanto subia disparada as escadas.
E agora? O que ela faria? Precisava tirar seu grande amigo dali o mais rápido possível, enquanto se dirigia a casa de Leonardo, não deixou de reparar que todas as casas já estavam iluminadas assombradamente.
Parou na casa na qual ela tinha passado quase a tarde toda enfeitando, e apertou a campainha.
Talvez Leo merecesse a verdade, ou talvez ela merecesse uns últimos minutos com ele.
- O que é ? Doces ou travessuras? - ele brincou a abrir a porta.
- Leo... vem comigo por favor!
- Jenni o que foi ? - ele deu um passo a frente, e bateu a porta.
- Não sei se devo falar - ela percebeu que chorava e soluçou - Mas, por favor Leo.
- Leonardo - gritou a mãe curiosa - quem tá ai fora?
- É a Jenni mãe - ele revirou os olhos.
- O que ela quer ? - Leo prefirou ignorar essa pergunta, talvez porque nem ele sabia.
- Jenni.. - os olhos dele se encheram de pena ao ver o estado desesperado da amiga - Quer entrar ? Tomar uma agua?
- Não, não tem tempo - pior é que ela tinha razão, ocorreu o que ela mais temia.
Gritos ensurdecedores, e uma correria, talvez, precipitada. Leo indagou do olhar de Jenni que ela sabia o que motivo pra aquilo, crianças corriam mas não era normal, não daquele jeito.
- Vem Leo. Por favor!
- Jenni .. O que ? - Ela ignorou a pergunta e o puxou obrigando-o a correr.
- Aqui - eles foram para uma loja abandonada mas Leo parou na porta.
- Agora é sério, fala.
- Vampiros - sussurrou Jenni, depois de muita relutancia mas ela sabia que não tinha pra onde correr.
- Rá Rá Rá - ele gargalhou - Jenniffer você é doente - ele balançou a cabeça, e se moveu pra rua confiante, mas algo o fez recuar.
Os vampiros vinham todos alinhados e sujos de sangue, ela sabia que correr ia ser inútil. Seu namorado agora parecia tão igual os outros, até os cabelos médios e sedosos tinham vestigos de sangue.
- Ela é minha ! - Phil adiantou-se.
O vampiro moderninho avançou em Leo, e nenhum outro ousou se aproximar, ele era realmente o líder. E os outros tentaram se alimentar dela mas Phil lutava com todos eles, enquanto ela sem reação decidia se corria ou se tentava salvar Leo, que era devorado pelo vampiro chefe.
Quando ele voltou o olhar pra luta de Phil, viu que os outros vampiros já tinham retornado para a cidade, e Phil era consumido por Victor, seu vampiro protetor.
Ela pegou o ferro, e tentou ser rápida, e incrivelmente conseguiu, ela massacrou a cabeça do vampiro que se alimentava do seu amigo, distraído.
Mas nem teve tempo pra sentir enjoo com tanto sangue, Victor pegou Leo o encaixando do ombro com um braço, e com o outro ele levantou Jenni e corroeu, ou melhor voou mais rápido que a velocidade da luz, então Jenni desmaiou.
Quando acordou ela ouviu passarinhos cantarem, o que foi estranho ouvir algo além dos gritos daquela noite que ainda faziam eco nos seus ouvidos.
Olhou pro lado e viu Leo na cama com curativo no pescoço, ele respirava profundamente, então ainda estava vivo, o coração ficou mais aliviado, como se desfizesse um nó apertado.
Levantou meia tonta e olhou na janela, identificou que estava numa espécie de cabana em algum lugar deserto e sombrio, o céu estava nublado como se armasse uma tempestade.
- Tá com raiva de mim?- Perguntou uma voz rouca e doce, a voz preferida de Jenni.
- Não - ela se virou sorrindo.
- Hum .. - disse Victor encostado na porta, com uma camisa branca e uma calça jeans, que lembrou a Jenni o vampiro que quase matara seu melhor amigo - espero então que não fique brava por eu ter trocado suas roupas.
- Ah - ela riu - E ele, o que vai acontecer? - Ela inclinou a cabeça pro lado.
- Bem - disse Victor se aproximando dela - Ele vai virar vampiro.
Jenniffer deu um passo a frente e enroscou os braços no pescoço dele.
- Que legal - disse ela entre gargalhadas - agora além de um namorado vampiro, eu também tenho um amigo vampiro.
Victor balançou a cabeça e a puxou com seus braços fortes na cintura dela.
- Minha mãe tinha razão, eu sou um imã pra esquisitices - lembrou ela com um sorriso maudoso.
Victor a beijou, enquanto Jenni cogitava a possibilidade de um dia virar vampira, como a sua "familia" atual.
FIM
J Cobain
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1901160