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Criatura Das Trevas - Parte I

Ela desceu as escadas como sempre: com medo. Mas desta vez, seu medo havia mudado. Helena não sentia mais uma cisma de criança, influenciada pela avó, com medo da vizinha que praticava uma religião que ela não entendia. Ela ainda era criança, mas o medo era real. Era um medo diferente, mais intenso. Ela não sabia porque, mas parecia que estava sem proteção, indefesa. Era como se tivesse perdido seu anjo da guarda.

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Helena não gostava das visitas à casa da avó. Quando o avô era vivo, ela ia por causa dele. Seu Herculano sempre mimara a única neta mulher, adorava contar histórias dos tempos idos, , sempre tinha doces e alguma lembrancinha para dar a neta quando esta ia visitá-lo. Quando ela começou a ficar mais velha, o avô passou a lhe ensinar dança de salão e juntos dançavam, dizia ele que estavam treinando para sua festa de 15 anos.

Pela avó, Dona Elvira, a neta já não nutria o mesmo afeto. Não que a avó fosse má ou tivesse feito alguma coisa em particular para desagradá-la. Mas a extrema religiosidade e a extrema ambição da velha senhora eram um teste de paciência tremendo para qualquer um. Quando não estava falando bem da igreja que freqüentava – o que geralmente implicava falar mal de todas as outras – Dona Elvira estava falando dos bons tempos, quando Seu Herculano ainda era um industrial respeitável e de como ele tivera a capacidade de perder tudo. Agora estavam ali, jogados à míngua, morando num bairro horroroso, cercados de gente pobre e, coitados de quem fosse visitá-los, ainda teriam de passar em frente a porta da Velha Adoradora do Inimigo.

A dita Velha Adoradora do Inimigo era Dona Wilma, uma senhora de muita idade e mãe-de-santo. Era outra coisa que desgostava Helena em visitar os avós. Como moravam em uma pequena viela – “Um cortiço, um verdadeiro cortiço”, dizia sempre Dona Elvira – quem tentasse chegar a casa dos avós de Helena tinha obrigatoriamente de descer uma longa escada de muitos degraus e passar em frente à casa de Dona Wilma. Como criava galinhas d’Angola no quintal, o cheiro do galinheiro sempre revoltava o estômago de Helena, sem falar no medo que ela sentia da Louca do Brejo, como às vezes Dona Elvira se referia à vizinha. Quando ia visitar os avós e a velha senhora estava reunida com seus filhos de santo, o som dos atabaques e o cheiro do defumador apavoravam Helena.

Ao avô, nada daquilo o incomodava. Ele sempre tentava ensinar a Helena o valor da tolerância, especialmente com tantos maus exemplos que sua esposa não se incomodava em fornecer. E, depois de tanto tempo ainda casado com Dona Elvira, aturando seu mau gênio – que nunca fora bom, nem nos tempos em que ela fora uma das vedetes mais bonitas do teatro de revista de São Paulo e Seu Herculano, encantado com a beleza daquela mulher, tolerava não apenas seu mau gênio, mas também sua ignorância – adorava dar palpites, geralmente estúpidos, sobre assuntos que não entendia. Aturava silenciosamente sua necessidade de gastar –   ele nunca lhe negara nada, e foi isso o que os levara a perder tudo. A mulher gastara sua fortuna toda, o culpava pela pobreza em que viviam agora em seus últimos anos, mas ele tolerava tudo em silêncio pelo amor que sentia por ela.

As fotos antigas da avó mostravam o quanto ela fora bonita em sua época. Espalhadas pela pequena casa, ou guardadas em álbuns luxuosos, mostravam uma mulher bela, da qual só sobraram os imensos olhos verdes, ainda brilhantes. No mais, o tempo passara para Dona Elvira como passara para todo o resto da Humanidade.

Helena tinha certeza de que Dona Elvira só permanecera junto a seu avô por pura falta de opção. A falência do avô acontecera com o casal já às portas da terceira idade. Se tivesse ocorrido quando a beleza da avó ainda estivesse num mínimo aceitável, ela teria dado um jeito de se arrumar com um daqueles homens, todos donos de grandes fortunas, que formavam o círculo de amizades do casal na época de riqueza. Não se importaria se fosse para ser esposa ou amante de um deles, afinal a avó só começara sua cruzada pela moral e bons costumes depois que ela mesma não tinha mais atrativos para desviar os homens do bom caminho. E seu mundo, que antes ia da mansão da família para as festas mais badaladas de sua época, agora se resumia entre cuidar da pequena casa e freqüentar a igreja a que se convertera nos últimos anos.

Helena jamais admitiria, ninguém jamais admite uma coisa dessas, mas no fundo ela sabia que a implicância sua com Dona Wilma – e com mais certeza ainda a implicância nutrida e demonstrada pela avó – tinham um grande fundo de racismo. Helena, assim como a avó, tinha uma pele muito branca, olhos de um verde profundo e um cabelo ruivo de vermelho vivo, coisa rara num país de negros e mulatos. Tinha muito orgulho disso, só não percebia que do outro lado deste orgulho se revelava uma ponta de desprezo pelos que não eram como ela.

A mãe de Helena, Dona Luísa, tinha um espírito mais parecido com o de Seu Herculano. Tanto que, ainda na época mais abastada da família, tinha rompido com a mãe, porque desejara se casar com um homem de classe social mais baixa que a da família. Dona Elvira, quando de seus ataques de mau humor, não perdia uma oportunidade de alfinetar a filha: se a desmiolada não tivesse se casado com aquele pobre, teria condições de cuidar dos pais, agora velhos e necessitados. Desnecessário dizer que, depois da morte de seu Herculano, Dona Luísa só continuava visitando a mãe por pura obrigação.

Sobre Dona Wilma, ninguém da família sabia muita coisa e fazia questão de não saber. Já bastavam o fedor das galinhas, do defumador, o barulho incômodo dos atabaques, rituais de macumba amedrontando a pequena Helena.

A morte do avô se deveu a uma fatalidade. Distraído, Seu Herculano errara na dose e tomara o mesmo remédio duas vezes. A dose excessiva do medicamento foi fatal.

Com a morte de Seu Herculano, Dona Elvira afundou-se ainda mais nas obras da igreja e, a pedido do pastor, passara a cuidar de um bebê que ficara órfão. Foi na visita para conhecer o tal garoto que, pela primeira vez, Helena ficou frente a frente com Dona Wilma.

Naquele dia, Helena estava no pequeno quintal nos fundos da casa da avó, tomando conta do pequeno Rafael. Era um menino muito bonito, Helena até dissera para avó que esta devia colocá-lo para ser modelo mirim. Tinha um cabelo de uma cor negra, muito escura, muito macio e brilhante. Helena estava adorando a idéia de a avó cuidar de Rafael. Quem sabe assim ela não ficava um pouco mais tolerável?

Em um momento em que se sentiu desagradado, Rafael atirou longe o chocalho com que Helena tentava entretê-lo. Com uma força incomum para um bebê de sua idade, o chocalho foi parar longe, do outro lado do muro.

- Ai, Rafael! Mas logo no quintal da Louca do Brejo? Que saco!

Ela precisava fazer alguma coisa. Se a avó desse falta do tal chocalho, ia dar um dos seus pitis habituais.

Helena subiu em um caixote e olhou por cima do muro, tentando localizar o chocalho. “Como esse menino é forte!”, pensava consigo mesma, enquanto vasculhava o quintal da vizinha em busca do brinquedo. Havia muitas plantas, que atrapalhavam sua busca. Será que ia ter de pular o muro e entrar naquele quintal, onde tantos rituais de macumba já haviam sido celebrados? “Urgh!” – pensou Helena – “tenho medo só de pensar...”

- Acho que isto aqui é o que você está procurando, não é, minha filha?

O susto quase derrubou Helena do caixote. Saindo detrás de uma frondosa e comprida samambaia, que a havia ocultado das vistas da menina, Dona Wilma trazia em suas mãos o chocalho e nos lábios um suave sorriso.

- Desculpe, minha menina, eu não queria assustá-la. Tome aqui, esse brinquedinho é seu, não é?

- Meu, não! Não sou bebê prá brincar com uma coisa dessas! Não sou nem mais criança! Tenho dez anos, já sou teen! – e Helena empinou-se toda, empertigada em sua auto-afirmação.

O sorriso de Dona Wilma só fez ampliar-se.

- Puxa, que bom que me contou tudo isso. Agora que conversou comigo e conheço você melhor, nunca mais vou dizer que você é uma criança. Já sei que você é teen.

Helena ficou nas nuvens. Difícil um adulto concordar com ela daquele jeito. Mas acabou tendo uma surpresa inesperada:

- Agora que você conversou comigo e também já me conhece melhor, pode ver que não sou louca e que também não venho de nenhum brejo. Agradeceria se não falasse mais essas inverdades a meu respeito. Tenha uma boa tarde, mocinha!

Virando-se em seus calcanhares, a velhinha dirigiu-se para o interior de sua casa, deixando para trás uma Helena bestificada, paralisada sobre o caixote, segurando um chocalho com ar extremamente abobalhado.

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Edson Tomaz
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1901418

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Sobre o autor
Edson Tomaz
São Paulo/SP - Brasil, 38 anos
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