Criatura Das Trevas - Parte II
Helena era uma menina inteligente. Apesar de num primeiro momento ter ficado fula da vida com o passa fora que tomara de Dona Wilma, reconheceu que a errada da história era ela. Embarcara nos preconceitos da avó e passara o maior carão.
Na verdade, a velhinha se mostrava admirável. Esculhambara com ela sem perder a classe, falando com doçura e inteligência. Fora muito mais doído daquele jeito. Helena também ficara surpresa com o bom português da mulher. Achou que ela só tratasse os outros por “mizifio” e “mizifia”, como as escravas que via nos filmes e nas novelas de época, mas a mulher falava com uma elegância e fluência que lembravam muito seu falecido avô. Sabia até o que era “teen”!
Sentiu uma imensa curiosidade para saber mais sobre aquela mulher.
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Dona Elvira começara a tomar conta de Rafael no final daquele mês de julho. Agosto chegou e com ele, a volta às aulas. Os professores pareciam pensar que, já que voltavam descansados das férias, era hora de cansar os alunos de novo.Atulhada de lição de casa até o pescoço, Helena nem sequer teve tempo de pensar na vizinha de sua avó.
Já Dona Luiza começou uma espécie de jornada dobrada, tentando ajudar a mãe a cuidar de seu “irmãozinho”. Deixava Helena na escola de manhã cedo e ia para a casa da mãe. Na volta, no fim da tarde, voltava para buscar Helena e cuidar da casa.
Nos finais de semana, o pastor mandava alguém da igreja ajudar Dona Elvira com o menino, que crescia cada vez mais, estava lindo, carinhoso e inteligente.
Nesse período que ficou sem ver a avó, Helena um dia escutou um trecho de uma conversa entre a mãe e o pai.
- E então, Luíza, como está seu “irmãozinho caçula”?
- Ah, Jaime, ele está maravilhoso. É tão risonho, tão inteligente. Dá gosto ver um garotinho tão lindo! Só que está pegando a mania da mamãe de ficar medindo os outros de alto a baixo. Isso é muito feio!
- Tá brincando!
- Não, é verdade. Mamãe e eu fomos ao mercado ontem e levamos o Rafael com a gente. Passamos por um mendigo no meio do caminho e lógico que mamãe olhou o pobre infeliz com o maior desprezo. Mas minha surpresa foi ver o Rafinha fazer a mesma coisa... Dei a maior bronca na mamãe! Pensa, tão pequenininho e fazendo uma coisa feia dessas!
- É, a velha já está sendo uma má influência para a criança.
- Mas sabe, Jaime, para ela esse menino está sendo uma benção. Em toda minha vida, eu nunca vi mamãe passar mais de cinco minutos sem reclamar de alguma coisa. Nestes últimos dias, ela está sempre sorrindo, sempre cheia de cuidados com o Rafa. Acredita que ela está até cantando?
- Então é melhor chamar a polícia, porque alguém deve ter seqüestrado sua mãe e colocado uma impostora no lugar... pensando bem, não chama, não. Melhor deixar a velha onde está. Coitados dos seqüestradores!
- Jaime! Já falei pra não falar assim da minha mãe... por mais que ela mereça!
- Tudo bem, meu amor, tudo bem. Desculpe. Não pude resistir.
- Sabe, o menino está fazendo tanto bem para ela que parece até que ela... – Dona Luíza interrompeu sua fala e balançou a cabeça, como se afastando um pensamento ruim.
- Fala, amor, o que tem a sua mãe?
- Ela parece cada dia mais jovem.
- Ora, isso é bom, não é? Sinal de felicidade.
- Não é isso, Jaime. Eu sei que vou parecer uma louca falando isso, mas não é de jovem de espírito. Ela parece mais jovem... fisicamente!
- Tem razão...
- O quê??
- Tem razão. Você disse que ia parecer uma louca falando isso e pareceu mesmo...rs.
- Ah, Jaime!
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O grande cão negro cruzou as ruas desertas naquele 31 de outubro sem fazer alarde. A grande maioria da população viajara para curtir o feriado prolongado.As poucas pessoas que encontrou perdidas pelas ruas naquela hora mal repararam nele, apesar de seu enorme tamanho e seu ar ameaçador.
Quando chegou aquele bairro da periferia, fez uma pausa antes de descer a longa ladeira que o separava de seu objetivo. Farejava o ar continuamente e o cheiro não lhe dava margem para dúvidas: estava perto agora, bem perto.
Desceu a ladeira mantendo um ar imponente, altivo. Como se fosse um rei passando em revista seus súditos, aguardando deles a devida reverência. Mas ao chegar ao fim da ladeira, quando estava atravessando a rua, foi repentinamente obrigado a parar.
Um ar de espanto tomou conta de seu semblante. Começou a farejar o ar com força, chegando a fazer um barulho forte com sua respiração. Aos poucos, foi sendo tomado por uma raiva incontrolável. Primeiro, começou rosnando, cada vez mais alto, até que começou a latir e a pular, como se fosse atacar um ser invisível à sua frente. Insistiu nisso até ficar cansado. Podia agora ouvir os moradores dentro das casas, reclamando de seu barulho.
Resignado, virou as costas e voltou a se misturar à escuridão da noite.
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Um pouco menos atarefada naquela semana, Helena se ofereceu para ajudar Dona Luísa a tomar conta do pequeno Rafael naquele domingo. Dona Luísa aceitou de bom grado.Como era Dia de Finados, a mãe queria levar a avó ao cemitério para visitar o túmulo de Seu Herculano. Seria bom se alguém pudesse ficar com o Rafinha enquanto isso. Helena, apesar da pouca idade, era muito responsável. A mãe sabia que podia confiar nela.
Pouco depois da mãe e da avó terem saído, Rafinha estava dormindo no berço e Helena foi até a porta de casa, ver se encontrava Dona Wilma. Encontrou-a descendo as escadas com razoável dificuldade e correu até ela para oferecer ajuda.
- Oh, my little teen friend! (Oh, minha pequena amiguinha adolescente!)
Helena não conseguiu esconder o espanto:
- Nossa, a senhora fala até Inglês!
Apoiando-se na mão que Helena lhe oferecia, Dona Wilma terminou de descer as escadas.
- Estudei muito, minha filha. Estudei muito quando era mocinha. Meu sonho era ser professora, mas os orixás tinham outro caminho pra mim.
- Ah, tá, que se eu quisesse alguma coisa ia ter orixá pra me mandar fazer outra!
Dona Wilma apenas riu da descortesia de Helena. Gostava cada vez mais daquela criança. Apesar de bocuda, podia sentir que havia bondade no coração da menina. E ela também fora espontânea daquele jeito, quando criança.
- Não, querida. Ninguém me fez desistir de nada. Não fui forçada a nada, embora também tenha pensado isso no começo. Na verdade, me ajudaram muito. Me ajudaram a encontrar minha verdadeira vocação. Ajudo menos pessoas hoje do que se fosse dar aula, mas ajudo de uma forma muito mais profunda. E sou muito mais feliz assim.
- Ah, então tá bom! O que é esse pacotão no bolso do seu vestido ?
- Sal grosso.
- Vai fazer churrasco?
Dona Wilma deu risada.
-Não, meu anjo. É pra proteger do mal.
- A gente tem sempre que andar com isso?
- Não, querida. Eu só espalhei um pouquinho em volta do quarteirão, enquanto fazia minha caminhada de todas as manhãs. Assim ficamos todos protegidos.
- Tem alguém querendo nos fazer mal?
Por um instante, o rosto de Dona Wilma assumiu um ar preocupado, mas ela logo voltou a sorrir.
- Não, não. Precaução, apenas precaução.
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(Continua em Criatura das Trevas - Parte III
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Edson Tomaz
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1901420
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