O Baú de Carvalho
Sentada numa poltrona, em frente à janela de sua casa, July se portava imersa em seus pensamentos. Ela instalou-se no sótão de sua recente habitação. July era uma adolescente que não se enquadrava, apreciava as músicas, digamos, alternativas, os sons metálicos que fazem à cabeça dos adolescentes de todas as épocas e gerações (Rock).
Logo que compraram a casa, os pais decidiram que ficaria a cargo dos filhos a escolha dos quartos. Mas para July, uma só era a sua opção; ela a avistara no momento em que chegaram a casa. A janela estava embaçada de poeira, mas com contornos bem delineados para uma jovem desajustada, sedutores, eu diria.
O sótão, o antigo e velho compartimento de clausura, transfigurava-se para July no seu recôndito obscuro, a sua masmorra fétida e empoeirada. Nele, ela fazia algo que contrariava as expectativas até mesmo para uma jovem tão soturna, adorava ficar em frente a janela e observar o mundo... Moravam num condomínio de casas residenciais muito atrativas. Mas o interesse de July eram as pessoas e suas manias!
Os jovens ajustados vêem a solidão como um martírio, já os solitários apreciam cada faceta desta. A tristeza da ausência é uma oportunidade para a criatividade. July adorava escrever e rabiscava em seu diário as histórias mais insólitas envolvendo seus personagens favoritos, os vizinhos do seu condomínio de luxo.
Ria do gordo vizinho e seu cachorro obeso, os julgava almas gêmeas, pareciam caricaturas ambulantes, e da menininha loira de fitinha rosa, à semelhança da personagem Pig (Mupptes Babies). Ela ficava por horas rindo das peculiaridades das pessoas que em certos momentos pareciam mais desenhos animados com seus traços por demais esdrúxulos...
Quinquilharias estavam abandonadas naquele sótão, desfez-se de todas, a exceção de uma, um baú de carvalho escurecido e bem ornamentado, diferente de tudo o que já havia visto na vida. Não tinha a chave mas, para o seu deleite, o guardou como a uma relíquia.
Gravado no baú havia algumas inscrições, jurava que estavam escritas em algum dialeto antigo, o que a deixava cada vez mais intrigada e orgulhosa por tê-lo, além de ansiosa pela perspectiva de encontrar a chave daquele objeto peculiar.
continua...
Xande Ribeiro
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2009
Código do texto: T1902291
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