Terror na floresta (Parte 2)
No dia seguinte, a turma 1302 estava agitada. No meio de todo aquele burburinho e som de celulares sendo teclados. O professor interrompia a aula e chamava a atenção de todos. Durante o intervalo os amigos se reuniram e conversavam.
-Pô galera acho que vai babar. O pessoal ta meio cismado com o lance da festa rolar na floresta.
Apregoava Márcio, com certo desânimo em seu tom.
Marcão estalou os lábios e disse tentando reanimá-lo.
-Qual é Márcio, desanima não cara, vamos tentar convencer o pessoal... Lá vem a Rose.
-E ai Rose, cancelou a quadra?
Perguntou Marcão.
Rose que vinha com um sorriso em seus lábios, logo o desfez ao notar certo desânimo nos amigos. Respondeu a pergunta de Marcão em seguida fez sua indagação:
-Sim, mas que caras são essas?
Márcio tomou a frente na resposta e disse:
-Porra, o pessoal não quer ir, vamos ter que fazer na quadra mesmo.
Rose reagiu com certa insatisfação. Bateu as mãos contra as pernas.
-Ah! Fala sério, eu que não vou falar com o diretor novamente.
Marcão, no entanto, não assentia a idéia de desistir de seu plano. Sentia que se não fizessem essa festa, nunca mais teriam a oportunidade de se reunirem longes dos rigorosos olhos dos adultos. Era o último ano deles na escola.
- Porra! Quem disse que precisamos deles? Vamos fazer só entre nós e algumas pessoas de fora.
Falava Marcão.
- Pô, mas sem a galera toda, vamos ter que gastar mais e vai ter menos coisas.
Disse Rose ainda desalentada.
Marcão enfatizava:
-Mas para que muita coisa? O importante é zoar entre os amigos.
Lincon que ouvira todo o diálogo em silêncio pronunciou-se, seu tom era levemente exaltado.
-Quer saber, Marcão tem razão, foda-se esses crentes... Vamos fazer entre nós mesmo, fazemos um churrasco e compramos as bebidas, sem blá, blá, blá ainda chamo umas minas do meu bairro, só cachorra.
Marcão soltou um breve aplauso para o amigo, em seguida o elogiou.
-Boa Lincon, essa é a atitude irmão, então vamos manter a parada?
-Sim.
Respondeu Lincon.
Márcio em seguida topou dizendo:
-Lógico.
Rose coçou a cabeça, e sua expressão não era das melhores.
-Rose?
Disse Marcão fixando seus olhos esperando a decisão da amiga.
-Ta gente... Eu topo.
Replicou Rose após um suspiro.
O celular de Márcio havia vibrado em seu bolso, o jovem pegou-o e constou que tinha recebido um sms. Leu-o e disse aos amigos:
-Roger acabou de me confirmar que vai à festa.
Marcão que era desafeto assumido de Roger, não gostou nem um pouco do que ouviu.
-Porra Márcio, tu ta de sacanagem né? Chamou esse cara mesmo?
-Chamei ué, vai dizer que ainda tem picuinha com o cara depois de dois anos.
-Picuinha? O filho da puta colocou uma faca no meu pescoço e tu fala que to de picuinha?
Márcio soltou um comentário levemente parcial da origem do desentendimento.
-Porra Marcão, tu também quis pegar a mina do cara.
-Lógico, ela estava dando mole pro Negão aqui.
Respondia Marcão com um sorriso sacana na face. Completava:
-Mas avise esse cara que se vier de graça dessa vez, vou arrebentá-lo. Agora que o pai dele morreu, ele não tem mais quem o garanta.
Roger era um jovem problemático. Vivia metido em diversas confusões e tinha envolvimento com drogas, fato que se agravou após a morte de seu pai, policial morto em serviço. Após o falecimento do pai, o jovem que antes só apertava um baseado passou a injetar e a cheirar, era a maçã podre do cesto daquele colégio de classe média alta. Seu único amigo era Márcio, na verdade, era apenas uma amizade distante, ou como muita gente gosta de dizer, um amigo de copo. Márcio por sinal se dava bem com todos, era um jovem boa praça, ao contrário de Roger, que era mal visto por toda a escola, incluindo os professores. Até mesmo a irmã lhe odiava, pois o mesmo divulgou fotos comprometedoras que ela tinha tirado com o namorado. Isso lhe rendeu alguns reais pago por um site pornô, a grana foi torrada em uma boca de fumo num morro próximo.
Após as aulas Marcão saía com Rose, os dois sempre iam e vinham juntos, muita das vezes o adolescente pegava carona com a mãe da amiga.
-Porra Rose seu queridinho é foda ein. Nada a ver convidar aquele drogado de merda.
Rose era apaixonada por Márcio.
- Relaxa cara, só cada um ficar na sua, e além do mais, sei que você estará concentrado em apenas uma coisa... Jacquie... Jacquie... Jacquie... Falando nisso já a convidou né?
-Ainda não, to meio sem graça... Tipo esse lance da festa rolar na floresta, longe de tudo e de todos, tenho medo que ela pense que estamos armando uma orgia ou qualquer porra dessas.
Rose não aquiescia com o pensamento do amigo, disse em seguida.
-Lógico que não, afinal eu vou à festa e ela sabe que eu não sou disso, se quiser eu a convido pra você.
- Pô Rose faz isso sim, você chamando aumentam as possibilidades dela ir.
- Depois me passa o MSN dela que eu a adiciono.
- Pode deixar que eu passo sim, vai entrar mais tarde?
-Vou sim.
-Então beleza.
Rose abruptamente olhou para Marcão com uma feição séria, porém a seriedade repentina se desfez quando a jovem ficou na ponta dos pés e começou a apertar as bochechas do amigo.
-Oh! Mas que bonitinho o brutamonte apaixonadinho, que coisa mais fofa!
-Qual é rose! Não aperte minhas bochechas.
...
-E o Márcio, quando vocês vão começar a sair?
Dissimulou Marcão mudando de assunto.
-Se dependesse de mim, ontem, mas ele parece que sempre me evita.
-Evita nada Rose, ele que é meio lerdo mesmo, mas relaxa que vou te adiantar, vou deixá-los na boa na festa.
-Acho bom mesmo, uma mão tem que lavar a outra.
Enquanto saiam sorridentes da escola, Rose e Marcão foram interrompidos por Wellington. Garoto introvertido, mal arrumado e pouco popular entre as garotas, aliás, pouco não, muito impopular. Mas compensava sua impopularidade sendo o melhor aluno da classe, talvez da escola. Tinha uma paixão reprimida por Rose, tão reprimida, que se fazia passar por outra pessoa quando conversava com ela pela internet. Talvez se ele logasse com seu próprio MSN Rose fatalmente o excluiria.
- O que você quer Doente?
Perguntou Marcão não gostando da presença de Wellington.
Uma brisa fria soprou fazendo as folhas de uma mangueira movimentar-se junto com alguns galhos finos. A mangueira ficava em uma casa vizinha a escola.
-Cara, vocês vão mesmo fazer a festa na floresta?
Perguntou o jovem de óculos quadrados.
-Vamos por quê? Não me diga que vai querer ir? Pois se quer, a resposta é não.
Respondia Marcão rispidamente.
- Eu não quero ir.
Dizia Wellington pacientemente.
-Por que está perguntando então?
Wellington não respondeu; ainda paciente levantou outra questão.
- Vocês conhecem as lendas que existem naquela floresta?
Marcão respondeu com um tom irônico.
- Cara lá tem tanta lenda, que já viram até o Papai Noel por lá.
Wellington o tratou com certo desdém, estava ali com o único propósito de se aproximar de Rose. Disse:
-Andei pesquisando sobre lendas e espíritos em florestas, e li uma coisa que coincide com os acontecimentos que já ocorreram lá, acho que alguém conjurou um espírito direto do inferno, e esse espírito caça as pessoas e as devoras. Devora tudo... Inclusive os ossos.
Marcão impaciente novamente ironizava:
-É? Que legal cara! Mas me responda uma coisa: Por que meu irmão nunca foi pego por esse tal espírito? Ele já caçou algumas vezes por lá e nunca lhe aconteceu nada.
-Não sei ao certo, talvez deve haver um ciclo ou coisa do tipo porque...
-Ta cara, chega dessa merda ok?
Exaltou-se Marcão interrompendo-o.
Wellington persistia:
-Na verdade queria dizer que há dois meses, uma patrulha fazia ronda pela Estrada da Parte Alta e viu alguém arrastando duas pessoas, um casal especificamente. Os policiais atiraram, mas aquela coisa simplesmente desapareceu no meio da mata ou no meio do ar.
Marcão ainda com o sorriso irônico nos lábios, suspirou e disse:
-Cara... Você passa tempo de mais na internet.
Wellington fitando Rose que apenas ouvia sem expressar qualquer reação falou:
-Pode até ser, mas aquele casal deu muita sorte, e nem todas as pessoas são providas disso.
Apesar de todo seu ceticismo sobre o caso, Marcão não conseguiu evitar que arrepiassem os pêlos de seu antebraço, talvez fosse a brisa fria que soprara novamente.
Wellington se retirava da presença dos dois.
Ao ver a amiga quieta, Marcão perguntava:
-Que foi Rose? Vai dizer que acreditou na história daquele retardado?
-Não, quero dizer... Sei lá, esse garoto me assusta as vezes.
- A merda é que gente demais ta sabendo da festa, se o diretor souber vai comunicar aos pais e se isso acontecer, vai foder com tudo.
-Realmente, se meu pai souber, jamais poderei ir.
-Mas relaxa, vai dar tudo certo.
-Espero que sim.
Sussurrou Rose.
E foi a última vez que ambos falaram no assunto festa um com o outro naquele dia, seguiram para suas casas conversando sobre outros assuntos.
[CONTINUA]
Edu Berdague
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2009
Código do texto: T1903681
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