Os Seus e os Meus
A noite de lua cheia na orla de Jurerê Internacional estava belíssima e agradável, a temperatura alta de todo dia baixara e uma doce brisa soprava do mar. O cenário da praia, de areias douradas iluminadas pela luz prateada da lua cheia podia ser vista de formas tão diversas e distantes, casais passeavam à beira do mar, grudadinhos, ou de mãos dadas, arrastando seus pés descalços, segurando as sandálias e chinelos nas mãos que estivessem livres.
Para Evangelina aquele cenário, a lua cheia iluminando o passeio, o vento em seus cabelos, trazendo o cheiro do mar, que quebrava-se com um doce lamento sob seus pés pequenos, a sua mão segurando a de Edmonton, a conversa despretensiosa e os risos, tudo aquilo era o mais próximo que poderia imaginar do que era o paraíso. Queria que aquela noite não terminasse nunca! Sentia-se estranhamente como se sua vida tivesse começado no dia em que pisou em Florianópolis, os noventa e poucos anos de solidão pareciam não ter existido, era tão bom estar ali com seu amor, sem se preocupar com nada, sentindo-se verdadeiramente amada e amando, pela primeira vez depois de muito, mas muito tempo mesmo...
Parecia que tinha sido há muitos anos, talvez há mais de 90 anos, que não faziam aquilo. Na verdade, a última vez que tinham assistido um jogo do Figueirense em um bar da orla foi em fevereiro, pelo campeonato estadual. Apesar da noite agradável, o balneário do norte da ilha não era, nem de longe, o preferido de Gabriel. Seu amigo, o major Hercílio, também não se sentia muito a vontade ali, lembrava-se de quando o lugar era quase deserto, quando tinham casas mais simples, umas poucas famílias de pescadores moravam por ali. Aliás, o dono do bar, um de seus amigos dos velhos tempos de Jurerê, era da última dessas famílias que ainda moravam por ali. Nos últimos anos, o interesse pelos times da cidade, o seu Figueira e o Avaí, tinha crescido bastante, mas justo naquela noite todos os bares do centro estavam sintonizados justamente numa partida que ocorria lá no Rio de Janeiro! Quanto a Gabriel, passava por Jurerê mais vezes, pois de vez em quando gostava de passear pela praia do Forte, a poucos quilômetros dali, mas todas aquelas casas que lembravam vagamente os sets de filmagem de algum seriado ou filme ambientado em Beverly Hills lhe desgostavam terrivelmente. A arquitetura de traços portugueses dos casarões da rua dos Ilhéus, da velha Alfândega ao Mercado Público Municipal lhe eram mais agradáveis aos olhos do que aquelas residências de veraneio feitas no insuportável estilo californiano. Sem falar na artificialidade das pessoas que por ali moravam, ou passavam férias. Definitivamente, os dois amigos detestavam Jurerê Internacional. Mas gostavam de futebol, e queriam assistir ao Figueira jogar! Haviam ainda remotas esperanças de que o time subisse para a série A do campeonato nacional do próximo ano.
“Não fosse por isso”, disse seu Hercílio, antes de beber um gole de chopp, sem desgrudar os olhos da tevê LCD de 52 polegadas, “eu nem viria até essa praia.”
“Sei lá” comentou Gabriel, com uma certa falta de entonação, sua voz soando monótona, como se traduzisse a emoção que sentia-se ao assistir aquela partida pela tevê, “talvez fosse bom tu vires a praia. Não necessariamente a essa Beverly Hills barriga-verde, mas a alguma praia!”
O velho militar deu um suspiro longo e acrescentou de modo aborrecido, em parte também por mais uma oportunidade perdida pelo atacante do Figueirense: “Estás tolo, Gabriel! Andas estranho por esses dias... depois que reencontraste teu amor então...!”
Gabriel não pareceu ouvir esse último comentário do amigo, torcia as mãos, os olhos completamente negros pareciam fitar o vazio, mas no bar os poucos freqüentadores daquela noite estavam todos parecendo ter o mesmo olhar, na espectativa de que seu time ganhasse a partida. Levou as mãos à cabeça, repetindo o gesto de umas duas pessoas por ali e soltou um suspiro de alívio. “Tô repensando algumas coisas”, respondeu, vários minutos depois, com o olhar ainda grudado na tevê. “Mas há coisas que não merecem nem serem lembradas. Ninna é uma dessas coisas.”
Por um segundo seu Hercílio se perguntou o que Gabriel queria dizer com repensar algumas coisas, mas logo voltou ao jogo e não mais falou. Pediu mais um chopp e xingou o centroavante do Figueira, que isolou mais uma bola. Assim que a bebida chegou, seu Hercílio desviou o olhar da tevê, surpreso com a cena: Gabriel estendeu a mão, levantou o copo, levou-o a boca e sorveu um gole pequeno, demorou uns instantes para engolir. Ante o olhar do major, deu um meio-sorriso, irônico: “Tô repensando algumas coisas, como te falei! Queria ver se ainda sinto o gosto das coisas...”
“Vamos lá?” ele falou. Evangelina, sentada sobre a mureta de cimento, aconchegada nos braços de Edmonton, a cabeça suavemente caída sobre o ombro do rapaz, os olhos estavam fechados, e ao abrir lentamente, como se despertasse de um sono reconfortante, languidamente espreguiçando-se como uma gata, perguntou num murmúrio “pra onde...?” Levantou a cabeça e fitou-o nos olhos com um olhar esbugalhado, rindo-se nervosamente. “Ah! Claro... desculpa! Acho que fiquei fora do ar, um pouco...” Edmonton também riu, divertido. “Nossa casa é aqui perto”, disse, “Devem estar preparando um banquete pra você...” Ed mal disfarçou um certo tom de ironia, que Evangelina não entendeu, só a palavra “banquete” lhe causou algum incomodo, como faria para simular o ato de comer? Ficou em dúvida por alguns minutos, sem saber qual desculpa iria dar, pois passaram toda a tarde à beira da praia, juntos... enquanto espanava com as mãos a areia da calça, só conseguiu murmurar “nossa, um banquete... que coisa!” “Minha família é meio exagerada”, respondeu ele, com um sorriso um pouco encabulado, que sempre derretia o coraçãozinho dela. Pegou em sua mão: “Vamos, eles estão loucos pra conhecê-la!” Evangelina sorriu e acenou positivamente com a cabeça, sentindo-se ruborizar e baixando os olhos. “Certo, vamos”, respondeu ela, calçando as sandálias pretas com brilho, evitando olhá-lo, ainda encabulada, e um tanto preocupada. Tinha a sensação de uma mariposa esvoaçante dançando em seu estômago, não sabia o que lhe esperava. Imaginava o que podia estar esperando por ela, na casa de veraneio de Edmonton, ele falava do pai e dos irmãos, lhe contara que sua mãe havia morrido há muito tempo, era uma história muito triste para dar os detalhes... provavelmente o pai e os irmãos estariam por lá, esperando para conhecê-la. Não sabia o quão distante da realidade estava, nem viria a saber, pelo menos naquele momento.
Sentiu a mão dele soltar-se da sua violentamente, levantou os olhos, para surpreender-se com um estranho de cabelos escuros e pele clara, queimada de sol, movimentando-se tão rápido que mal conseguira perceber seus movimentos. Edmonton de repente sumiu do seu lado, como se tivesse evaporado, ou sido tragado pela areia da praia. De repente, quando notou que o estranho olhava para cima, Ed já estava aparecendo novamente, caindo de muito alto, e antes que batesse com as costas no chão, aquele homem aparou-o no ar com um voleio como o dos jogadores de futebol para chutar uma bola. O impacto de seu pé contra o corpo de Edmonton o fez voar longe, ela não pôde ver, mas ouviu-o chocar-se com uma onda e afundar no mar.
“O que você pensa que está fazendo??” Evangelina disse, quando recuperou-se do susto, e tentando estapear Gabriel Youth. Ao ver aqueles olhos completamente negros, recordou-se, como se estivesse despertando de um sonho, dos olhos dos parasitas da galera da Noite Preta.
Gabriel desviou-se do tapa e segurou o pulso dela o mais suavemente que podia. Riu-se pelo fato de não ter percebido antes o que percebia agora, olhando nos belos olhos daquela menina, pela aura dela pode ver que não era uma garota normal. “Desculpa ter atrapalhado vocês de se morderem mutuamente, mas eu tinha que cumprimentar meu velho patrício!”
Evangelina estacou, sem entender o que ele quis dizer, ou talvez entendendo mais do que gostaria de admitir, os olhos dele pareciam penetrá-la e intimidá-la, de uma forma que não vira ainda. O parasita com um olhar apenas percebeu que ela era vampira?
Edmonton apareceu todo encharcado, com um sorriso selvagem que ela não vira ainda, preparando-se para golpear Gabriel: “Ora, mas esse mundo é mesmo muito pequeno!”, disse em inglês. “Você aqui, Gabriel Youth!” Seu soco foi seguro pela mão forte de Gabriel, sentiu os ossos estalarem, como se fossem quebrar. O capitão da RAF tinha um meio-sorriso como que deliciando aquele momento, como se tivesse esperado ansiosamente por aquele reencontro. “Pelo contrário, Eddie McCulling! O mundo é grande, quem deu a vocês a idéia de botar os pés justo na minha cidade?”
Ed desvencilhou-se e com um dos joelhos afastou Gabriel de si. Com um riso malévolo, provocou: “Está tentando compensar a morte daquela cadelinha chinesa defendendo uma vadiazinha brasileira como essa? Quer ser a madre Tereza dos vampiros, Youth?”
A reação de Gabriel foi parar e não esboçar nenhuma resposta, mesmo sentindo a fúria crescer dentro de si, percebeu um milésimo antes que a menina entendera cada palavra dita por Edmonton, e reagiu com ódio e vergonha de si mesma, por ter se deixado enganar tão facilmente pelos belos olhos cor de prata do moço inglês. O resultado da reação foi delicioso de ver, pelo menos para Gabriel: Evangelina velozmente atacou Edmonton com um soco no alto de sua cabeça, que o desequilibrou e o fez quicar na areia molhada da praia como um joão-bobo. Ao levantar, foi golpeado com uma seqüência de socos e chutes que o arremessaram em cima de uma guarita de salva-vidas, pouco mais adiante, espatifando-a completamente.
“Respeita, filho duma...! Acha que preciso de homem pra me defender de gayzinho feito você?”, vociferou ela. Evangelina não sabia se era a cabeça quente, ou as lágrimas que faziam seus olhos arderem, mas não caíam de jeito nenhum de seus olhos, mas sentiu uma estranha e pesada atmosfera cobrir a praia. Ao longe, divisou um homem de tez escura aproximar-se, vestindo uma calça branca de moleton, daquelas usadas pelos capoeiristas, e um tururi azul com o símbolo e as cores da Marujada de Guerra do boi Caprichoso. Sua respiração ficava mais ofegante conforme sentia o ar pesar em torno dela. Ouviu a voz sonora e grave dele a falar, ao vê-la: “Égua, 'mermão', essa é a cachorra que tu conseguiu, man? Tu é leso, Edmonton, trouxe Evangelina até a gente!?”
Evangelina sentiu apertar com força os punhos fechados, os seus dentes rilhavam, estava frente a frente com Boi da Estrela, e os outros comparsas já estavam se aproximando, como se atendessem a um comando invisível. Sentiu o toque firme da mão de Gabriel Youth em seu ombro, olhou para seu lado direito e viu a estranha faísca nos olhos profundamente negros dele. “E eu pensando que a maior emoção da noite ia ser um joguinho chato do Figueira na tevê...” murmurou ele, com um sorriso aparentemente deliciado com a situação periclitante que os envolvia. Virou para ela e comentou sarcasticamente: “Os teus amigos e os meus juntos. Não é divertidamente irônico?” Evangelina balançou a cabeça negativamente, com uma sensação muito estranha de que o parasita era completamente louco. Com um sorriso selvagem que conseguiu assustá-la, Gabriel completou: “Fica esperta, que o forró já vai começar!”
Ayrton Mortimer
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1907174
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