Texto

Do Bosque em Névoa

Sentei-me de costas para o bosque. Minha madrasta havia me batido e eu não queria voltar para casa. Dizendo assim, parece que eu sou criança, mas até onde contei, estou com dezesseis. Meu pai não olhava para mim. Eu era parecida demais com minha mãe e, por isso, ele me repugnava. Por tê-la amado demais e a perdido para a morte.
Eu morava num lugar muito pobre. Ficava perto do castelo, mas tudo o que podíamos fazer era olhar para as altas torres de mármore e jardins escuros. Diziam que aquela monstruosidade de luxo era amaldiçoada. Não, eu jamais acreditei. Maldição era ser pobre e solitária, isso sim.
A noite estava silenciosa. Eu sentia o cheiro da sopa fervendo no fogo, fumegando pela chaminé, lá em casa. Dane-se, que a comam inteira! Não voltaria nem que morresse!
Enxuguei as lágrimas dos olhos, por tanto desejar ainda ter minha mãe perto de mim. Aquela mulher, aquela madrasta, era egoísta e fria. Seu coração só podia ser de gelo.
Ouvi passos nas folhas secas, mas não olhei. O bosque tinha muitos animais noturnos, sendo que a maioria eram daninhas, morcegos e corujas. Poucos poderiam ser perigosos e, na verdade, a companhia de um animalzinho seria agradável. Não me sentiria tão sozinha.
Naquele momento, me lembrei de Addoulf, um garoto que costumava cuidar de mim quando eu era pequena. Seus olhos castanhos e os cabelos mel refulgindo ao fogo da vela me saciava de uma sensação confortável, cálida. Mamãe sempre o recompensava com comida, pois era tudo que podíamos prover. Ele, nada tinha.
Quando completei dez anos e ele dezoito, Addoulf desapareceu. Não encontraram corpo. Mamãe morreu em seguida e, por sinal, também não foi encontrada. Os dois foram dados como mortos, mas eu podia sentir o cheiro de hortaliças que Addoulf emanava quase todas as noites que me ocultava no bosque em busca de proteção, de liberdade.
Os passos se aproximaram e eu me virei, ainda abraçada aos joelhos.
— Não tenha medo, bichinho. – eu disse para a escuridão. – Pode se aproximar.
Estendi a mão para que o animalzinho a cheirasse. Estava acostumada a acariciar os seres do bosque, e alguns deles já me conheciam por oferecer castanhas.
Dessa vez, porém, senti minha mão sendo tocada por outra humana, gélida e ressecada. Num surto de pavor, a puxei de volta para perto do corpo e travei os dentes.
— Q-quem está aí? – perguntei, a voz falhando.
A resposta me acertou como uma flecha. Aquele som suave e rouco que eu conhecia bem ao me contar histórias:
— Você sabe quem.
— Addoulf? – perguntei, hesitando. – Não, não pode ser! Você morreu.
Não houve argumentos. Eu podia ver uma forma humana, pálida, borrada pela névoa da noite.
— Você é um fantasma? Se é, vá embora!
— Não. Não sou um fantasma, e nem vou embora.
— O que você quer? – gritei, sentindo o suor frio escorrendo pelo rosto.
A forma se mexeu e saiu de minha vista. Virei de um lado para o outro e então, um bafo congelante sussurrou perto de minha nuca:
— Quero você, Diadora.
Tentei cobrir o rosto com os braços, mas Addoulf levantou meu corpo e me carregou até uma carruagem. No outro segundo, eu havia desmaiado.


Abri os olhos, zonza. Estava num quarto todo detalhado com ouro e tecidos finos, deitada numa cama de seda roxa. Tentei me levantar mas, ao ver outro rosto conhecido, me joguei de volta no colchão e puxei as cobertas mofadas até a cabeça, tremendo.
Era mamãe. Os olhos tinham um aspecto pálido, sem brilho. A boca estava rachada e, abaixo das pálpebras, um tom arroxeado dava-lhe um aspecto macabro.
— Filha. – ela chamou. Eu não ousei responder. – Diadora, ouça.
Quatro mãos começaram a acariciar meus braços e corpo por cima das cobertas. Fazia tanto tempo que ninguém me tocava! Mesmo aquela carne gélida era deliciosamente acolhedora. Depois, a voz que ressoou no quarto foi de Addoulf:
— Não tenha medo, Diadora. Não dói nada.
Mamãe completou:
— A queremos de nosso lado. Só vamos fazer o que você quiser.
— E o que é? – perguntei, a voz abafada pelo medo.
— É bom, Diadora. – argumentou Addoulf. – Você vai viver para sempre conosco. Nunca mais vai passar fome, nem frio, nem medo.
Frio, medo e fome. Era exatamente o que eu sentia agora. As carícias começou a ser doloridas, as mãos me apertavam.
— Decida, Diadora! – disse mamãe. – Decida!
Que opção eu tinha? Eu sabia o que eles eram, eu sabia meu destino. E, pensando bem, até queria. Como se tivessem me ouvido, as mãos retiraram com suavidade as cobertas de meu corpo. Agora, só estava Addoulf. Ele se sentara ao meu lado e começou a acariciar meus cabelos. Aproximou-se. Seu nariz roçou em meu pescoço gentilmente. E agora, eu queria. Queria mesmo.
— Confie em mim, Diadora. – disse ele.
Sim, eu confiava com todo meu coração.
Seus dentes também roçaram meu pescoço e, num instante, achei que tudo já estivesse acontecendo, até que seus caninos pontiagudos perfuraram-me a carne com um rasgo.
Doía tanto que meu corpo parecia estar em chamas, sendo consumido de dentro para fora.
Ouvi o sugar na boca de Addoulf e o líquido quente escorria até o travesseiro. Não havia volta. O frio dividia-se ao calor intenso, às chamas da morte. E o escuro sugava-me o ar como se estivesse me afogando num lago cujas águas eram feitas de espinhos. Cerrei os olhos. Aos poucos, a sensação foi se tornando boa, como se estivesse sendo abraçada a uma pessoa exageradamente amada. Era como se eu tivesse finalmente encontrado meu lar e, agora, adentrava às portas para a felicidade.
Quando abri meus olhos novamente, Addoulf estava deitado ao meu lado. Dormia e ressonava.
Levantei e os detalhes reluzentes do ouro na luz bruxuleante das velas me encantava. Olhei para meu próprio corpo. Estava vestida com aquela roupa de camponesa, mas ao invés dos braços bronzeados pelo sol do verão que passara, minha pele era branca, com veias azuladas transparecendo pela camada fina e ressecada que agora cobria meu corpo.
Abri o guarda-roupa que chegava quase até o teto, encontrando centenas de vestidos que caberiam perfeitamente em meu corpo. Já que jamais usara um daqueles, procurei um preto, com muitos detalhes. Sem que eu visse, mamãe me observava. Só a notei quando falou comigo:
— Era meu, Diadora. O vestido.
Eu sorri. Senti que os caninos mal cabiam em minha boca, mas não tinha problema. O importante é que agora eu vivia num lugar feliz, seria amada por Addoulf, que até o momento fora meu único amigo, e por mamãe. Usar o vestido dela só me provava que seríamos uma família unida.
Meu estômago roncou.
— É melhor ir comer, Diadora. Nos primeiros dias, vai se alimentar como um leão.
— Sangue, você diz? É com isso que meu corpo vai se manter, não é?
Os olhos brancos agora expressavam algum desprezo. Talvez eu tivesse falado bobagem, mas ela acenou positivamente.
— E como eu consigo? Não quero atacar ninguém. O povo do vilarejo... - expliquei, sendo interrompida por mamãe.
— Tem alguém que você não gosta? O sangue desses é ainda melhor.
Se eu pensasse isso há algumas horas, teria me odiado. Mas tudo parecia ser tão comum! Agora, beber sangue humano seria comum. Matar para viver seria comum. Ora, eu já fazia isso antes. Quantas galinhas não degolei? A única diferença é que, agora, minha presa teria nome, no entanto, a dor que sentiria não seria diferente. Que mal haveria? Estava na chuva para me molhar.
— Bestrala, minha madrasta. - eu respondi. - A odeio.
Mamãe sorriu, satisfeita.
— Sabe onde ela mora, o que está esperando?
— Não quero machucar papai. Como vou evitar isso?
Mamãe me pôs para fora, impaciente. A bruma da noite ainda não se dissipara e, mesmo assim, eu não sentia frio. Olhei de volta para o castelo. Ser vampira e viver com mamãe e Addoulf seria maravilhoso.
Não precisei de cavalos ou carruagens. Caminhar no bosque era sempre uma aventura. Vi que mamãe me acompanhava, ao longe. Não a esperei e me dirigi direto ao casebre onde Bestrala morava com papai. Queria fazer isso sozinha.
Respirei fundo antes de arrombar a porta. A primeira vez, tenho certeza, é sempre a mais difícil.
Porém, encostando meu ouvido para ver se eles dormiam, a porta rangiu e abriu. Estava aberta. Papai parecia não ter ouvido eu entrando, e o vi chorando apoiado nas mãos, sentado à mesa. E ouvi seus pensamentos.
Diadora... Pelo amor de Deus, Diadora...
Será que ele sentia mesmo a minha falta? Não era possível... Papai evitava sempre olhar para mim.
O vento outonal transpassou meu corpo vindo do bosque e atingiu os cabelos de papai. Ele levantou os olhos e, só então, me viu. Sorriu e, no instante seguinte, seu rosto tingiu-se de pavor.
— Não! Não é Andora! Querida! Não você! Não você!
— Papai! Sou eu, Diadora! Não é a mamãe!
Ele empalideceu.
— Diadora... Deus do céu! O que foi lhe acontecer?!
Seus gritos acordaram Bestrala. Ela saiu do quarto com uma expressão de temor. Eu devia estar horrível! Agora me arrependia. Porém, não podia perder a oportunidade de matar aquela mulher má. Saltei para cima dela como um lobo e estanquei meus dentes na carne macia, sentindo seu sangue quente jorrando das artérias, vermelho e doce em meus lábios, deslizando pela minha língua, saciando-me a sede e a fome. Ouvi papai gritando e seus braços fortes tentando me retirar de cima da bruxa. Eu estava presa a ela o quanto quisesse. Não havia modos de me tirar de lá. Ninguém ia impedir!
Mamãe chutou a porta e entrou.
— Andora! - papai guinchou. - Andora, você também! Ah não! Não!
Soltei o corpo agonizante e me virei para vê-la. Mamãe tinha ódio nos olhos brancos, mantendo o cenho franzido.
— Você me trocou por outra, Humbert!
Papai tentou se desculpar:
— Você tinha morrido, Andora! Você tinha morrido! Eu precisava de alguém para cuidar de Diadora!
Mamãe riu, irônica:
— Seu “alguém” cuidou muito bem dela!
Tomando força na voz e semicerrando os olhos, papai gritou em defesa:
— E você não cuidou melhor! Transformou a menina num ser abominável!
Senti um peso no estômago. Não era o sangue de Bestrala que eu havia bebido e que agora tingia um círculo completo em volta de sua nuca, escorrendo pelas quinas da madeira. Era o “ser abominável”. Era isso que eu era. Foi nisso que aceitei me tornar. Um ser abominável que mata para viver.
No outro instante, mamãe saltara em cima de papai. Mas ele não tinha culpa! Ele não devia morrer!
A puxei antes que seus dentes lhe acertassem o pescoço e senti meu corpo sendo jogado longe, batendo as costas na parede.
— Isso é entre eu e seu pai, Diadora! - esbaforou.
— Não! Por favor! - pedi, implorando. A puxei novamente. - Papai só casou com ela depois que você morreu!
— Saia, Diadora. Sua vida não vale muito! Se protege este traidor, então deve morrer também!
Não deixei que suas palavras me afetassem. Se mamãe era capaz de matá-lo, então não era boa como eu esperava.
Quando segurei seu corpo entre meus braços, ela mordeu-me no ombro, arrancando uma parcela grande de carne. Endureci de dor. Achei que não mais sentiria isso, porém ardia tanto quanto ter o sangue sugado. Gritei sem soltar seu corpo que se contorcia.
Nesse momento, mais alguém chutou a porta e entrou. Era Addoulf. Ele trazia consigo uma estaca de prata suas mãos derretiam nas partes que a tocava. Mas seu olhar era furioso, penetrante, decidido.
Mamãe soltou-se de meus braços e se aproximou de Addoulf com passos pesados.
— Muito bem, menino. Mate Diadora, ela não presta! Vamos, menino! Assim vou lhe dar o que comer! Agora, vamos!
— Não! Mamãe, não! - implorei. - Me deixe viver!
Addoulf urrou. Depois, ouvi um grito de dor e desespero que perfurou meus ouvidos. Era tão agudo, tão alto, que achei que ia morrer. Addoulf transpassara o coração de mamãe com a estaca e agora pendia quase morto em cima dela. A prata queimara-lhe os braços e seu corpo se desfazia em cinzas. Não, não Addoulf. Ele me salvara!
Suas últimas palavras antes de se tornar um monstro negro, queimado e sem vida, foram:
— Isso não era para ter acontecido! Me perdoe, Diadora!
Addoulf e mamãe agora eram apenas cinzas... Nada restava das anatomias pálidas e desfalecidas que há pouco me convenceram a ser uma assassina sem destino.
Por anos procurei os iguais a mim. Decerto ao menos um existe, ou mamãe e Addoulf não teriam virado... Bem, virado o que eles são. Mas nada. Não encontrei um sequer. Por tantos, tantos anos, tantas mortes eu causei. E por isso, nunca deixei que uma de minhas presas se tornasse o que eu sou agora, pois eu estaria transformando o mundo num local escuro e mórbido. Sugo-lhes o sangue até nada sobrar e, dessa forma, eles nunca mais se levantam.
Tenho certeza que, algum dia, uma boa alma vai matar esse corpo triste que ocupo. Pesquisei em inúmeros livros sobre vampiros que retiram a própria vida por não mais suportar viver com a morte, mas não existe um sequer. Não tenha esperanças, eu não serei a primeira a tentar.
E se você está lendo isso, só há uma coisa que lhe devo avisar. Agora não mais distingo homem de mulher, negro de branco e pobre de rico. Então, se você estiver sozinho num bosque à noite, é bom levar junto uma estaca.
Marina Avila
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1907473

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Comentários
06/11/2009 18h08 - Carlos Gouvêa
Lindo conto! O natural de sua mente percorre com sutileza o sobrenatural desses momentos de terror. Eu não quero ser a proxima vítima! Abraços
06/11/2009 17h26 - Lourenço de Oliveira
Bem vinda ao Recanto, Marina!
06/11/2009 10h25 - Anna Ysabel
muito bom seu conto! Prende a atenção do leitor até o final!Seja bem vinda ao Recanto das Letras! Abraços afetuosos

Sobre a autora
Marina Avila
São Caetano do Sul/SP - Brasil, 20 anos
2 textos (146 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 04:24)

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