Criatura Das Trevas - Parte III
Eram mais de duas horas da madrugada quando Arlindo acordou para ir ao banheiro. Levantou-se sem acender a luz, para não acordar a mulher. Pensava também se dava ou não descarga, para não acordá-la. Dona Aurora ficava uma fera quando alguém interrompia seu sono.
Fez seu xixi e baixou vagarosamente a tampa do vaso. Não deu descarga. Melhor uma pequena porquice do que uma briga com a mulher naquele horário. Lavou as mãos e, distraído, olhou pela janela do banheiro. Deu de cara com uma cena insólita.
Era aquela chata da Dona Elvira. Mas por que a mulher resolvera varrer a rua àquela hora da madrugada?
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Eram três horas da madrugada. A chamada Hora Negra, em oposição às três da tarde, hora da morte de Jesus Cristo. A hora em que os espíritos malignos se espalhavam pelo mundo.
Desta vez, o cão não parou enquanto atravessava a rua. Desceu as escadas que levavam a viela de baixo e parou por um momento em frente ao portão da casa de Dona Wilma. Olhou, farejou o ar, depois seguiu em frente, até o portão de Dona Elvira. Com um salto espetacular, deixou para trás o portão. Caiu sobre as quatro patas sem fazer sequer um ruído. Apoiando-se nas patas traseiras, empurrou a maçaneta da porta de entrada para baixo. A porta abriu-se lentamente.
Sem se importar com a escuridão, o cão dirigiu-se até o quarto de Rafael. Mais uma vez, levantou-se nas patas traseiras, apoiando as dianteiras na lateral do berço. Por alguns instantes, ficou parado, como que observando o menino, que acordou suavemente.
Ao invés de chorar, o menino abriu-se num enorme sorriso de alegria ao ver o cão. Sem nenhuma intervenção visível, a lateral do berço abriu-se e, com uma desenvoltura absolutamente incompatível para sua idade, Rafael montou às costas do cão.
Juntos, o menino e o cão foram até a cozinha. A um olhar de Rafael, todos os botões do fogão giraram. O gás do botijão começou a espalhar-se pela casa.
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Dona Elvira acordou ao sentir o forte cheiro de gás. Amaldiçoou-se mil vezes. Não poderia ter dormido, não naquela noite.
Dirigiu-se o mais rápido que pode até a cozinha, para ver a causa daquele cheiro de gás. Deu de cara com o menino, montado sobre o cachorro.
Dona Elvira caiu de joelhos.
- Não, espere! Por favor! Eu te servi bem, tomei conta do menino como se fosse meu.
Recebeu como resposta apenas um silencio sepulcral.
Dona Elvira sentia-se tonta por causa do gás. Caída ao chão, ia aos poucos perdendo a consciência. Aquele era seu pagamento pelos serviços prestados: estava realmente rejuvenescendo e voltando a ser bela. Mas o acordo não dizia por quanto tempo este encantamento deveria durar. Nem que ela voltaria realmente a ter todo o esplendor de sua beleza. Nem que deveria terminar viva. E muito menos que sua alma seria bem recebida no Inferno.
O cão passou por cima de Dona Elvira e devolveu Rafael ao berço. Olharam-se nos olhos, como que se despedindo. O cão então saiu correndo. Ao passar pela porta de entrada, esta fechou-se atrás dele, sem fazer barulho.
Sentado em seu berço, Rafael apresentava-se impassível. Seu rostinho estava completamente desprovido de emoções. Levantando uma das mãos, fez mais uma proeza impossível para alguém de sua idade: estalou os dedos. E uma faísca surgiu...
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Dona Wilma despertou do pesadelo que a atormentava e o cheiro de gás comprovou seu temor: aquilo era real. Haviam furado seu bloqueio. Agora era tarde demais.
Elevou seus pensamentos em oração e entregou sua alma aos seus orixás. Lembrou-se com carinho de Helena e de Edmilson, um menino que ela havia treinado para ser seu substituto no trato das coisas espirituais. Pediu que eles tivessem forças, porque iriam passar por grandes provações.
Sentia-se pronta, partia feliz. Ajudara a muitos durante sua vida, o que mais alguém poderia querer, mais do que terminar a vida sabendo que ela teve sentido e significado.
Mais uma vez, seu simpático sorriso brotou em seus lábios.
E veio o enorme clarão.
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Ela desceu as escadas como sempre: com medo. Mas desta vez, seu medo havia mudado. Helena não sentia mais uma cisma de criança, influenciada pela avó, com medo da vizinha que praticava uma religião que ela não entendia. Ela ainda era criança, mas o medo era real. Era um medo diferente, mais intenso. Ela não sabia porque, mas parecia que estava sem proteção, indefesa. Era como se tivesse perdido seu anjo da guarda.
Chegou até o limite dos escombros das casas destruídas na explosão.Era um milagre que Rafael houvesse sobrevivido daquela forma, completamente ileso. O bombeiro que o resgatou foi fotografado, saindo dos escombros do que antes eram quatro pequenas casas, chorando aos prantos. A foto se espalhara nos noticiários e um casal muito rico, muito influente e poderoso se interessara por adotar Rafael. Dona Luíza explicara a Helena que a avó tinha apenas a guarda provisória do menino, o que significava que o casal podia, sim, querer ficar com o pequeno Rafa. E, pensando bem, ele teria um futuro muito melhor com eles. Donos de um grande império financeiro, a nova família de Rafael tinha redes de televisão, rádio, jornais. Seu Jaime falara que o homem também era muito poderoso no ramo do direito, tinha um escritório de advocacia muito famoso. Diziam que às vezes o Presidente da República se aconselhava com ele. Quem sabe o Rafinha não virava presidente quando crescesse?
Helena não tinha certeza de nada, só aquele medo inexplicável que não passava. Sentia falta da avó, sentia falta de Dona Wilma, por quem começara a sentir tanto carinho, já estava sentindo falta de Rafael.
Voltou-se para subir as escadas. Os pais a esperavam lá em cima, no carro. Insensível a tudo, a vida continuava.
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Edson Tomaz
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1908285
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