O EXORCISMO DE SUCUBUS
Sou jornalista há mais de dez anos. Licenciei-me aos 24 anos na universidade do porto, em jornalismo e ciências da comunicação, e desde sempre trabalhei como «free lancer», colaborando com vários jornais e revistas nacionais.
Dinâmico e com gosto um gosto infindável pela aventura, assim me caracterizo. Contudo, quando me anunciaram o fecho da redacção do “Diário Popular”, soube, por inerência, que o meu despedimento seria inevitável, e isso deixou-me um pouco perdido e desapoiado.
Repentinamente vejo-me desempregado e sem actividade, o que tornou o meu dia-a-dia num grande aborrecimento.
Mas como nunca fui pessoa de me entregar ao derrotismo característico do nosso povo lusitano, comecei logo a procurar emprego, consultando os classificados de todos os jornais, percorrendo sites na Internet. Também comparecia no centro de emprego, três vezes por semana, rotina que disciplinei a mim mesmo. Coloquei vários anúncios na net e jornais da região, mas o telefone teimava em não tocar. Os e-mail`s nunca traziam nada de novo. Pouco a pouco, comecei a sentir-me frustrado, e dei por mim a ter sintomas preocupantes de depressão nervosa.
Ao fim de dois meses de expectativa e ansiedade, o meu telemóvel tocou. Eram sensivelmente 9 horas da manhã.
- Estou? – Atendi com a voz ainda embargada pelo sono.
- Estou sim, fala da Diocese de Lisboa. Foi o senhor que colocou um anúncio a oferecer serviços de jornalismo? – Era uma voz grave. Parecia ser uma pessoa já com uma idade considerável.
- Sim, fui eu.
- A sua oferta ainda se mantém, meu caro senhor?
- Sim, mantém-se...
- Então gostaríamos de agendar uma entrevista consigo. Compareça na igreja do Santo António, na Sé, amanhã pelas 10 horas. A entrevista é com o padre Manuel Montemor. Não se esqueça de trazer o seu curriculum vitae, por favor
- Com certeza. Estarei na igreja às 10 horas. – Respondi.
Desligaram.
Coloca-se um anúncio a oferecer trabalho como jornalista e ligam-nos de uma igreja, a agendar um entrevista com um padre...
A vida tem destas coisas!
Os tempos que corriam não eram fáceis. Embora eu fosse solteiro e vivesse num T2 alugado, precisava de arranjar trabalho urgentemente, uma vez que as despesas se estavam a acumular e o subsídio de Desemprego não dava nem para o tabaco. Portanto, eu não estava numa situação em que pudesse seleccionar, ou até mesmo recusar, qualquer tipo de oferta de emprego.
Segundo o relógio da torre da igreja, eram exactamente 9 e 45 da manhã quando lá cheguei. A porta estava aberta e decidi entrar.
Logo que transpus a entrada, fui abordado por um homem que aparentava ter uns sessenta anos. Trajava um fato civil.
- Bom dia - cumprimentou-me.
- Bom dia. Tenho uma entrevista marcada com o padre Manuel Montemor - respondi.
- Com certeza. Aguarde um pouco, que o senhor padre vai já recebê-lo. Trouxe o seu curriculum? – Inquiriu o funcionário simpaticamente.
Dei-lhe o curriculum para a mão e ele voltou para dentro. Aguardei apenas 10 minutos até o funcionário voltar a vir ter comigo.
- O senhor padre vai recebê-lo agora, queira acompanhar-me, por favor.
Percorri um pequeno corredor, que me conduziu até uma sala pequena e um pouco húmida. O padre Montemor esperava-me sentado frente a uma secretária. O funcionário trancou a porta quando saiu.
O mobiliário, embora fosse de modelo clássico, era obsoleto e descuidado. As estantes guardavam alguns livros que aparentavam ser bastante antigos, e o recinto exalava um cheiro desconfortável a mofo.
Assim que me viu, o padre levantou-se para me cumprimentar, e fez-me sinal para me sentar em frente a ele. Era um homem bastante alto e robusto, como um atleta. Não devia de ter mais de 40 anos. Contudo, tinha um rosto bastante consumido.
Apercebi-me que ele ficou a examinar cuidadosamente o meu curriculum.
- Já percebi que você tem muita experiência no ramo jornalístico. – Redarguiu ele, olhando vagamente para mim.
- Sim. Já colaborei com alguns jornais. Tenho muita experiência de cobertura de reportagens no “terreno” também.
- Eu chamei-o porque precisamos da colaboração de um jornalista experiente para fazer uma reportagem para a igreja...Está interessado?
- Bem, sim... – Respondi balbuciante.
Sentia-me confuso. Contudo, o padre Montemor mostrou-se satisfeito com o meu curriculum e também com a minha experiência profissional, mas nunca me focou o “propósito” da reportagem. Esse assunto parecia que estava envolto num segredo misterioso, que ele só revelaria quando entendesse que fosse o momento certo.
Obviamente, mostrei-me interessado. Não era o que eu mais ambicionava fazer (uma reportagem do foro eclesiástico), mas servia para me manter em actividade e isso era muito importante para mim.
Uma semana mais tarde, voltei a ser contactado pelo padre Montemor, que me falou com grande cordialidade, mostrando-se também agradado em me ouvir. Todavia, insisti para que ele me revelasse definitivamente, que tipo de reportagem pretendia, pois já me estava a nausear tanto silêncio em redor de algo que ele, mais cedo ou mais tarde teria de me desvendar.
- Tenho uma tarefa especial para si. È assim como uma missão secreta... – A voz dele tornou-se quase inaudível.
- Sim, senhor padre. Pode confiar em mim. – Reforcei.
- Bem, quero que me acompanhe num...exorcismo!
- Num exorcismo, senhor padre? – Perguntei incrédulo. - Mas isso é possível?
- Claro que é possível! E é por isso mesmo que eu quero que você testemunhe. Você vai ter oportunidade de transmitir ao mundo algo que nunca ninguém viu. Um exorcismo relatado por um jornalista independente e com o seu curriculum terá toda a credibilidade junto da opinião pública, entende?
Estava explicado o porquê da diocese procurar a colaboração de um jornalista experiente. Contudo não me senti minimamente defraudado com a proposta, antes pelo contrário. O exorcismo ia-se realizar na segunda-feira de manhã, na residência do “possesso”, que ficava no Seixal, uma localidade da margem sul do Tejo.
Eu já tinha ouvido contar histórias estranhas sobre casos de possessão demoníaca, mas sempre achei que as ditas entidades do inferno são pura fantasia. São histórias de gente alucinada ou supersticiosa.
As ditas aparições ou possessões demoníacas são meras manifestações físicas, cuja racionalidade nem sempre consegue explicar. Óbvio que me sentia curioso para efectuar a dita reportagem que me foi requisitada, mas acontecesse o que acontecesse, nada ia mudar o meu pensamento acerca deste tema.
Decidi pesquisar um pouco mais sobre este tema oculto. Não era que eu achasse que estava perante um embuste, até porque o padre Montemor não era, de todo, pessoa para isso. Mas resolvi documentar-me devidamente, antes de acompanhar algo tão delicado como um exorcismo.
Fiquei a saber que existira um caso bastante mediático nos anos setenta, relacionado com este assunto - Anneliese M. Emily Rose. Uma jovem alemã de família católica, que começou a manifestar fortes sintomas “paranormais” e comportamentos estranhos, que mais tarde seriam atribuídos a uma possessão Demoníaca.
Em 1976, a diocese local autorizou o exorcismo, que fora um fracasso. No entanto foi a própria jovem que decidiu não voltar a ser exorcizada, atribuindo essa decisão a uma aparição da Virgem Maria, que lhe oferecera a libertação, deixando livre a opção do martírio, caso ela desejasse. Anneliese faleceu com 23 anos por falência múltipla dos órgãos, após 10 anos de sofrimento. Os seus pais foram indiciados por homicídio involuntário e omissão de socorro.
E os dois padres exorcistas (Ernst Alt e Arnold Renz) foram também condenados sob as mesmas acusações.
Este caso serviu de inspiração a filmes como “ Exorcismo de Emily Rose” e “Requiem”.
Há também relatos sobre uma mulher em Itália que foi atormentada por pavorosos estados de angústia e longos períodos de insónia total. Durante um longo período foi tratada por métodos modernos de medicina e psiquiatria. Posteriormente, deram-lhe alta, considerando-a como um caso inexplicável. Mais tarde, um grupo de exorcistas reconhecidos, comprovou a sua possessão e fez-lhe um exorcismo que durou três longas horas.
A esse exorcismo assistiram vários sacerdotes, bem como um psiquiatra francês, o Dr. M.G. Mouret, que deixou o seu testemunho escrito depois do que viu: «No caso presente, não se trata de qualquer tipo de esquizofrenia nem de histeria, mas sim do controle da pessoa por parte de uma força exterior, que a igreja católica apelida de possessão. O único alivio desta mulher vem dos sacerdotes que se compadecem com o seu estado, lhe ministram os sacramentos e lhe recitam o exorcismo. Os fenómenos por mim observados levam-me irrefutavelmente a afirmar tratar-se de possessão autêntica».
Depois de pesquisar atentamente sobre este fenómeno, percebi que afinal havia matéria factual para uma grande reportagem. Esperava ansioso pela Segunda-feira de manhã.
Ainda no domingo liguei ao padre Montemor, por volta das 15 horas. Pedi-lhe que me recebesse para combinarmos melhor os detalhes da reportagem que eu ia realizar no dia seguinte. Havia alguns pormenores que me estavam a escapar, e precisava de alguns esclarecimentos da parte dele. O padre Montemor, como sempre, mostrou-se bastante afável e disponível para atender às minhas questões.
Então sugeriu que comparecesse na igreja nesse mesmo dia, por volta das 18 horas.
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Encontrei-me com o padre Montemor no interior da biblioteca da Igreja.
Eu estava deslumbrado com aquela figura. Era um homem que transmitia uma grande confiança. Alguém com quem nos sentimos muito bem, uma pessoa extraordinária e com um grande humanismo. A minha carreira como jornalista tinha-me dado a oportunidade de conhecer e conversar com grandes individualidades, desde políticos de carisma mundial como Xanana Gusmão, a músicos excêntricos como Ozzy Osbourne, mas o padre Montemor emanava uma aura de fascínio sobrenatural, bem como uma sabedoria fora do comum, que me levava a admirá-lo com um elevado respeito.
Como homem sábio que era, escutou em silêncio e com profunda atenção todas as minhas dúvidas e questões, antes de me elucidar sobre este tema tão controverso.
- Este assunto nada tem a ver com ficção literária ou cinema. A possessão demoníaca existe. – Assegurou. - É um tema demasiado sério e a igreja persiste em negar a existência do demónio. Mas repare, no antigo testamento, a palavra «Satã» aparece citada 18 vezes, e no Novo testamento, a palavra «diabo» surge 35 vezes! Não podemos esquecer que o próprio Jesus realizou vários exorcismos. João Paulo II executou alguns também; três deles, reconhecidos.
- Fale-me deste caso em concreto, padre Montemor. – Insisti.
- O possuído é um rapaz de 16 anos.
- Um rapaz? – Inquiri com alguma estupefacção.
- Exacto. Chama-se Duarte, e aos catorze anos começou a sofrer de insónias. Passou a ouvir vozes estranhas. A mãe, preocupada, levou-o ao médico e o diagnóstico deste foi que o miúdo tinha apanhado uma inflamação nos rins e na bexiga, e que isso lhe atacara o sistema nervoso. Mais tarde, as insónias agravaram-se e o rapaz passou a ter vários espasmos e alucinações preocupantes. Começaram também a aparecer estranhas equimoses nos seus braços e nas pernas.
- E o que disseram os médicos dessa vez?
- Disseram tudo, mas não fizeram nada que o ajudasse. Desde arrancarem-lhe os dentes por pensarem ser a causa dos problemas, a darem-lhe injecções e electro-choques. O pobre Duarte, apenas com 16 anos, já viveu um grande Calvário. A mãe dele, a Dª Cândida, é viúva, sofre de vários problemas de saúde e é uma pessoa com poucos recursos, mas tem um espírito do tamanho do mundo, e uma fé. Uma fé...enorme!
- Uma fé que a guiou até si, não é verdade?
- É verdade!
- Que Demónio é este, que se apodera do corpo de um jovem?
- Neste caso, é uma «Demónia» – Assegurou Montemor por entre um breve sorriso.
- Explique lá isso, senhor padre.
- O demónio é o «Incubus». Um demónio que muda de sexo.
- Não pode ser... – interrompi.
- É um demónio complexo e muito inteligente. Quando muda de sexo, torna-se na demónia «Súcubus». Incubus agia antes como Súcubus, ou seja, desempenhando o papel de «mulher», e o sémen recolhido no seu contacto com o homem, servia-lhe então para fecundar as suas vítimas como «Incubus».
Durante muito tempo acreditou-se que eram demónios diferentes, mas agora sabe-se que se trata do mesmo demónio que assume sexos diferentes.
- E foi essa demónia que possuiu o corpo do jovem Duarte?... – Perguntei em jeito de confissão.
- Exacto. Duarte é um jovem com uma beleza fora do vulgar, e a mãe crê que esta possessão tem origem num feitiço perpetrado por uma jovem a quem ele recusou o seu amor.
- Isso é possível? – Perguntei, estupefacto.
- Se o feitiço for bem executado, sim, é possível. Todavia, Súcubus fugiu do inferno e encontrou em Duarte tudo o que um «demónio» procura quando se apodera do corpo de alguém.
- O quê, padre Montemor?
- Beleza e Pureza. Embora Duarte seja muito popular entre as raparigas da escola, é um jovem profundamente católico e segundo a sua mãe...era virgem!
Não consegui dormir na noite anterior ao exorcismo. Como era possível haver tanta matéria sobre um assunto que, aparentemente, me parecia tão sobrenatural e tão vago?
Já tinha escrito 20 páginas sobre o assunto. E cada vez que as lia e relia, mais me certificava de que estava perante um trabalho primoroso. Eu estava a elaborar a “reportagem do ano”. Iria envia-la para uma grande revista nacional. Ia ser um “bomba”.
O padre Montemor tinha depositado toda a sua confiança no meu profissionalismo. Disse-me que não era nenhum “artista”, nem sequer procurava protagonismo. Aliás, proibiu-me de citar o nome de todos os intervenientes e o dele principalmente. Afirmou que ia realizar o exorcismo com autorização expressa do Vaticano, sob o direito canónico (cf. Cic, can.1172).
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As ruas do Seixal são tortas e revestidas a macadame.
O padre Montemor estacionou o carro em contra-mão e disse-me que a casa distava apenas alguns metros dali.
Quando sai do carro, fitei uma tabuleta que dizia, “Rua dos pescadores”.
O prédio situava -se no âmago dessa rua estreita. Apercebi – me de que a nossa presença chamara a atenção da vizinhança, que surgiu nas janelas, benzendo-se, como se estivesse a passar uma procissão. Deduzi que toda a gente tinha conhecimento do que se passava com o Duarte. A minha ansiedade aumentava à medida que me aproximava do prédio com o lote 7.
A porta foi-nos aberta mesmo antes do padre Montemor bater. Uma jovem, que aparentava não ter mais de doze anos, foi quem nos recebeu.
- Entre, senhor padre – Sussurrou ela, deitando-nos um olhar acanhado por entre os seus cabelos castanhos.
Entrei e aguardei que o padre me guiasse até ao quarto onde estava o Duarte.
Subi umas escadas que finalizaram em frente a uma porta, que estava trancada com correntes e vários cadeados. A sua parte superior exibia uma enorme fenda.
Subitamente, dei pela presença da mãe do Duarte mesmo atrás de mim.
- O Duarte está a dormir, senhor padre. Está muito cansado, passou a noite cheio de insónias. Sabe, “ela” não o deixa descansar – Afirmou a mãe com um ar misterioso.
«O que se passa aqui nesta casa?» – Interroguei-me.
- Espero que esteja preparado para o que vai ver – Avisou o padre Montemor, enquanto destrancava os cadeados. Notei que a garota se tinha entrincheirado atrás do maple, assim que escutou o descerrar das correntes.
Do interior do quarto despontou o horror pavoroso de algo que nunca imaginei ver em toda a minha vida.
Deitado no centro de uma cama estava um jovem loiro que dormia pesadamente. Tinha os olhos revirados, onde se notavam apenas as pupilas brancas, que faziam lembrar os olhos de um veado morto.
O seu rosto, outrora belo, estava completamente desfigurado. A sua boca revirada estava manchada com sangue seco. Dos seus braços franzinos ressaltavam artérias inchadas e escuras, como se estivessem prestes a explodir.
Duarte não devia pesar mais de 30 quilos!
O seu sono, aparentemente profundo, fora quebrado pela nossa presença.
Senti-me devorado pelo olhar temível que ele me lançou. Não era o Duarte que me fitava, mas o que estava dentro dele. Eu não estava preparado para aquilo.
O padre Montemor avançou destemidamente pelo quarto dentro, na sua figura imponente, embutido na sua sotaina negra que lhe abonava um ar invulnerável. Instalou uma pequena mesinha, onde colocou um pequeno vaso com água benta, um terço, um crucifixo com uns 20 centímetros, o hissope e por fim, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Fazia lembrar um guerreiro a preparar as armas antes de combater o inimigo.
O exorcista brandiu o crucifixo e, num gesto repentino, colocou-o sobre o peito do jovem, aspergindo-o com a água benta. Duarte (ou a demónia que o possuía) pontapeou o crucifixo com tal violência que acabou por ir bater na parede. A Dª Cândida, apanhou-o do chão e colocou-o no mesmo local onde estava.
Montemor estendeu a mão direita sobre o crucifixo, baixou a cabeça e sussurrou várias preces que não consegui perceber.
Súcubus bufava e roncava dentro do corpo de Duarte.
- «Hic Est Dies» (1) – Proferiu o exorcista.
- Não! - Um ronco grave saíra da garganta de Duarte. A voz que se escutava era feminina, mas profundamente desumana.
- «Exi nunc, Súcubus» (2)
- Não – Repetiu “ele”, sorrindo. Depois cuspiu para cima do sacerdote.
- «Exi nunc Súcubus». – Insistiu o exorcista, imperturbável.
Os seus olhos acenderam-se na escuridão do quarto. Não procuraram por nada nem por ninguém. Fixaram algo que eu não consegui perceber o que era. Seguidamente o corpo de Duarte deu o solavanco e vomitou na minha direcção.
O padre Montemor adoptou uma postura mais firme.
- Demónio Súcubus, eu, sacerdote representante de Cristo, ordeno-te, em nome da santa cruz do preciosíssimo sangue e das cinco chagas. Ordeno-te então, Súcubus que abandones esse corpo e regresses para o inferno imediatamente. – Gritou o padre numa voz estridente, mas controlada.
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(1) Este é o dia
(2) Sai Súcubus
Ali estava eu, atónito, a assistir a algo que achava apenas ser possível em filmes “made in Hollywood” adornados com efeitos especiais e muita caracterização. Não podia haver teatralidade nenhuma naquilo. E mesmo que eu quisesse imaginar que tal fosse possível, as minhas dúvidas extinguiam-se depois do que vi a seguir.
Súcubus ergueu-se e afastou-se da cama, elevando no ar o corpo frágil de Duarte.
– Não é possível – Deixei escapar.
Súcubus elevou-se e desenhou um arco com o seu corpo, permanecendo imóvel durante algum tempo, nessa posição.
Depois soltou um grito agudo que nos ensurdeceu a todos. Senti o odor da sua boca fedorenta levitar até às minhas narinas.
- ABANDONA ESSE CORPO IMEDIATAMENTE! – Tornou Montemor. – PORQUE NÃO QUERES SAIR?
- Quero ser testemunha. – Grunhiu.
- Testemunha do quê?
- De que Satanás existe!
A criatura iniciou uma sequência de convulsões violentas sem parar, levando de rojo o corpo de Duarte, que já devia estar prestes a sucumbir a tanta violência.
Montemor, sempre incansável, insistiu com as ordens de expulsão do corpo daquele jovem inocente.
- Sai Súcubus. Eu te ordeno, em nome de Cristo. A condenação eterna está à tua espera. Não há salvação para ti.
Um rugido estranho e profundo foi “expectorado” da garganta de Duarte.
Não dei pelo tempo passar, mas já ali estávamos há horas naquele tormento infernal, que parecia infindável. Inesperadamente, apercebi-me que a demónia tinha começado a ceder às exigências do padre Montemor. E não demorou muito até “ela” dar os primeiros ares de cansaço, demonstrando alguma debilidade dentro do corpo do jovem.
- Aproxima-te e beija o Cristo crucificado. – Ordenou Montemor. – Aproxima-te!
Moribundo, Duarte sentou-se na cama e aproximou-se da cruz. Tinha os olhos negros e da sua boca escapava-se uma espuma branca e nojenta.
Por fim, ele beijou o crucifixo.
Montemor fê-lo levantar-se e beijar também a imagem de Nª Senhora de Fátima.
- Repete sete vezes, “lesus, Lux mundi” – Decretou o Exorcista, que também já dava ares de profundo desgaste.
O possesso repetiu tudo vagarosamente.
- Volta para o inferno, Súcubus. VOLTA PARA O INFERNO!
Dª Cândida levantou-se e gritou na direcção de Súcubus, numa tentativa de ajudar Montemor.
-Em nome da Santíssima Trindade, ordenamos-te que voltes para o inferno!
Eu tremia por todos os lados. Temia que a expulsão não se realizasse naquele momento, quando percebi pouco depois que estava enganado. O demónio já não habitava mais ali. Duarte fixou-nos com os seus olhos tristes e sem expressão, num misto de curiosidade e dor.
O pesadelo vivo tinha acabado.
Durante um momento não consegui mexer um músculo, nem respirar sequer. Tentei tirar alguns apontamentos, mas as minhas mãos tremiam tanto que acabei por desistir. O quarto ainda tinha o fedor da demónia.
Montemor abandonou o aposento logo a seguir. Ostentava um ar exausto e quebrado. Tinha travado uma luta titânica de horas e horas. Um verdadeiro duelo do «bem» contra o «mal».
Contemplei o Duarte. Agora sim, era o Duarte. Sorriu para a mãe, que correu feliz na sua direcção para o abraçar.
- Meu filho, como estás? – Indagou ela, entre lágrimas
- Estou muito cansado, mãe – redarguiu ele muito combalido. Parecia um bebé.
- Dói-te a garganta, Duarte?
- Não, mãe. Não dói. – A voz dele era suave.
Não Consegui associar aquela voz, à que gritara estridentemente, momentos antes.
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Não voltei a ver o padre Montemor desde então. Depois daquele embate sobre-humano contra uma «demónia» dos infernos, seria perfeitamente natural que ele se tivesse “retirado” para recuperar forças.
A minha peça jornalística estava quase pronta e a revista “visão” já tinha demonstrado interesse em publicá-la. Para além da «pipa de massa» que eu ia auferir com esta reportagem, com certeza, a sua publicação e conseguinte divulgação, ia trazer-me uma grande notoriedade a nível nacional. Não havia de faltar muito até voltar a ter emprego num grande e prestigiado jornal.
No entanto enviei a “peça” a um amigo e colega de profissão de longa data – o Vidal, que era correspondente no “El Mundo” em Espanha. Desde há muito que partilhávamos as reportagens que efectuávamos, com o objectivo de elaborarmos um trabalho de revisão e correcção mútuo. Era uma parceria que resultava muito bem, confesso.
Uma semana depois, recebi um telefonema dele, congratulando-me pelo trabalho realizado. No entanto alertou-me para um situação comprometedora que me deixou meio atarantado. Vidal desvendara que o padre Montemor tinha vivido em Espanha durante alguns anos, e que nesse período tivera uma vida bastante conturbada, tendo-se envolvido em algumas situações insólitas.
O motivo pelo qual ele tinha emigrado para lá, não era conhecido, mas nos primeiros anos em que viveu naquele país, levou uma vida calma, bastante dedicada à teologia, dedicando-se depois ao estudo do exorcismo e demonología.
Escreveu (e publicou), inclusive um livro sob o pseudónimo de «José António Fortea», com o título – “Demoniacum”. Contudo, foi mais tarde acusado de plágio por outro padre, que manteve sempre o anonimato.
Um ano depois viu-se envolvido num escândalo sexual, em que os pais de um garoto de 14 anos o denunciaram por ter violado o filho durante um exorcismo. Nada disto foi provado em tribunal, sendo o padre Montemor declarado inocente.
Todas estas declarações reveladas pelo meu amigo Vidal levaram-me a procurar o Padre Montemor. Queria confrontá-lo com as informações que me tinham sido dadas. Não poderia publicar o meu trabalho sem ter a certeza de que estava a lidar com uma pessoa idónea, sob todos os aspectos.
Quando cheguei à Igreja de Stº António, esta encontrava-se fechada. Facto que estranhei bastante.
Havia um comunicado colado na porta, onde se lia, «Por motivos de doença grave do padre Montemor a igreja vai estar fechada por tempo indeterminado.»
Torci o nariz aquilo tudo.
A história da “doença” não me estava a convencer, além disso, Montemor não aparentava ser pessoa que fosse “ao tapete” por estar apenas doente – não! Havia algo de esquisito naquele desaparecimento, e estava relacionado com o seu passado, de certeza absoluta.
Decidi encetar com uma investigação rigorosa para tirar a limpo todos os mistérios que envolviam o padre Montemor.
Comecei logo por ir espreitar o interior da igreja. Tinha que ir lá, desse por desse. Fui cauteloso, pois ninguém me podia ver a concretizar um assalto a uma igreja “encerrada”.
Dei a volta ao edifício e descortinei uma pequena janela que se elevava a uns 5 metros de altura. Trepei pela parede, agarrado às suas saliências e alcancei a referida janela com relativa facilidade. Seguidamente, arrombei-a e emborquei para dentro da igreja. Espere um pouco para tentar perceber se ninguém me tinha escutado a entrar.
Um estranho gemido irrompeu do fundo do corredor. Eram duas vozes misturadas num uníssono rude e profundamente gutural.
Aproximei-me com cautela. A berraria vinha do interior de um aposento recôndito. Continuei a aproximar-me. Estava agora a poucos metros de desvendar o mistério que se mantinha por trás da porta. Volvi a maçaneta e fiquei assombrado com o que vi.
O padre Montemor estava completamente nu, e gesticulava avidamente, numa posse lasciva, num clima de completa loucura.
-Súcubus! Meu grande e eterno amor. Finalmente me tens! Agora tens o meu corpo só para ti. Sou a tua dádiva. Possui-me para sempre, porque durante toda a vida te procurei, meu amor! – Berrava ele, dialogando com uma outra voz estranha, mas que me era familiar – Súcubus!
FIM
Alexandre Cthulhu
Publicado no Recanto das Letras em 21/12/2006
Código do texto: T324463
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