Texto

NO BARREIRO





A visão do vale domina toda a paisagem.

De um lado, o paredão escarpado com mais de 200 metros de altura da Canastra, rocha pura, com nuances que desde o nascer até o por do sol variam do cor de rosa ao verde musgo, do azul escuro ao cinza. Com um pouco mais de atenção e imaginação, pode-se perceber claramente, gravada na encosta, a figura de um homem de rosto comprido, nariz adunco, orelhas pontudas, olhos fixos em algum ponto do vale: lá está ele, o “Homem da Serra”, como todos o conhecem, eternamente curioso e meditabundo. Seu nome, como veremos, não condiz com a realidade...

Do outro lado, a Serra da Babilônia, esta sim uma serra ortodoxa, tão alta quanto a Canastra, mas que sobe suavemente por vãos e desvãos, com cicatrizes brancas em meio ao verde mais claro, estradinhas que levam ao seu chapadão, rico de belezas exuberantes como o da Canastra, uma capelinha aqui, uma bela pousada ali, um exemplo de Alterosa.

O vale é cortado pelo Rio São Francisco, o “Velho Chico”, que logo após nascer no alto da Canastra, já corre afoito, apressado, depois de despencar em cachoeira pelo paredão, na esplêndida Casca D’Anta.

Nas fraldas da Babilônia fica encravado um lugarejo, São Francisco do Barreiro, com uma igrejinha em seu ponto mais alto, ruas de terra, um campo de futebol idem, uma escola primária, um postinho de saúde, alguns armazéns e botecos e casas de família. Arquitetura variada e incerta, onde se mesclam casarões cheios de janelas altas e portas que dão para a rua, casas menores, simples mas bem cuidadas, e outras mais econômicas, de blocos aparentes, telhas de amianto e janelas metálicas, todas com terreiros nos fundos.

Nestes, planta-se e cria-se de um tudo! Horta, mandioca, mangueira, maracujá, milho, café... Galinha, porco, vaca leiteira, cachorro... E crianças, muitas crianças, descalças, roupinhas surradas, mas limpas quando saem de casa depois do banho de tardezinha; porque durante o dia, é um brincar só, é uma terra só! Sobem no pau-de-sebo, andam de bicicleta fazendo barulho de moto, subindo e descendo em desabalada carreira por ladeiras perigosas, jogam futebol naquele campo de terra, brincam de pega-pega e esconde-esconde, jogam bolinhas de gude...

Como definir seus moradores? Nada mais fácil: são Mineiros! Com M maiúsculo, sim, como eram seus pais, avós e bisavós. Mineiros lavradores, faiscadores, criadores de vaquinhas cruzadas e de porcos, fabricantes de queijo “da Canastra”, catireiros – a catira é ali uma tradição, a mais antiga forma de comércio, a troca de uma mercadoria por outra, o escambo – , artistas de mil habilidades, como o artesanato, a música, a dança, Mineiros espertos que se fazem de bobos, desconfiados, políticos e conspiradores, come-quietos, enfim, Mineiros. Mineiros e religiosos, muito religiosos! Com uma distinção: quase todos os homens chamam-se Francisco, tradicional homenagem ao Santo que dá nome ao velho rio.

Pois não é que um desses Franciscos que ali nasceu e ali mora, o Francisco José, deu para mandar à merda toda aquela tradição, recato e religiosidade?

Foi assim:

O Francisco José sempre, desde pequenininho, foi chamado assim mesmo: Francisco José. Sua mãe nunca permitiu que ele fosse mais um Chico naquela vila. Onde já se viu? A gente dá um nome tão bonito pro filho, homenagem a dois Santos da Igreja, e querem chamar o infeliz de Chico? De jeito nenhum...

Cresceu ali mesmo no Barreiro, fazendo tudo aquilo que as crianças de lá fazem até hoje. Infância livre, despreocupada, cheia de artes, sempre com a religião presente, rezando ao levantar e ao dormir, aulas de catecismo, missa aos domingos. Nada de acidentes sérios – só a fratura de um braço quando pulava uma cerca, fugindo do dono de uma mangueira carregada que ele não agüentou a tentação (seria uma predestinação?) –, nada de ser assaltado ou seqüestrado, nada de violência – só quebrou o nariz de um menino que não quis lhe emprestar a bicicleta novinha, toda bonita, molejo de primeira, farol empinado (uma imagem lúbrica?) –, enfim, uma infância comum.

Morava com os pais lavradores, Seu Chiquinho e Dona Clara, e o irmão mais novo, José Maria (três Franciscos na mesma família já seria demais, né?), em uma daquelas casinhas mais simples, que tinha um terreiro que era uma bagunça só: o “galinheiro” era um abacateiro mais frondoso e as galinhas viviam ciscando com seus pintinhos pela vizinhança e pelas ruas do Barreiro. Aliás, os galos do lugar não se respeitavam de jeito nenhum; era uma suruba geral! Qualquer folguinha, um entrava nos domínios do outro e traçavam quantas galinhas agüentassem! E o Francisco José crescia observando tudo, remoendo religião e sacanagem...

Começou a ajudar os pais na roça “de a meia”, saindo cedinho de casa e voltando só depois das 4 da tarde. Nessa altura, já com uns 12 anos, começou a sentir uns calores estranhos, uma vontade de não sei o que; e engraçado é que só acontecia quando via alguma menina ou moça mais brejeira passar por ele. Sábado e domingo, então, era um sofrimento: ia nadar no rio, perto da ponte, onde as meninas ficavam mais à vontade longe dos olhos dos pais. Logo percebeu que o que sentia era desejo, muito desejo de sexo! No começo, quando não agüentava mais, corria para detrás de uma moita na beira do rio e ali mesmo, olhando as meninas de longe, começava aquela briga covarde de cinco contra um! Satisfeito, voltava a nadar com os companheiros por mais algum tempo, só para dali a pouco correr de novo até a moita. Num daqueles domingos, contou oito escapadas!

Passou a só pensar naquilo, virou um quase tarado. Tinha que experimentar uma menina de verdade. Até que num sábado, a Martinha, menina mais espertinha, viu o Francisco José correr outra vez para a moita e, curiosa, foi atrás. Agora, ele já podia se satisfazer à vontade. Toda hora arrumavam uma desculpa e iam se encontrar, no terreiro, atrás da igreja, na roça de milho, em qualquer lugar. Não deu outra: totalmente descuidados e desinformados, só pensando no prazer, logo a Martinha engravidou!

Nem havia amor, era só sexo e paixão. Mas, mesmo assim, não teve outro jeito: para se evitar o escândalo, Francisco José foi obrigado a se casar com a Martinha! Foram morar com os pais dele. Ela, cada dia mais barriguda; ele, cada dia mais tarado; não só por ela, mas por qualquer uma com quem topasse!

Alguns anos, outros tantos filhos e dezenas de cercas puladas depois, aconteceu uma novidade: seu irmão, o José Maria, que ao contrário do Francisco José era todo certinho, responsável, trabalhador, namorou, noivou e se casou com a Maria Rita. Na altura do casamento, José Maria já tinha comprado um terreninho, onde construiu uma casinha, simples como a do pai, com um terreirinho nos fundos e uma varandinha na frente; lá foram morar os dois pombinhos, um arrulho só, um amor sem tamanho!

Aos domingos, missa na igrejinha e almoço na casa do Seu Chiquinho e de Dona Clara. No início, Maria Rita, toda envergonhada e cerimoniosa, corava intensamente quando os sogros ou os cunhados lhe dirigiam a palavra. Não se sentia à vontade, era quase um martírio. Começou até a comentar com o José Maria: Ô bem, vamos almoçar hoje no Bar do Rafael? Eu queria tanto comer um franguinho só com você! Mas o marido levava a sério o compromisso de domingo com os pais e fazia questão de cumprí-lo. A família tem que se manter unida, sempre! E lá iam os dois, a Maria Rita conformada e o José Maria todo orgulhoso ao lado de sua mulher.

O Francisco José, que como sempre só pensava naquilo, começou a reparar na cunhada: não era bonita de rosto, tinha os traços duros de uma cabocla trabalhadeira, acostumada ao dia-a-dia embaixo do sol escaldante da serra, plantando, capinando, colhendo. Mas, mesmo por isto, era forte, toda durinha, seios empinados, bunda firme e do tamanho certo, pernas grossas e generosamente à mostra naqueles vestidinhos mais curtos. E a lambança começou!!!

Num daqueles almoços de domingo, Maria Rita estava especialmente provocante aos olhos do Francisco José. Apesar de tentar disfarçar seu interesse, ela começou a perceber algo de diferente nos olhares do cunhado, que também não era de se jogar fora.

Antes do almoço, foram lavar as mãos na pia do banheiro. Maria Rita entrou antes, fez chichi, lavou as mãos e, quando foi saindo, topou com o Francisco José que esperava para entrar. Mas o corredor que dava para a porta do banheiro era muito estreito, mal cabia uma só pessoa; então, a moça se espremeu à parede, tentando passar para a sala, mas o contato com o cunhado foi inevitável: o traseiro dela roçou no Francisco José, que não fez nenhuma força para se esgueirar; pelo contrário, dificultando sua passagem, conseguiu fazê-la sentir intensamente em sua bunda um volume grande e firme. Ela quase desmaiou, mas disfarçou e se sentou à mesa. Ele, por sua vez, demorou mais tempo no banheiro que de costume, aliviando-se como costumava fazer naquela moita quando era criança! Que delícia! Como ela é durinha e firme!, pensava, enquanto se descascava... Mais calmo, foi para a sala e sentou-se em frente à Maria Rita, vermelha como um pimentão. Os outros não perceberam nada, entretidos que estavam se servindo da salada de alface, do pão de queijo e da carne de panela.

À noite, já em casa, Maria Rita ficou cismando... Mesmo quando foi deitar e o José Maria começou a tocá-la, a beijá-la e a penetrá-la, seu pensamento estava longe, fixado naquela coisa dura que a roçara no corredor do banheiro. Enquanto fumava um cigarro, o marido perguntou o que estava acontecendo. “Nada não, bem, é só cansaço... Desculpa, tá?”.

A semana foi passando e Maria Rita só pensava em chegar logo o domingo para ir almoçar na casa dos sogros e, quem sabe, sentir de novo aquela coisa. Ou até algo mais...

O Francisco José, então, só tinha espaço na cabeça para aquela bunda durinha! Não pensava em mais nada, cansou de levar bronca do pai porque o seu serviço não rendia; a Martinha começou a reparar sua falta de interesse na cama e a freqüência com que ele ia ao banheiro e se demorava... Quando voltava da roça, resolveu mudar o caminho e, em vez de passar pelo Bar do Rafael pra tomar um trago com os amigos, deu um jeito de passar em frente à casa do irmão, só pra ver se se encontrava com a cunhada... Finalmente, na 6ª feira de tardezinha, viu a Maria Rita na varandinha da casa: tinha acabado de sair do banho, o vestido de algodão estampado em um tom amarelo coladinho no corpo cheio de curvas, os cabelos ainda molhados, escorridos sobre os ombros nus. Seus olhares se cruzaram, numa troca intensa de desejos inconfessáveis, mas não se falaram, porque não precisavam palavras naquele momento mágico; depois de alguns segundos, Francisco José saiu correndo pra sua casa, com as mãos na virilha...

No domingo de manhã, o José Maria falou pra Maria Rita: “Sabe, você tem razão. Eu também estou com vontade de comer o franguinho do Rafael. Vamos almoçar lá hoje. Depois eu dou uma desculpa pros velhos.” Maria Rita sentiu as pernas ficarem bambas; seus olhos não disfarçavam a decepção; mas se não concordasse, podia dar na vista seu súbito interesse pelo almoço dos sogros...

Mas, já na 2ª feira de tardezinha, lá estava ela na varandinha, de banho tomado, esperando o Francisco José passar. Outra vez aqueles olhares, outra vez a paixão aflorando e rompendo tudo! Francisco José tomou coragem e perguntou: “Uai, vocês não foram almoçar ontem? Aconteceu alguma coisa?” “Não, não... O José Maria quis ir ao Rafael.” Tinham muita coisa para dizer agora, mas não disseram mais nada. No ar, só ficou o desejo...

Assim passou mais uma semana. Todo fim de tarde aquela troca de olhares, nada falado, tudo dito.

Esta história poderia muito bem terminar aqui, um amor platônico que duraria a vida inteira dos dois, um amor como tantos outros que devem existir naquele lugarejo, reprimidos, conformados, ocultos no fundo dos corações apaixonados. Amores amordaçados, castrados, sofridos, tudo em nome da religiosidade, da tradição e dos bons costumes, regras gravadas nas mentes e corações de gente tão simples... Mas o capeta não se conformou e foi à luta, resolvido a colocar o Barreiro de cabeça pra baixo e pernas (bem abertas) pra cima! E foi costurando sua teia de ocasiões e oportunidades que acabassem por enredar aqueles dois potenciais pecadores.

Domingo de novo... Desta vez, almoço na casa do Seu Chico e Dona Clara... Maria Rita, toda arrumada e perfumada... Francisco José, espada em riste, esperando na saída do banheiro... Outra vez aquele esbarrão, um pouco mais demorado e intenso, um sussurro: “Eu te quero!” “Eu também!”... À mesa, Maria Rita sente o pé do Francisco José roçar no seu... Na despedida, um beijinho na bochecha do cunhado.

E a coisa foi crescendo, a teia sendo tecida cuidadosamente pelo demo... Até que um dia, o José Maria teve que ir a São Roque para comprar uma peça para o trator. Saiu cedo do Barreiro, prometendo a Maria Rita que voltaria no ônibus de tardezinha. Logo que ele saiu, ela pensou em avisar o cunhado. Mas como? O Francisco José já estava na roça, era longe, iam perceber. Frustrada, rendeu-se à decepção, retomando sua rotina em casa.

Por volta do meio-dia, um menino bateu à sua porta, trazendo um recado do Bar do Rafael: o José Maria tinha telefonado (o único telefone do Barreiro ficava lá), avisando que não tinha encontrado a peça do trator e estava indo para Piumhi; ia ter de dormir lá! Maria Rita estremeceu (e o tinhoso esfregou as mãos). Não é possível! Só pode ser o destino! De tardezinha o Francisco José passa por aqui, ponho ele pra dentro sem que ninguém veja e vamos matar nossa vontade!

Ela passou a tarde ansiosa, caprichou no banho, ensaboando e perfumando cada cantinho de seu corpo, já quase sentindo o prazer que desfrutaria! Foi para a varandinha e ficou esperando. Não demorou muito e lá estavam os dois amantes na cama, dando vazão aos seus desejos. Impossível descrever o que fizeram! Mas vocês podem imaginar, não é? Não, acho que não podem!

O capeta assistia a tudo com os olhos injetados, num tezão só! Tanto que, não satisfeito em só assistir, resolveu participar da farra! Primeiro, se incorporou no Francisco José, que passou a agir como um alucinado: tanto penetrou a coitada da Maria Rita, pela frente, por trás, de toda forma, que ela acabou desmaiando! Francisco José, tarado como sempre foi, independentemente de estar tomado pelo diabo ou não, continuava ali, querendo mais e mais... Vendo que a Maria Rita não voltava a si, o diabo, também querendo mais, resolveu se incorporar nela: num instante ela já estava sentada no colo do amante, suplicando por mais prazer, por mais dor, por mais gozo! O capeta, sabidamente bi-sexual, se revezava nos corpos dos dois, se esbaldando! E a orgia demoníaca durou a noite toda...

Quando surgiram os primeiros raios do sol, iluminando a imponente serra, o cão se esgueirou para fora da casa. Foi aí que ele viu o Clarão! Parecia um rio caudaloso, feito de uma Luz intensa, vindo em sua direção. O Clarão o atingiu em cheio e foi levando-o para trás e para cima, numa velocidade fantástica, seguindo rumo à serra! E num estrondo, fixou a imagem do inominável no paredão, para de lá nunca mais sair!

Os dois amantes acordaram com o barulhão. Não se lembravam de nada! O que faziam ali, na mesma cama? Que vergonha, meu Deus! Vá embora, Francisco José, nunca mais olhe pra mim!

Maria Rita engravidou. Deu à luz um menino franzino, rosto comprido, nariz adunco, orelhas meio pontudas... Não se parecia nem um pouco com o José Maria (e, cá entre nós, nem com o seu tio!), mas era o filho deles, não era? Que nome vamos dar? Nada de Francisco, ou de José! Aqui, todo mundo tem esses nomes! Quero um nome diferente: MEFISTÓFOLES! Que é isto, Maria Rita? Onde você já ouviu este nome? Ah, foi numa revista... Era o nome de um filme... Achei tão diferente!!! E o Barreiro ganhou mais um taradinho!

Alguns anos depois, Mefisto (o apelido pegou...) pulava a janela do quarto em que estava com sua cunhada e, de repente, ouviu um estrondo e sentiu como uma brasa lhe queimando o peito! Morto pelo irmão? São Francisco! Santa Clara! Protegei-nos! O diabo está solto!!!

Thelemos
12/2003
Thelemos
Publicado no Recanto das Letras em 02/07/2008
Código do texto: T1062408

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Thelemos
Campinas/SP - Brasil, 58 anos, Escritor Amador
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