Motel Gaveta
Mais do que um simples café, o “Fransnático”, proporciona momentos inesperados de: frustração, emoção, alienação, devoção, patifarias e mais um sem número de acontecimentos, que invariavelmente estacionam nas camadas frias da estratosfera. Mais do que um simples café, o “Fransnático”, equilibra desequilibrando, desequilibra equilibrando, soterra teorias cientificamente comprovadas, eleva hipóteses hipocritamente condenadas, enfim, é um antro e ao mesmo tempo um paraíso aberto e oculto.
Nada é impossível, desde que seja possível, ou então, sendo impossível, se faça possível pelas circunstâncias que o reprova e, dentro desta reprovação, uma afirmação é constante, a aprovação.
Aparentemente é confuso entender este local. Chegou-se até a conclusão que a magia negra prendeu os “Fransnáticos” a este lugar. Pessoalmente, não acredito nessa teoria, mas fica aqui o registro.
Nem magia negra, nem ficção, apenas a constatação do surgimento de mais um novo mercado de negócios, que fora colocado em discussão por um dos membros do grupo. Claro que, para se chegar a tal assunto, uma verdadeira bateria de outros assuntos passaram pelo crivo dos presentes. A tendência para estes debates é que terminem tudo em “pizza”, às vezes fatiada e com pimenta desidratada e, obviamente, óleo de oliva. Soma-se a esses finais gastronômicos, o arroz e o feijão na madrugada, na “zona do lixo”. Nem por isso é descartada a possibilidade de surgir algum assunto que afine a maioria dos componentes deste grupo.
Muitas gargalhadas: uma com tom de aprovação, outra com menor entendimento e uma que parecia não entender absolutamente nada daquele assunto tratado na mesa sete.
Já era comum este tipo de comportamento, mas por se tratar de um assunto onde o entendimento se fazia necessário para compreender o sucesso do empreendimento, a narradora do negócio, vendo em mim um maior interesse pelo assunto, convidou-me a conhecer junto a ela, a mais nova sensação entre os executivos da Avenida Paulista.
Três dias depois...
Nos encontramos na “Alameda Santos”, por volta das treze horas. Uma garoa acompanhada de um vento frio queimava minha face. Como o estabelecimento, se assim podemos chamá-lo, se encontrava a poucos quarteirões do local do encontro, resolvemos fazer o percurso a pé.
A mulher que me convidou para conhecer a tal novidade era uma loira muito atraente. Seus olhos ficavam atentos, enquanto outros olhos falavam por ela, num sincronismo perfeito com os seus ouvidos, que como os seus olhos, ficavam atentos ao discurso. Quando falava, suas mãos completavam com perfeição os seus pensamentos, aliás, sempre coesos e seqüenciais. Suas mãos tagarelas me faziam lembrar de assuntos napolitanos, não os assuntos da máfia dessa região da Itália, nem das massas, mas do gesto. Era uma mulher completa aquela loira com mãos napolitanas, corpo e mente tão bem sincronizados.
Se me perguntassem se aceitei o convite pela curiosidade ou pela mulher que me acompanharia até esta curiosidade, garanto-lhes que a resposta seria esta: fora para despertar a curiosidade, mas nunca se esquecendo da companhia que aquela mulher maravilhosa me faria.
Caminhamos lentamente pela “Alameda Santos”, mesmo porque não nos conhecíamos tão bem e o local ao qual iríamos, incitados pela nossa curiosidade, requeria ao menos maiores apresentações, assim, fomos conversando pelo caminho. Até aquele momento, eu não sabia nada a respeito daquela mulher loira de mãos napolitanas, e, é certo que ela também nada sabia a meu respeito.
Mesmo andando, a loira gesticulava as suas mãos calabresas e me disse que era dentista, embora não mais exercesse a profissão, visto que, administrava a sua empresa de planos odontológicos. A descoberta não fora ocasional, pois durante o percurso o assunto tratado fora apenas dentes: hábitos alimentares, condenados com veemência pelo indicador da mão direita; higienização, aclamada com o mesmo dedo, embora com as duas mãos; a conscientização e a mídia odontológica reservou aos dez dedos das duas mãos um balé flamenco fascinante, ora utilizando os cinco dedos da mão direita, ora os cinco dedos da mão esquerda. Às vezes, a empolgação era tamanha que, os dez dedos se erguiam para o céu, talvez pedindo a um deus que a ajudasse nas preces. Quando discursou a respeito dos planos odontológicos, parecia que estes estavam no caminho correto, pois as duas mãos tiveram um merecido descanso nesse tema. Enfim, dentes, dentes e mais dentes, logicamente com as devidas explicações manuais, que tão bem completavam a palestra.
Ex-dentista com mãos napolitanas
É aqui!
Tratava-se de um edifício comercial como tantos que existem por aí. A fachada toda em vidro azul e como todos os outros arranha-céus, um andar sobreposto ao outro.
Eu
Vamos entrar?
O nosso objetivo até aquele momento era conhecermos o estabelecimento, porém, ao chegarmos próximo ao edifício, um clima – entramos, não entramos – se apoderou de nós.
Ex-dentista com mãos napolitanas
Vamos!
Ao entrarmos no edifício, um porteiro interrompeu os nossos passos, até ali indecisos. Vacilamos, inicialmente, mas com toda a coragem que nunca tive, perguntei-lhe: o senhor poderia nos informar onde fica o Motel Gaveta?
Nosso estado emocional já não era dos melhores e aquele porteiro ajudava consideravelmente a piorá-lo. Suas sobrancelhas grossas e enfiadas nos olhos; a boca coberta por um bigode escovão; e, aquele queixo pequeno, nos davam a impressão que ele reprovava tudo e todos que perguntassem por aquele local.
Porteiro de bigode escovão
É só seguir aquele corredor à direita, que vocês encontrarão a recepcionista.
Não era apenas a aparência que delatava a sua má vontade em dar explicações sobre o referido estabelecimento. A sua voz grave e rude completava os seus propósitos.
A princípio, não entendemos qual a referência usada pelo porteiro com bigode escovão e voz de trovão, para nos indicar o caminho: era à nossa direita ou a dele? Não queríamos mais ouvir aquela voz contestadora e reprovadora, então, seguimos o nosso instinto tomando como referência a nossa direita. Erramos!
Porteiro de bigode escovão
É do outro lado.
Abaixamos nossas cabeças num processo que caracterizava a nossa mais profunda culpa e, seguimos o caminho contrário, esperando encontrar melhor recepção no próximo ponto de parada.
O corredor se fazia frio como a morte – refiro-me à temperatura que o corpo atinge quando o coração pára de pulsar –, e, também aqui, não me refiro à temperatura ambiente, mas devido ao silêncio que aquele corredor transmitia. Eram momentos de calafrio nas nossas espinhas.
Na etapa seguinte deparamos com uma recepcionista que tinha características plenas para ser vendedora de planos funerários. Seu sorriso nos convidava a uma visita ao céu, e, como boa vendedora que parecia ser, nem seria necessário tal visita, pois devido ao seu sorriso afirmativo e consistente, o céu por ela vendido deveria ser de ótima qualidade, com pleno conforto e segurança para se ter como moradia.
Recepcionista com sorriso de vendedora de planos funerários
Bom dia! meus queridos...
Eu e a ex-dentista com mãos napolitanas
Boa tarde!
Cumprimentei-a apenas por educação, afinal, os meus pais assim me ensinaram. Jamais comprarei estes planos infernais que nos prometem o céu e nos entregam uma cova com poucos centímetros de profundidade.
Recepcionista com sorriso de vendedora de planos funerários
Vocês vieram conhecer o Motel Gaveta?
Nesse instante, a certeza se confirmou, ou seja, tratava-se realmente de uma vendedora de planos funerários. Quase dei às costas e fui embora. A fisionomia da ex-dentista com mãos napolitanas parecia ter a mesma intenção. Porém, interessados na nova descoberta, relevamos a segundo plano as pessoas que tinham nos recepcionado até aquele momento.
A moça com sorriso de vendedora de planos funerários continuava a sorrir, talvez esperando de nós uma resposta afirmativa, que assim nos conduziria, ou melhor, nos venderia o passaporte para o céu ou quem sabe até para o inferno.
Dizem os grandes consultores em venda, que um dos principais segredos de toda a venda está na primeira impressão mostrada ao cliente. Nesse caso, se fossemos fechar o negócio, ou melhor, se fossemos levados pela primeira e segunda impressões, sairíamos dali correndo e iríamos comer hambúrguer com batata frita e refrigerante numa das inúmeras lanchonetes da “Avenida Paulista”, com exceção, é claro, daquele estabelecimento americano que tem lanchonetes em todo o globo terrestre, pois não acredito que aquele hambúrguer seja hambúrguer e que aquela batata frita seja batata frita. Somente o refrigerante tem características de refrigerante. A mim, o hambúrguer e a batata-frita da lanchonete em questão – não cito o nome por questões de ética –, parecem feitos de isopor.
A nossa finalidade era conhecer o Motel Gaveta e não comermos hambúrguer com batata frita, sendo assim, fomos logo ao assunto, embora não tão logo assim.
Eu e a ex-dentista com mãos napolitanas
Primeiramente, nós gostaríamos de conhecer o sistema, seria possível?
Recepcionista com sorriso de vendedora de planos funerários
Perfeitamente!!!!!!
Aliás, tudo parecia possível àquele sorriso.
Ela ligou para um determinado ramal, que, diga-se de passagem, demorou a atender. Logo que a ligação completou, apareceu outra moça sorridente, porém o seu sorriso era mais agressivo, nem por isso indócil, destas que encontramos nas liquidações das lojas de roupas e tecidos.
Atendente com sorriso de vendedora de liquidações de roupas e tecidos
Vocês querem conhecer o nosso show-room?
Perfeita esta idéia do show-room, pois se não o tivessem, muitos iriam pagar pelo serviço e não o utilizariam. Dessa maneira evitariam transtornos com clientes insatisfeitos. É sempre bom estar legalmente em ordem para evitarmos quaisquer complicações com os direitos do consumidor.
Ex-dentista com mãos napolitanas
Nós gostaríamos de conhecer o show-room e, se nos identificarmos com o serviço, ficaremos para desfrutá-lo.
Até este momento pensara que as segundas intenções faziam parte apenas da minha cabeça desvirtuada, mas, as considerações da ex-dentista com mãos napolitanas fez-me ver o seguinte: as segundas intenções também faziam parte da sua cabeça, que até aquele momento, me fizeram pensar apenas em dentes.
Atendente com sorriso de vendedora de liquidações de roupas e tecidos
Acompanhem-me, por favor.
Entramos, os três no elevador, que mesmo tendo dimensões confortáveis para doze passageiros, sempre será um elevador, o que a mim causa sempre fobia. Porém, não poderia demonstrar este medo diante de duas mulheres. Encostei a costa no espelho, que cobria todo o fundo do elevador, para que eu não pudesse me ver. A moça com sorriso de vendedora de liquidações de roupas e tecidos apertou o botão que nos levaria até o quinto andar. O elevador moderno e potente fez um pequeno solavanco ao sair, o que me fez “gelar a barriga”, mas sem maiores ou menores problemas seguiu a sua rotina habitual e nos conduziu até o andar referido.
Para não ficar enfadonho aos leitores, utilizarei o seguinte: a moça dos sorrisos de liquidação, mesmo que isso demonstre um certo desdém a essa maneira de acabar com os saldos e os retalhos.
Mesmo demorando apenas quarenta e sete segundos desde a minha entrada, foi com muita satisfação que tirei os pés deste veículo das alturas. Após sairmos os três do veículo celestial, ou infernal, a moça dos sorrisos de liquidação nos conduziu até a sala 53. O ar condicionado do hall do andar parecia-me com defeito e constatei este meu parecer quando a moça dos sorrisos de liquidação abriu a porta da sala 53. A temperatura ambiente estava em torno dos 22 graus, bem diferente da temperatura do hall do andar, que estava por volta dos 30 graus. Na temperatura da sala 53, o meu corpo se sentiu magnificamente confortável. Pude notar na ex-dentista com mãos napolitanas esta mesma sensação de frescor.
Atendente com sorrisos de liquidação
As nossas instalações ficam do quinto andar para cima.
Antes de entrar num edifício costumo contar os seus andares. Claro que é uma mania desnecessária, mas o que fazer se tenho esta mania? Devido a este inexplicável e desnecessário vício, concluí que as instalações do Motel Gaveta ocupavam exatamente oito andares daquele moderno edifício.
Atendente com sorrisos de liquidação
Apresentarei a vocês todos os modelos de gavetas de que dispomos. Para começar, conheceremos esta, cujo nome é: single-standard.
Pela apresentação parecia ser uma gaveta roubada do IML (Instituto Médico Legal), mas não, tratava-se de uma gaveta produzida em ferro inteiramente cromado, o que por si só a diferenciava dos gavetões do referido instituto. A largura era de aproximadamente um metro e vinte e dois centímetros. O comprimento tinha em torno de dois metros e dezessete centímetros. A altura, que era limitada por uma chapa maciça de ferro pintado de branco, tinha aproximadamente um metro e dezenove centímetros, o que não nos possibilitaria ficar em pé, mas deixava o gavetão single-standard com relativo conforto.
Um colchão de espuma com vinte e oito centímetros de espessura dava o conforto necessário para que uma pessoa pudesse se acomodar. Lençóis e fronha, já que havia apenas um travesseiro de espuma, cobriam e davam uma aparência mais simples ao gavetão single-standard. Não havia iluminação, contudo o ar-condicionado estava presente neste como em todos os outros modelos, sempre com muita eficiência e regularidade. A circulação de ar era outro fator comum a todos os modelos. Havia pequenos furos circulares na frente dos gavetões. Esses furos eram minúsculos e não poderiam ser utilizados como espia para algum desavergonhado.
O sistema de comunicação neste módulo utilizava alguns princípios básicos de tecnologia, tendo apenas um intercomunicador com o serviço de segurança central. Não havia comunicação externa ao prédio, apenas se o ocupante tivesse um aparelho celular.
Havia cabides em todos os módulos.
A moça dos sorrisos de liquidação nos confidenciou que este módulo era utilizado freqüentemente por maníacos em masturbação, de ambos os sexos, mas com maior freqüência masculina. A permanência dos ocupantes era bem variada. A média era de cinqüenta e dois minutos, pequeno em relação a outros módulos, mas um tempo razoável se levarmos em conta a finalidade do mesmo.
Também confidenciou-nos a moça dos sorrisos de liquidação – desta vez mais atenta às várias câmeras de circuito fechado que faziam a segurança do estabelecimento – que muitos utilizavam este módulo levando companhias virtuais, tais como: bonecas virtuais – artigo alugado pelo estabelecimento a peso de ouro: é interessante e apropriado salientarmos que os artigos são esterilizados logo após serem devolvidos à loja –, pênis de borracha com vários tamanhos e formatos – fica registrado que a maioria dos clientes já possuem estes aparelhos –, vibradores elétricos e mais um sem números de artigos que não vale a pena mencionar.
A vendedora de saldos e retalhos – liquidação –, disse-nos que todos os freqüentadores são devidamente revistados antes de entrarem nos gavetões, pois não são permitidos materiais cortantes ou revólver, mesmo se este for de brinquedo.
Num dado momento, nos confidenciou a vendedora de saldos e retalhos – liquidação –, sempre atenta às câmeras de circuito fechado, que um homem aparentando meia idade estava com uma pirambóia – cobra geralmente encontrada na beira dos rios e lagoas – entre os seus pertences. A princípio, os seguranças queriam confiscá-la, porém quando descobriram que a tal cobra escorregadia estava morta, não fizeram qualquer ressalva àquele cinqüentão.
A vendedora de saldos e retalhos – liquidação –, sempre atenta às câmeras de circuito fechado, se empolgou e contou-nos outras aventuras, o que não vem ao caso relatar, pois estou apenas transcrevendo a respeito das gavetas e, não fofocas sobre casos absurdos, embora fique tão atentado quanto à vendedora de saldos e retalhos – liquidação – em relatar tais acontecimentos.
Atendente com sorrisos de liquidação
Esta outra gaveta chama-se: duble luxe swing.
Como o próprio nome dizia, tratava-se de um gavetão com dimensões e propósitos diferentes da single standard.
Tinha aproximadamente dois metros e cinqüenta e três centímetros de largura, e, a mesma medida de comprimento e altura da single standard.
O colchão tinha padrão ortopédico. Mesmo não sendo macio era adequado aos interesses dos usuários.
Dois travesseiros de pena de ganso vestidos com fronhas de cetim e lençóis do mesmo tecido davam um toque de luxo ao gavetão.
Neste modelo havia iluminação, sendo que o controle da intensidade de luz encontrava-se num painel com diversos botões. Havia som, sendo que o volume e as cinco estações de rádio com os mais variados estilos musicais também eram controlados do mesmo painel, que estava fixado do lado direito da cabeceira do gavetão.
O sistema de comunicação era sofisticadíssimo. Além dos intercomunicadores com o serviço de segurança central, apresentava também comunicação com os outros módulos para trocas de casais. Havia a possibilidade de se discar para telefones externos, apenas não sendo permitida as ligações para celulares.
Como gostava de fofocar, a vendedora de saldos e retalhos – liquidação –, nunca se esquecendo de se esquivar das câmeras de circuito fechado, confidenciou-nos que alguns casais reclamaram ao Sistema de Segurança Central, que estavam sendo perturbados por outros casais e, sempre preocupados com as leis que garantem ao consumidor o melhor serviço, a direção resolveu introduzir um sistema de liga/desliga com outros módulos, o que satisfez em muito os descontentes. Garantiu-nos a vendedora de saldos e retalhos – liquidação –, que a grande maioria dos casais deixavam os intercomunicadores sempre ligados.
A troca de casais é permitida, desde que, o Sistema de Segurança Central seja informado. Também não é permitido sair do módulo sem trajes, ou então, apenas de peças íntimas. Explicou-nos a vendedora de saldos e retalhos – liquidação –, que este procedimento se fez necessário para não fazer do local uma “zona” sem controles.
Contou-nos a fofoqueira o seguinte caso: dois casais ocupavam dois módulos distintos, como é de praxe. Passado algum tempo, as duas mulheres deixaram os seus respectivos parceiros e se dirigiram para outros módulos. Até aí nada, mesmo porque este fato é totalmente comum no estabelecimento. Geralmente, os homens recebem as suas novas parceiras com as luzes apagadas, até mesmo para gerar um clima de novidade.
A mulher que ocupava o módulo 37 se dirigiu ao módulo 52, conseqüentemente, a que ocupava o módulo 52 se dirigiu para o módulo 37. Aqueles que viram uma passar pela outra contam que: as duas mulheres sorriam às gargalhadas, embora discretas e, diziam uma a outra: “quero ver se você é melhor do que eu”.
Dois gritos horrorosos foram ouvidos pelo prédio todo e vinham exatamente dos módulos 37 e 52. Gritos e gemidos são comuns por aqui, mesmo sabendo da excelente acústica, mas aqueles não eram gritos e nem gemidos comuns, eram gritos de raiva e mais, eram pavorosos.
Os seguranças, tão logo ouviram aqueles berros descontrolados, se dirigiram para os locais com o intercomunicador a mão e entraram imediatamente em contato com os respectivos ocupantes dos módulos 37 e 52.
O homem que estava no módulo 37 era esposo da mulher que veio do módulo 52. Para complicar ainda mais a situação, o homem que estava no módulo 52 era esposo da mulher que veio do módulo 37. Os seguranças foram obrigados a arrombar os módulos 37 e 52. O histerismo era tanto que a situação ficou incontrolável e o desempenho dos seguranças fora dos mais eficientes, visto que, algo de mais aterrorizador poderia ter acontecido.
Os dois casais e mais alguns seguranças foram direto à delegacia mais próxima. Sorte que o estabelecimento não era clandestino e tinha o alvará da prefeitura em ordem, mesmo que este tenha sido comprado com propina, conforme nos informou a fofoqueira vendedora de saldos e retalhos – liquidação –, entretanto, o alvará existia, o que livrou o estabelecimento de sérias complicações.
Enquanto a vendedora de saldos e retalhos – liquidação – nos contava este fato, a ex-dentista com mãos napolitanas, que me convidou a conhecer esta loucura, disfarçadamente colocou a sua mão esquerda na minha calça, e, a região onde ela colocou a sua mão napolitana se surpreendeu, armando instantaneamente uma “tenda de circo”. Sua mão napolitana esquerda tinha o calor do verão das regiões da Baixa Itália. Tais sinalizações e tais apertos me convenceram que a ex-dentista com mãos napolitanas estava disposta a partilhar comigo um daqueles módulos.
Aquela mão napolitana me deixou extremamente excitado, querendo de todas as maneiras que a vendedora de saldos e retalhos – liquidação – interrompesse a demonstração dos gavetões. Porém, lembrei-me, que na minha carteira, que imita couro havia apenas documentos. Nem mesmo esta preocupação fez com que o “circo” desarmasse e a ex-dentista com mãos napolitanas mexia e remexia no “mastro” que sustentava aquele “circo” em pé.
Andamos alguns passos à esquerda e paramos.
Atendente com sorrisos de liquidação
Este é o master.
Confesso que minha vontade era partir para uma gaveta qualquer, inclusive com o intercomunicador desligado para outras gavetas, não com medo que acontecesse o mesmo dos casais das gavetas 37 e 52, mas para preservar a integridade da ex-dentista com mãos napolitanas, que continuava com a sua mão, agora a direita, na minha calça.
Geralmente, pensamentos positivos resultam em acontecimentos positivos. O intercomunicador da vendedora de saldos e retalhos – liquidação – tocou. Era a vendedora de planos funerários pedindo-lhe que comparecesse na recepção do andar térreo, urgentemente. Meus olhos se assemelhavam a um pênis ereto. E este endureceu ainda mais com esta chamada tão oportuna.
A loira, ex-dentista com mãos napolitanas, continuava com sua mão napolitana direita no meu “circo”. Agora a sós, poderia lhe explicar que na minha carteira falsificada havia apenas documentos, mas não.
Nem bem a vendedora de saldos e retalhos – liquidação – fechou a porta, a loira, ex-dentista com mãos napolitanas, não se importando ou se esquecendo das câmeras de circuito fechado se virou para mim, ainda segurando o “mastro” do meu “circo”, agora com mais força, e, começou a me beijar. Não, não era só ela que me beijava, aliás, eu também a beijava. Aproveitando da situação e disfarçando o quanto podia das câmeras de circuito fechado, coloquei a mão direita, que embora não seja napolitana, tem melhor coordenação que a esquerda, por debaixo do vestido estampado da ex-dentista com mãos napolitanas. A mão direita passou suavemente pela sua coxa direita até atingir o destino final. Sua calcinha de algodão, provavelmente para evitar corrimento, não foi obstáculo considerável para a mão direita, que num puxão brusco atingiu o seu objetivo, ou seja, a boceta da ex-dentista com mãos napolitanas, que neste instante tratava de segurar o meu “pau” com toda sua força napolitana.
Os dedos da mão direita, que repito, é mais coordenada que a esquerda, sentiram a umidade plena da boceta da ex-dentista com mãos napolitanas.
O tesão era tão grande que não seria necessário alugarmos gaveta alguma. Bastaria nos protegermos das câmeras de circuito fechado e trancar a porta do show-room, para que a vendedora de saldos e retalhos – liquidação – não entrasse.
Os cabelos loiros e não tão curtos da ex-dentista com mãos napolitanas já não estavam mais arrumados. O seu batom fazia parte da minha face e em alguns pontos da minha camisa.
Quando já estava pronto para fechar a porta com a chave, e até conseguimos encontrar um canto que nos livrava das câmeras de circuito fechado, eis que a vendedora de saldos e retalhos – liquidação – surge toda sorridente no show-room e, vendo-nos aos agarrões, tentou disfarçar que entrara no show-room apenas por entrar. Quanto a nós, era visível o que havia se passado durante a sua ausência.
No meio a tantas mãos napolitanas e outras não, que invariavelmente se encontravam na coxa de um ou às vezes na bunda do outro, me esqueci de avisar a ex-dentista com mãos napolitanas, agora empenhada em disfarçar os seus propósitos, que não havia nada na minha carteira de couro falsificado, além dos meus documentos. Aliás, mesmo se fosse um sistemático compulsivo, não iria me lembrar deste pequeno detalhe, tamanho era o tesão que se apossou de nós.
Antes que a vendedora de saldos e retalhos – liquidação – viesse nos mostrar a gaveta master, a loira, ex-dentista com mãos napolitanas, que tinha os cabelos loiros nem tão longos nem tão curtos se antecipou – o que me parecia ser uma das suas principais características – e solicitou à vendedora de saldos e retalhos – liquidação – que nos registrassem numa doublé luxe swing. Lógico que deveríamos preencher algum contrato de responsabilidades, que fora citado pela vendedora de saldos e retalhos – liquidação –, imposto pela diretoria para evitar qualquer problema judicial.
A vendedora de saldos e retalhos – liquidação – insinuou nos mostrar a master, pretensão imediatamente descartada pela loira com cabelos loiros nem tão longos nem tão curtos.
A nossa gaveta era a 52, o que inicialmente nos fez morrer de rir, por motivos óbvios. Apertei o botão logo abaixo do numeral de identificação – os indicadores eram digitais – e a gaveta saiu à mostra.
Os lençóis e as fronhas de cetim eram verdes, num tom pastel. Nossos olhos, nossas mãos e os nossos corpos estavam ávidos, um pelo outro. Instalamo-nos. Claro que permiti à loira, ex-dentista com mãos napolitanas, que entrasse a minha frente, visto que, ainda conto com modos cavalheirescos. Ao entrarmos, utilizei um daqueles botões do painel de controle e fechei o módulo. Um sistema motorizado de eixo sem fim fez o gavetão deslizar suavemente e silenciosamente até se fechar completamente – claro que durante este percurso agradabilíssimo nos beijamos, nos abraçamos e nos esfregamos. Antes que se fechasse totalmente, consegui escapar por uns segundos dos beijos, abraços e esfregões para acender as luzes, mesmo porque ao se fechar o gavetão ficaria completamente às escuras e, antes que isso acontecesse, me preveni acendendo as luzes. Eram pequenos “spots” com lâmpadas, que eram controladas tanto no foco como na intensidade. Preferimos pouca intensidade e o foco dirigido para o teto do gavetão, o que nos possibilitaria uma iluminação indireta.
Os beijos e os abraços continuavam ardentes e, nem mesmo o ar-condicionado estacionado em vinte e dois graus impedia que o meu suor tomasse todo o corpo, que até então se encontrava vestido.
Aos poucos tiramos nossas roupas, sendo que as minhas foram mais complicadas do que as da loira, pois ela estava apenas com um vestido estampado – seda com estampas floridas (pequenas flores do campo), o que demonstrava um gosto apurado – e tirá-lo não foi tarefa das mais complicadas. Posso até afirmar que fora uma das vestimentas mais fáceis da qual me desfiz durante toda a minha vida. Deixá-la apenas com as roupas íntimas aumentou mais o prazer e garanto que o dela aumentou consideravelmente.
Primeiro, ela me tirou a camisa, desabotoando delicadamente e calmamente até o último de cada um dos cinco botões. Tirar a camisa azul-claro de chambre após desabotoar os cinco botões, tornou-se tarefa das mais fáceis.
Mesmo empenhados em nos despir, não tirávamos os lábios um do outro. Eram beijos intermináveis, molhados, linguados e saborosos.
Num processo harmônico e sincronizado – habilidade dos sistemáticos – desatou os laços do meu tênis e tirou-os rapidamente, como rapidamente e delicadamente deixou os meus pés sem as meias. Restava, então, a minha calça jeans desbotada, para que eu ficasse completamente nu, visto que, não tenho hábito de usar cueca – às vezes uso um calção de seda estampado para substituí-la, mas não era o caso.
Com a paciência de um monge tibetano desabotoou a minha calça, e, logo a seguir abaixou o zíper com uma ternura franciscana e, vagarosamente puxou a calça pelas pernas, livrando-me desta vestimenta.
Seus olhos vorazes e decididos como os da águia – e jamais como os dos pombos que são insossos e sem brilho – não tiravam o olhar do meu “pau” ereto. Parecia até que queria engoli-lo, ou num ataque decisivo tomar conta dele por inteiro.
Novamente nos entregamos aos beijos, abraços e esfregões, só que desta vez o meu suor era repassado à sua pele branca e macia. Em poucos minutos ficamos totalmente molhados. Eu, com o meu suor natural e mais o pouco que a loira transpirava. Ela, com o pouco do seu suor e mais todo o suor que eu lhe repassava. Suas vestes íntimas ainda estavam acomodadas no mesmo lugar.
Nem era necessário que soubéssemos os nomes um do outro, afinal, estávamos ali com a mesma finalidade, nada de dentes, que nos transcorrer dos exercícios serviriam apenas para pequenas mordidas. E aos poucos, esta finalidade obteve êxitos. Não havia razão para paralisações, apenas para trocas de carinho e prazer.
Numa das raríssimas paradas que fizemos para que pudéssemos buscar ar, elemento vital para continuarmos o nosso deleite, observei que numa bolsa plástica colocada à cabeceira do gavetão havia um livrete. Paramos nossas trocas de carinho para sabermos do que se tratava o tal livrete, pois além do prazer, queríamos nos certificar de tudo que nos era oferecido no Motel Gaveta.
Na bolsa plástica havia também outros utensílios, tais como: vinte e quatro camisinhas lubrificadas com vários aromas (morango, framboesa e amora); pasta dental sabor menta; duas escovas de dente descartáveis ambas com cerdas suaves; sabonete com aroma de erva-doce. Penso que os produtos de higiene foram colocados na bolsa por engano, pois não havia local apropriado no estabelecimento onde se pudesse utilizá-los, ou então eram brindes, o que não acredito, já que nos mesmos não havia rótulo algum.
O título do livrete era apropriado: Cento e vinte posições. Como a curiosidade fazia parte dos nossos instintos fomos logo abrindo o livrete.
Eram cento e vinte páginas ilustradas com posições eróticas. É claro que o tal livrete tinha outras páginas referentes ao índice e mais uma série de informações, que não merecem maiores explicações.
Nem me passou pela cabeça perguntar à vendedora de saldos e retalhos – liquidação – como era cobrada a permanência. Se perguntasse, na certa gargalharia com aquele sorriso de liquidação, mostrando-nos infinitas formas de pagamento, mesmo sabendo que nas liquidações o pagamento se faz à vista.
Mesmo com todo o prazer do qual gozava naquele instante, confesso que no momento da descoberta do livrete pensei no fato de estar com a minha carteira de couro falsificado contendo apenas documentos e mais uma série de quinquilharias. Como não se paga tais estabelecimentos com documentos ou com cartões telefônicos, fiquei na esperança que a ex-dentista com mãos napolitanas possuísse alguns trocados, mesmo sabendo de antemão que a mesma não trouxera bolsa alguma e, como estava nua, não havia onde esconder qualquer tipo de moeda.
A loira com cabelos loiros nem tão longos nem tão curtos abriu o livrete na primeira posição – neste instante eu aumentei a luminosidade – e logo começamos a compreendê-la, e tratamos imediatamente de imitá-la com a maior fidelidade possível. O autor do livrete era indiano e pelas primeiras posições vistas e, imitadas fielmente, tratava-se de um ilustrador perfeccionista das artes eróticas.
Estávamos na posição 64, o que me fez lembrar que joguei no leão pela manhã, quando um súbito cansaço pegou-nos de surpresa, afinal, passamos por sessenta e quatro posições eróticas sem qualquer descanso.
Confesso que não sou um super-homem em se tratando de sexo, porém o fato da ex-dentista com mãos napolitanas conduzir a maior parte das posições, permitiu-me acompanhá-la nos mais variados galopes. Mas quando a posição 64 chegou, a ex-dentista com mãos napolitanas estava completamente exausta, e, logicamente concordei em fazer um pequeno intervalo, sobretudo porque esta paralisação se fazia necessária para que recuperássemos as nossas energias.
Quando interrompemos a leitura e a prática literária, já havia se passado três horas e trinta e sete minutos. Cansados e extasiados, nossos corpos não queriam apenas um pequeno intervalo, e sim, dormir. E foi isso que fizemos durante aproximadamente quatro horas e vinte e seis minutos.
Dormimos abraçados sem sabermos se esta era a posição 65.
Fui o primeiro a acordar, e, deixei que a ex-dentista com mãos napolitanas continuasse seu sono, naturalmente. Ela acordou após quinze minutos. Olhou-me com a feição da posição 26, o que fez meu “pau” responder imediatamente com um solavanco.
Antes que abríssemos o livrete na posição 65, a ex-dentista com mãos napolitanas me perguntou: “Nós perguntamos o preço do serviço”?
Eu
Não.
Ex-dentista com mãos napolitanas
Você trouxe algum dinheiro?
Eu
Não.
Neste momento esclareci à loira com cabelos loiros nem tão longos nem tão curtos, que a minha carteira – não mencionei que o couro era falso – continha apenas documentos e quinquilharias.
Ex-dentista com mãos napolitanas
E agora?
Eu
Porque?
Ex-dentista com mãos napolitanas
Eu também não tenho um “tostão”!
Eu
E agora!?
O meu “pau”, que até aquele momento não falhara, entrou em pânico e se encolheu completamente. O olhar da loira com cabelos desarrumados, que até aquele momento era somente tesão, também entrou em pânico.
Eu
E agora!?
Fiz esta pergunta propositadamente, pois mesmo estando há pouco tempo com a ex-dentista com mãos napolitanas, e, administradora de planos odontológicos, percebi claramente a sua maior característica – obviamente não se faz necessário entrar em detalhes acerca do seu inesgotável tesão –, que segundo pude testemunhar era resolver problemas, sejam eles simples ou mesmo os mais complexos, como parecia ser este.
Ex-dentista com mãos napolitanas
Liguemos à Central de Atendimento e perguntemos a respeito da nossa conta.
Eu
Claro!
Pelo que entendi, a posição 65 ficaria sem resposta.
Foi somente acionar o botão correto do painel de controle e a resposta veio a seguir.
Central de Atendimento, voz feminina, porém não era a vendedora de planos funerários, nem a vendedora de saldos e retalhos
São duzentos e oitenta e cinco reais e quarenta e três centavos. Já fizemos os devidos descontos. Será pago em dinheiro, cheque ou cartão de crédito?
Eu
E agora!?
Fiz esta pergunta à ex-dentista com mãos napolitanas após ter desligado o intercomunicador. Não queria demonstrar que estávamos sem dinheiro, cheque ou cartão de crédito.
Ex-dentista com mãos napolitanas
Meu celular está aqui! Poderíamos ligar para alguém.
Eu (sempre indeciso)
Mas pra quem!?
Ex-dentista com mãos napolitanas
Tem um digitador na minha empresa que me faria este favor sem hesitação, e melhor ainda, com toda discrição.
Eu (ainda indeciso)
Você sabe o telefone dele?
Ex-dentista com mãos napolitanas
Devo ter guardado no meu celular.
Tenho uma bronca infernal ou celestial desse aparelho, mas nunca fui tão grato à tecnologia moderna como nessa situação. Bendito seja o celular e o seu inventor!
Quarenta e sete minutos depois, o eficiente e discreto digitador estava com o dinheiro pedido pela ex-dentista com mãos napolitanas, e, também sua patroa. Pagamos a conta e fomos os três embora.
Passados alguns dias – não sei precisar ao certo – a loira, ex-dentista com mãos napolitanas, e, empresária no setor de planos odontológicos, cujos cabelos continuavam loiros nem tão longos nem tão curtos, apareceu no “Fransnático” com uma camiseta branca de algodão com a seguinte estampa:
65? Não. Iremos até 120.
Irineu Curtulo
Publicado no Recanto das Letras em 05/07/2008
Código do texto: T1065893
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