Texto

A festa

 Aquela noite traduziu-se em música. E não era das melhores. A felicidade era proporcional a incompetência dos artistas. E quem se importou? Até hoje não se fala de outra coisa na cidadezinha.

     Todos foram convidados pra festa. Por quem? Ninguém sabe. Ninguém viu. Os convites chegavam pelo correio. Sem remetente. Oriundos da capital. Homens, mulheres, casados, solteiros, ricos, pobres, feios, bonitos. Todos. A única regra: diversão. Bebida de graça e da melhor qualidade, gente feliz... Diz-se por aí que até alguns bichos participaram do evento. Um gato, que atende pela alcunha de Ray Charles fez excelentes improvisações ao piano, enquanto cachorros faziam coro com os bêbados ao redor. Sem falar nos jumentos!

     E a música não parava.

     Algumas senhoras de respeito, daquelas não dadas ao vinho, que não vão à festa alguma (até porque não são convidadas) foram lá espionar. Pois por lá ficaram! E tem mais: embriagadas, dançando a noite inteira como as meninas do bordel! Dona Imaculada até maculou-se com Gildinha, em agarramentos que os presentes chamam até hoje de indescritíveis. Tais senhoras, naquela noite abriram as pernas horas a fio.

    Quem diria... O padre Eunuco finalmente assumiu-se gay. Já a madre superiora mostrou sua afeição pelos jumentos. E encantou-se com pelo menos dois deles.

    E a música não parava.

    Bebel, filha do prefeito, que amava o Carlão, gari na cidade, se declarou. E dançaram a noite inteira em chão de estrelas.

     Genival pôs lenha na fogueira pra noite durar mais. E durou. Como durou...

     Seu Ataulfo, um merda, finalmente apanhou da mulher em quem batera por toda uma vida.

      E a música não parava.

      Dona Shirley foi comida pelo marido e pelo amante ao mesmo tempo, aliás, como sempre sonhou.

      Seu Matias tomou coragem e pediu um aumento ao unha de fome do seu Quincas. E ele aceitou!

      Artuzinho mandou o pai ir se foder, e isto, representou um grito de liberdade.

     E a música não parava...

     O sanfoneiro, visivelmente irritado, disse pros outros - chega dessa merda! Vou tocar enquanto todo mundo se diverte? - Houve um consenso entre os músicos, afinal aquilo era um absurdo, uma festa daquelas e eles ali, trabalhando. Nesse momento crucial Ray Charles, o gato pianista,  voltou ao piano com sua música felina, moderna, profunda  – Não dá, maluco... O som desse cara é muito foda! Vam'bora fazer um arranjo pra essa porra!

     E a música não parava...

      O cara do trompete gozou durante uma improvisação! Cada nota soprada correspondia a um ciclo de punheta. Todos aplaudiram. Dona Querubina fez questão de ajudar o músico a se limpar, usando a língua. O baterista currou dois bailarinos com suas baquetas. E voltou a usá-las logo depois para o delírio da platéia. Sem falar no cara da tuba que pediu um boquete. No microfone! Ao padre!! E foi atendido!!!  Valha-me Deus...

      E a música não parava.

      Seu polícia até chegou pra tentar pôr ordem na casa, mas só foi ver o amasso de Gildinha e dona Imaculada pra cair na farra com as duas. Nesse ponto alguém chamou o pastor pra exorcizar "aquele povo do Demo". O pastor chegou de paletó e saiu pelado. Ninguém sabe. Ninguém viu. Conta-se que... Bom, é coisa de outro mundo. Melhor não contar. Mas a cidade inteira sabe que dias depois o pastou virou michê.

      Carlão pediu Bebel em casamento. Ela aceitou com os olhos rasos d’água.

      E a música não parava.

     O prefeito apareceu pra separar Bebel e Carlão, mas quando viu o pastor correr pelado achou melhor não entrar. Chamou os psiquiatras da cidade. Todos. Eles entraram e não saíram mais. Reza a lenda que se perderam na boceta peluda de dona Micaela. Bobagem do povo... Mas os médicos nunca mais foram vistos. Nem dona Micaela e sua boceta...

     E a música não parava.

     Até que o prefeito adentrou o recinto e a música parou.

     - O que é isso, meus amigos? Somos gente de bem. Cristãos! Homens e mulheres de princípios.Em pleno degelo do pólo norte?! Em pleno fim do mundo... Vocês aí, nessa patifaria?

    Então se viram nus. Cabisbaixos. Envergonhados. A desonra lhes tomara de assalto como se todo o prazer daquela noite se revertesse em dor.

    Seu Manuel da padaria, alheio a discussão, se aproximou do prefeito, bêbado que só ele, agarrado a três mulatas:

     - Que porra é essa?! Se Deus me quisesse eunuco, não me daria um pau! Se não quisesse uma foda, não faria lindas bocetas! O senhor também tem um pau, prefeito. Um pau sofredor, um pau infeliz, mas... É um pau, ora bolas! Vou ser legal com o senhor. Vou sim. Vou apresentar uma mulata pro seu pau.

        Silêncio total no recinto.

    - Pau do prefeito... Ele tem nome ? Hum...  Posso dar um nome pra ele? Então, senhor Bráulio, essa é  a melhor bunda da festa, Josefine. Bunda esse é o pau mais importante da festa, senhor Bráulio. E aí, vocês dois?! Já é ou já era?

     E a música nunca mais parou.
Déda Lizz
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1908859

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Comentários
08/11/2009 21h12 - Maycon Batestin
perfeito. Bacanal do cacete! Não é muito a minha praia, mas rir um bocado!
07/11/2009 15h01 - Gustavo Gollo
Será que encontro essa festa? e será que te encontro por lá? (adorei a boca)
06/11/2009 19h16 - Fabio Daflon
Feliz Final.

Sobre a autora
Déda Lizz
Rio de Janeiro/RJ - Brasil, 29 anos
19 textos (1016 leituras)
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