Miniconto no dia 13 de novembro: enquanto se ouve o jazz
Dentro daquele salão, escondido na marginal escuridão que as lâmpadas tentavam dissimular, Eva repousava os olhos no longínquo par de olhos do trompetista de jazz. Estava bêbada e seguramente só. Nunca em uma noite tão excepcional - incontáveis – amara tanto um homem como amara o tocador de jazz.
Os olhos perderam-se na hipnótica epístola do concerto. Seus olhos débeis perderam-se: agora eram tão esverdeados que se dispersavam na negritude estrábica dos olhos do trompetista.
- Dedicou-me a canção – pensou.
À sua volta, dois casais, perdidos na luz alva que os canonizava, e um negro barbudo, que parecia resmungar para sua sombra turva. Toca-se a última canção: solo de trompete – as luzes voltadas para o ego acidental do trompetista: Louis Armstrong para Eva.
Ela levanta-se ao final do concerto, enquanto o ensurdecedor som dos aplausos imprimem-na uma espécie imoral de redenção. O trompetista parece amá-la demasiadamente. E tanto amor parece não suportar a estrutura estreita do salão. São dois indivíduos enclausurados no domicílio da oportunidade: ela, magra e desenganada, ele, negro e apaixonado.
- Meu nome é Jean – disse a ela com o seu tom afrancesado.
- O meu é Eva – ela respondeu-lhe aflita com os próximos segundos.
- Eu te amo – ele disparou com seu ímpeto viril
- Você me ama mesmo, Jean?
- Desde o instante em que a vi.
- Então toque para mim a sua mais bela canção, pois mais tarde estarei morta.
Plynio Nava
Publicado no Recanto das Letras em 26/06/2008
Código do texto: T1052321
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