Descanso
Eu estava tão bêbada. Mas mesmo assim resolvi voltar pra casa. Sempre me sentia um pouco deprimida e preocupada quando deixava meus cães sozinhos por muito tempo. E agora tinha também minha mais nova hóspede. Seria indelicado da minha parte passar a noite fora e deixá-la sozinha em uma casa praticamente desconhecida. Não sei dizer se o trajeto foi feito em maior ou menor tempo. Pra falar a verdade, o mundo todo girava ao meu redor e nem pude perceber como ao certo estacionei o carro na garagem.
Pra falar mais ainda a verdade, eu estava mesmo anestesiada pelo álcool. Não ouvia nada, não pensava, não sentia. Ou melhor, não sentia nada até o momento em que fechei a porta do carro em meu dedo. Foi somente nesse momento que percebi que “anestesiada” não seria de fato a palavra certa, mas não consigo pensar em outro termo agora. Talvez, “levemente anestesiada”.
“Nem tão anestesiada”, porém meus reflexos não estavam muito bons. Foi assim que eu, mesmo sentindo aquela dor aguda e terebrante no meu dedo anelar, simplesmente caí de joelhos no chão, permanecendo com o braço esticado, preso pelo dedo. Encostei a testa no carro e permaneci assim por alguns segundos ainda e foi só então que, com a outra mão, consegui abrir a porta. Finalmente me sentei no chão. Estava meio escuro e só pude notar que minha unha estava quebrada em três partes, sendo que uma delas caiu, deixando parte do leito exposto.
Não me restou alternativa a não ser arrancar os outros dois pedaços. Eu estava bêbada demais pra ir até o porão e pegar um alicate, mesmo porque não queria acordar Elizabete, a hóspede que lá dormia. Ela havia tido um dia difícil. Mas sim, a falta de uma unha me incomodava bastante. Mas, o que me incomodava ainda mais era ver os dois pedaços de lâmina presos ao leito ungueal por apenas alguns pontos de sua superfície. Por isso não hesitei em arrancá-las com os dentes mesmo. E até que não foi tão ruim sentir o gosto de sangue misturado ao gosto de álcool que ainda impregnava o interior da minha boca.
Nesse momento me lembrei do quanto Elizabete lacrimejou quando tirei todas as suas unhas com um alicate de bico chato. Eram compridas e isso facilitou na hora de fixar o alicate na ponta da unha. Segurei firme sua falange proximal e fui lentamente ora puxando a unha pra frente, ora puxando pra cima. Dava pra sentir perfeitamente a lâmina, pouco a pouco, se desgrudando do leito. Em alguns dedos, dava pra sentir a falange distal se deslocando da falange média, com a articulação entre os dois ossos sendo pausadamente destruída.
Quando me vi sentada no chão, lembrando do ocorrido com Elizabete, percebi que eu poderia ter quebrado suas unhas, assim eu poderia tê-las removido com maior facilidade, da mesma forma como havia feito com a minha. Poderia ter feito isso usando um martelo ou outra ferramenta similar. Não importa. O fato é que, se não fosse pela mordaça em sua boca, tenho certeza de que os gritos de Elizabete acordariam até mesmo os mortos.
Mas seu choro aflitivo me comoveu...e me causou uma certa saudade das minhas antigas aulas de anatomia humana na Universidade. A vontade de conhecer mais intimamente o sistema lacrimal de Elizabete foi arrebatadora. Eu queria, pelo menos, causar um pouco mais de choro estimulando diretamente seu ponto lacrimal com uma agulha, aquele pequenino orifício no canto inferior do olho por onde extravasa a lágrima. Foi o que eu fiz. Quando aproximei a fina agulha no orifício, a quantidade de lágrima aumentou consideravelmente. E quando penetrei a agulha no canal, Elizabete chorou lágrimas de sangue, literalmente. Nunca pensei que um clichê tão brega (chorar lágrimas de sangue) seria tão comovente e doloroso quando realmente colocado em ação. Uma metáfora transformada em sentido próprio.
Eu devo ter lesado algum dos dutos internos e pra saber exatamente o que havia acontecido, eu teria que seccionar o local pra ter a visão interna. Mas, mais uma vez Elizabete me comoveu, ela estava realmente me parecendo muito cansada e transtornada com tudo aquilo. Resolvi deixá-la descansar um pouco, para então terminar a vivissecção quando ela estivesse mais calma. Talvez no dia seguinte eu conseguisse, até mesmo, retirar suas glândulas lacrimais...assim eu poderia terminar o trabalho sem ter que vê-la chorar. O choro de pessoas impotentes diante de algumas situações realmente é uma das coisas que quebrantam meu coração...
Por conta de tudo, naquele momento ela, com certeza, dormia para recompor suas forças. Não queria incomodá-la, mesmo porque eu também precisava de uma boa e tranqüila noite de sono.
Foi com dificuldade que entrei em casa e alimentei meus cães, dando meu dedo inchado para que eles lambessem o sangue que não parava de escorrer. Foi uma boa forma de estancar o sangramento. E no dia seguinte tudo estaria mais calmo para mais um dia cheio.
Marcela Nunes
Publicado no Recanto das Letras em 26/06/2008
Código do texto: T1053202
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