Januário e o pássaro político
JANUÁRIO TEM UM PROBLEMA
Hoje é dia de feriado. São três e um quarto da tarde e, enquanto o sol espreita, a espaços, timidamente, por detrás da folhagem densa da velha figueira-brava, a brisa transporta consigo um cheiro fresco e intenso a maresia. A praia está cheia, repleta com os mais diversos animais e as suas crias. Alheios a tudo o que se passa, Januário e a ave estão reunidos em conferência. Há uma data de tempo que estão para ali no topo do ramo mais alto - a falar!
Januário é um anão de cabelo branco e aspecto ridículo, com um nariz achatado e olhos redondos e azuis, com umas rosetas que são “sem vergonha” pois estão sempre a florescer nas bochechas. Postado nos seus cinquenta e seis centímetros de altura, cochicha com o pássaro, uma espécie de melro grande e gordo e este finge que ouve atentamente. A ave difere do habitual, do que podemos normalmente esperar. Penas limpas e bem cuidadas, bico aberto, olhos pequenos e vivos brilhando por detrás dos óculos (que usa de aros redondos), tem um paletó de fazenda feito por medida e exibe uma gravata de seda às riscas grossas azuis e amarelas. Tudo nos conformes, como, aliás, se quer de quem anda sempre na moda.
“Continua” Diz o pássaro. “Ainda não estou a entender completamente o teu problema”
“A questão é que, gosto das duas e, uma vez chegada a hora, não conseguirei escolher. Falta-me o discernimento necessário” diz o anão franzindo o sobrolho.
“Estás a falar de quem ou do quê?”
“De Esperança e Liberdade, as duas filhas do meu amigo. Esperança é maravilhosa. Vem ter comigo quando as coisas ficam feias e é com a ajuda dela que consigo encarar os problemas e seguir em frente. Quanto à outra, bem… o que posso dizer? Acho-a praticamente indispensável. Sinto que, sem ela, a vida perderia todo o significado!”
O bicudo fita-o directamente, parecendo estudá-lo. Por momentos, não se ouve ali qualquer palavra…
“Realmente, o teu caso requer grandes cuidados e muita perícia. Está visto que necessitas de mim, de um profissional, dos meus conselhos sábios…” acaba por responder.
A PROPOSTA
Passadas três horas, é agora fim de tarde e a conversa prossegue. O pássaro estende-lhe a folha para a mão
“Mas… se nem te conheço!..” diz Januário
“E isso é necessário? Não se certifica o fruto pela sua árvore? E quando semeias, porventura perguntas à semente qual é a sua estirpe? De qualquer forma, aqui está o meu currículo. Podes ler à vontade e tirar todas as dúvidas” responde o outro, algo nervoso, aproveitando para bicar duas penas da asa esquerda.
Januário, considerando não ter grandes alternativas, lê para si (outra vez).
Lista A - Engenheiro Reginaldo Oliveira
Lista B – Professor Doutor João Mateus Corte Real
Lista C – Ambrosina Carrapato
Lista D – Dr. Pedro dos Santos
“Que tenho de fazer?”
“A minha é a última, a D. Só terás de colocar uma cruz no quadrado à esquerda do nome”
Januário conhecia os outros todos. O Reginaldo era uma iguana magricelas muito pouco transigente, com tiques de autoritário. Um tecnocrata que gostava de fazer “jogging”. Corriam rumores de que tinha completado o curso à custa de batotas, movendo influências. E os outros não eram melhores, não eram “flor que se cheire”.
Observando a hesitação, a ave volta à carga
“Vejo que estás indeciso. Pois deixa que te conte uma história…”
E assim, despudoradamente, apresenta-lhe um clássico - o dilema do náufrago.
“Imagina que estando em viagem, o teu navio se afunda e, de repente dás por ti sozinho numa ilha deserta. Após alguns dias sobrevivendo como podes, vês chegar um tronco com uma garrafa e uma lâmpada em cima. A garrafa tem dentro uma mensagem. Na lâmpada existe um Génio e (pormenor importante) só há dois tipos de Génios: os bons e os maus. Sabes que retirando um dos itens, farás balouçar a madeira e o outro cairá na água perdendo-se para sempre. Sabes também que a mensagem da garrafa revela a identidade e o perfil do ser que a garrafa tem cativo. Mas tens de actuar rapidamente. Que decides?”
Januário, que nunca se vira noutra, pára para pensar um pouco. Ao fim de uns segundos de silêncio, franze a testa e responde
“Acho que opto por ficar com a lâmpada. De que vale a indicação da garrafa se, apesar de ser verdadeira, nunca terei oportunidade para a colocar em prática?”
O pássaro bate as asas e exibe uma expressão de triunfo.
“Pois. E é exactamente o que se passa connosco. De que te serve votar num dos outros? Algum deles te prometeu alguma coisa pessoalmente?”
E, dito isto, pisca o olho afirmando
“Vota em mim e não te preocupes mais. Vai tudo correr bem”
DO QUE FOI DECIDIDO, DOS FACTOS QUE DAÍ ADVÉM
Januário acabou por votar no Dr. Pedro dos Santos e o pássaro - que nessa altura era já um passarão, um bicho com uma envergadura considerável – cumpriu com o prometido. Combinaram e, no dia e hora marcados, acompanhou o anão para o ajudar a decidir.
Não houve lugar para grandes hesitações. Ao depararem com as raparigas, o bicho logo gritou
“Fica com esta. É, sem dúvida, a mais conveniente, a melhor para ti”.
E, antes que o anão pudesse esboçar um só gesto, abriu as asas grandes e poderosas e voou para longe, levando a outra amada.
Com qual ficou Januário? Nunca o saberemos. Há os que dizem que ficou com a Esperança e que o pássaro volta em cada quatro anos trazendo-lhe por momentos a Liberdade. Mas há também as outras vozes: as que afirmam exactamente o contrário. Segundo elas, é a Esperança quem volta de quatro em quatro. Dizem que permanece por muito pouco tempo…
Moral desta história (e de muitas outras):
Há que ter muito cuidado ao negociar com os pássaros políticos. Existe uma probabilidade altíssima que te tirem a Esperança ou a Liberdade (ou ambas).
José Espírito Santo
Publicado no Recanto das Letras em 27/06/2008
Código do texto: T1054111
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