REALIDADE ILUSÓRIA
Jéssica está atrás da porta, ouve tudo atentamente.
Está congelada e tenta não respirar para não fazer o mínimo de barulho.
Mas, a cada segundo que passa fica mais difícil segurar a respiração ofegante.
Não acredita que seu noivo, Alberto, está deitado na própria cama com sua melhor amiga.
Depois que ouve os sons que confessam a traição, ela não segura mais sua fúria e empurra a porta do quarto com toda sua força, fazendo-se presente com a surpresa.
Os dois param imediatamente. Soraya, sua ex - melhor amiga, tenta se esconder atrás do lençol e Alberto fala a frase que todos falam nesse momento: “Não é o que você está pensando, Jéssica!”.
E começa a musiquinha.
Agora só amanhã para saber o que vai acontecer.
Será que a Jéssica vai bater neles? Será que vai gritar ou vai sair calada. Mostrando com o desprezo toda sua raiva? Que dúvida! Se fosse eu, enfiava a mão na cara dos dois. Como é que pode o noivo e a melhor amiga.
Mas ela é burra mesmo, como não percebeu isso antes?
Só um cego não via aqueles olhares, o jeito malicioso dos dois.
É confiar demais nas pessoas.
E agora eu vou ficar aqui morrendo de curiosidade, até o capítulo de amanhã.
Ainda bem que amanhã é sábado, parece que o capítulo é mais longo. Estou doida para que chegue logo!
Mas, cadê o Carlos e a Bete?
Foram pegar uma bebida e não voltaram até agora. Não vão acreditar no que perderam da novela hoje.
Fátima vai até a cozinha e não encontra ninguém, vai chamando pelo nome dos dois ao longo da casa, e nada.
Começa a ficar preocupada.
“Onde estão aqueles dois?”
Lembra da novela que acabou de assistir. Não, não podia ser algo do tipo “a vida imita a ficção”. Carlos, seu marido há três anos e Bete sua amiga de infância, jamais teriam coragem de fazer aquilo com ela.
Conforme subia as escadas que levavam para os quartos, sua respiração acelerava.
Quando chegou à porta da biblioteca, ouviu vozes.
Não era possível que aquilo estivesse acontecendo.
Não querendo cometer o mesmo erro da personagem da novela e ficar ouvindo tudo atrás da porta até que eles terminassem aquela sinfonia horrorosa, resolveu entrar empurrando com toda sua força a porta.
Qual não foi sua surpresa ao ver seu esposo e sua amiga, agachados fazendo carinho na barriga do pastor alemão que eles mantinham dentro de casa.
Sentiu-se mau por um momento. Afinal, coisas muito baixas tinham passado por sua cabeça. Ficou sem graça, não sabia o que falar. Quando resolveu comentar o que tinha acontecido na novela que tanto gostava e que eles tinham perdido, parou.
Percebeu as mãos trêmulas de sua amiga fazendo carinho no seu cachorro.
Não entendeu, não perguntou.
Resolveu esperar o próximo capítulo.
Rita Vaz
Publicado no Recanto das Letras em 27/06/2008
Código do texto: T1054461
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