Texto

Foi um dia ruim para Raimundo

A primavera estava começando e a rua parecia mais colorida. Ricardo, alheio às mudanças da estação, corria pelo jardim e fazia as borboletas voarem enquanto passava no meio das plantas. Pulou alto e caiu rolando na grama. Ficou esparramado no chão por algum tempo, dando gargalhadas. Levantou-se e correu de novo. O sol da manhã parecia mais alegre naquele domingo. Um lagartinho se assustou com o menino que corria no meio das plantas e abandonou seu abrigo sob uma pequena moita. Procurou, sem demora, um lugar mais tranqüilo para descansar.

Henrique sorriu ao ver Ricardo brincando no jardim e parou na frente do portão. Poderia chamar o amigo diretamente, mas ficou com vergonha e medo de parecer intrometido. Tocou a campainha. Ricardo parou imediatamente de correr e espiou por entre os arbustos. "Vassoura!", gritou de onde estava. Depois desapareceu dentro da casa para buscar a chave do portão.

Sozinho, com as duas mãos na grade de ferro que o separava do jardim, Henrique ficou pensando mais uma vez em como aquele apelido era irritante. Ele gostava de seu nome, e não achava justo ser chamado de Vassoura apenas porque tinha o cabelo grande. Já estava cansado de pedir à sua mãe para cortá-lo, mas ela dizia que ele ficava bonito daquele jeito. Parecido com um tal de “Dim Mórisson”. Henrique odiava “Dim Mórisson”. Ele queria mesmo era raspar o cabelo, pegar muito sol e ficar igual o “Maique Taison”.

Ricardo voltou com a chave. Desta vez estava acompanhado por Fanta, sua pequena vira-lata. Fanta era famosa na vizinhança por correr em círculos, tentando morder o próprio rabo. Apenas Ricardo a chamava pelo nome. Os outros preferiam chamá-la de "Voltinha". Ele não se importava. Era também o único a se referir à cadela como "cachorra". As pessoas o corrigiam, mas ele acreditava que cada palavra tem seu lugar e guardava "cadela" para as discussões com a irmã.

"E aí, Vassoura. Quer brincar de correr na grama?”
 “Hoje eu não sei, Cabeça. Estava pensando em ir pro clube”.

Ricardo não era cabeçudo, mas Henrique fazia aquilo como uma vingança por causa de seu próprio apelido. Ficaram em silêncio durante alguns segundos. Uma decisão estava sendo tomada. Por que ir ao clube? Por que não?

“Então vamos.”

Os dois garotos caminhavam na rua e conversavam. “O Lanterna Verde é mais poderoso que o Batman? É claro, mas o Batman é mais inteligente. Se não fosse aquele anel, o cara não seria nada. Já o Batman, é poderoso o tempo todo, mesmo que esteja sem o cinto de utilidades.”

Ricardo aguçou a imaginação e enxergou, num dos oitis plantados na calçada, a imagem de um inimigo ninja. Correu até ele e deu uma “voadora” no tronco da árvore. Continuaram caminhando. Henrique plantou bananeira e andou alguns passos com as mãos. Queria mostrar que também sabia alguns truques.

"Veja isso...", disse Ricardo. Ainda não sabia exatamente o que fazer, mas tinha que ser algo impressionante. Enquanto pensava, resolveu fazer pose. Fechou os olhos. Afastou um pouco as pernas e levantou bem os braços. Henrique olhava o gesto com grande expectativa. Sem uma idéia definitiva do que fazer, Ricardo abaixou subitamente os braços num movimento brusco. No mesmo instante, um raio cortou, inexplicavelmente, o límpido céu azul e arrebentou o chão, a cerca de trinta metros dos garotos. Henrique, boquiaberto. Tinha que aprender aquilo. Acreditou que o silêncio de Ricardo significava concentração. Não sabia que o amigo estava paralisado pelo susto, sentindo que iria desmaiar ali mesmo, no calçadão.


****


Matilde temeu por sua vida quando o raio caiu tão perto. Não viu o acontecido, mas sentiu tudo. Até onde podia sentir alguma coisa. Aquilo não estava certo, um raio caindo naquela situação. Ela não sentia o vento nem as gotas de chuva. Apenas o toque acolhedor do sol da manhã. Alguma coisa estava muito errada por ali. E ela nem mesmo podia correr.

Sentia um pouco de inveja das pessoas que passavam andando. Às vezes, correndo. Gostaria de se mexer mais. Talvez fosse essa a razão de gostar tanto do vento.

Aborrecia-se com o tédio. O dia inteiro, a vida inteira no mesmo lugar. Uma de suas raras diversões era brincar de ninja com as crianças da vizinhança. Gostava das cócegas que a chuva fazia em suas folhas enquanto caía. E da sensação refrescante que vinha depois. Da revoada de pardais que procuravam abrigo em seus galhos durante o entardecer. Eles sujavam muito, é verdade. Mas Matilde não compartilhava o sentimento humano de aversão à sujeira. Para ela, é adubo. Agradável. Também gostava do sol suave, como o daquela manhã. Mas de raio ela não gostava. Era muito perigoso e assustador.

Ficou um pouco mais tranqüila quando percebeu que Dona Mercedes estava na varanda, logo ali na frente. Era uma boa pessoa. Cuidava de Matilde e era a única que se referia à árvore pelo nome. Foi Dona Mercedes, inclusive, quem batizou Matilde. Que lhe deu identidade. Os outros provavelmente não saberiam diferenciá-la da companheira que estava plantada a uns vinte passos adiante.

Dona Mercedes era diferente e Matilde gostava dela. Se tivesse a oportunidade, gostaria de poder chamá-la de mãe.


***


Fanta ficou triste quando seu dono saiu de casa. Não tinha nada para fazer e resolveu perseguir o próprio rabo para passar o tempo. Antes de começar, olhou ao redor para ver se tinha alguém por perto. Procurava não fazer mais aquilo quando as pessoas estavam olhando. Elas gostavam. Gostavam além da conta, era o problema. Sempre queriam mais e mais. Quando ela tentava descansar um pouco, eles puxavam seu rabo e ela tinha que rodopiar de novo. Se não fizesse, eles ficavam irritados. Batiam, com força, o pé no chão. Gritavam e faziam barulho para que ela ficasse com medo e fosse embora.

Terminada a avaliação das redondezas, certa de que não havia ninguém por perto, Fanta rodou até ficar zonza. Parou um pouco para recuperar o fôlego, mas, antes que pudesse arfar pela primeira vez, um estrondo enorme e um clarão rugiram do lado de fora. Alguma coisa tinha se zangado. Era melhor continuar com o esquema do rabo. Rodopiou mais rápido que nunca.

***

Raimundo deleitava-se sob as folhas do Pingo-de-ouro. A temperatura estava perfeita. Que bela manhã de primavera! Uma agitação súbita na paisagem e ele percebeu dois pés bagunceiros que corriam pelo jardim. Era o fim da tranqüilidade. Aquele lugar é pequeno demais para que uma criança alegre e um pouco de sossego ocupassem o mesmo espaço.

  Raimundo desceu com hesitação o muro que o separava da rua. Estava ficando velho. Mas o que lhe faltava de força, ele compensava com sabedoria. Percebeu rapidamente os melhores lugares para se pendurar.

  Agora chegara à calçada. Nenhuma sombra abençoada por ali. Atravessou a rua para evitar outro garoto, que estava à frente do portão. Alguns gostavam de jogar pedras em Raimundo. Ser apedrejado não era o que ele tinha em mente para aquela manhã.

  Tentou alguns lugares, mas não achou nenhum satisfatório. Chegou a ficar alguns minutos debaixo da folha de uma castanheira, mas achou que a vista era muito limitada dali. Além do mais, sabia que corria o risco de ser atropelado por alguma coisa num esconderijo tão frágil.
 
  Continuou descendo a rua. Percebeu que os garotos estavam próximos outra vez e se escondeu rapidamente numa rachadura entre os paralelepípedos. Deixou que eles se afastassem até uma distância segura. Que dia difícil... Será que não poderia aproveitar aquela manhã tão agradável para um pouco de descanso e paz?

  Percebeu uma área promissora. Precisava averiguar. Levantou um pouco a cabeça, na tentativa de ver melhor. Confirmado: sim, aquele era o jardim perfeito. Teve a impressão de que um raio de sol se insinuava com mais intensidade sobre uma roseira. Um pouco mais de imaginação e poderia ouvir lagartixas aladas cantando.

  Se as coisas continuassem assim, tinha certeza de que iria encontrar uma linda barata, deliciosa, para o almoço. "Obrigado, Grande Lagarto!". É sempre importante agradecer por este tipo de benção. Ficou ainda alguns instantes contemplando aquela sombra perfeita. Partiu em disparada, mas nunca chegaria até lá. Foi um dia ruim para Raimundo.


***

O dia estava bonito lá fora e Dona Mercedes estava feliz. Ela preparou o café da manhã. Sabia que Jânio, seu marido, iria levantar a qualquer momento. Sabia que ele costumava acordar com fome no domingo. Sabia muitas coisas sobre ele. Talvez mais do que gostaria de saber.

  Ela já não gostava dele como antigamente. A vida era difícil. Sua mãe dizia que nenhuma mulher sensata poderia ter se casado com alguém conhecido pelos amigos como Carne-Seca. Chamava Jânio de bêbado e brutamontes. Dona Mercedes não se importava com nada disso. O que realmente a desagradava era a insistente mania que ele tinha de dar bom-dia às suas garrafas de conhaque. Mas ela tentava ser compreensiva. Afinal, a vida era difícil para todo mundo.

  Ela tomou cuidado para não se queimar enquanto segurava a frigideira pela beirada, com um pano. O cabo quebrou há algum tempo e ninguém tinha pensado em comprar outra. A omelete agarrou no fundo e virou ovos mexidos. Terminou aquela parte. Colocou os ovos num prato e foi até a sala de jantar colocá-lo junto ao pão, a manteiga, café e leite. Buscou Carlinhos, o gato de cerâmica, para enfeitar a mesa. Desde pequena ela tinha a íntima mania de dar nome aos seus amigos - às coisas inofensivas, às coisas que não se aproveitavam de sua fragilidade. Foi até a geladeira pegar queijo e presunto. Ficou indecisa em relação ao iogurte.

  Jânio bateu a porta do quarto e tropeçou até a cozinha. Abriu o armário e disse "Bom-dia!", mas Dona Mercedes sabia que o cumprimento não era para ela. Perguntou se ele queria iogurte. "Não. Estou sem fome.".

  Ela foi para a mesa e começou a comer sozinha. Jânio perguntou por que não havia panquecas. "Eu ia fazer, mas você disse que não está com fome...". Ficaram em silêncio. Ele chegou perto de onde Dona Mercedes estava sentada e a levantou pelos cabelos. Ameaçou um soco com o braço. "Se eu não estou com fome, é problema meu. Tem que ter panquecas todo dia". Ela estava com sorte aquela manhã. O soco não veio. Ficou chorando baixinho. De cabeça baixa. "Tá vendo, Dourado", ele diz para o conhaque, "É só a gente afrouxar um pouco que elas ficam abusadas.". Voltou para o quarto, abraçado à garrafa.

Dona Mercedes correu para fora de casa e procurou pensar no lado positivo: era bom ter um homem forte em casa. Sentada na varanda, ela tentou parar de chorar. Estava muito triste para se importar com o moleque que passava e chutava a árvore na frente da casa. Gostaria de saber o que fazer. Esperava por algum tipo de sinal.

  Dona Mercedes limpou as lágrimas para enxergar melhor alguma coisa que chamou sua atenção no meio da rua. De repente, o estrondo. Perplexa, não sabia se estava mais impressionada com o calango que, do meio da rua, encarava seu jardim com a cabeça levantada e parecia sorrir, ou com o raio que caiu inexplicavelmente em cima dele.
buk
Publicado no Recanto das Letras em 28/06/2008
Código do texto: T1055033

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Comentários
02/07/2008 10h29 - Miguel Pragier
Conto excelente! Amarradinho, enxuto, divertido, sensível sem ser meloso e bem rediigdo. Gostei muito e enviei o link pros amigos lerem também. ;-)

Sobre o autor
buk
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 12/10/08 06:50)

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