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E se ela não voltar?

A campainha tocou insistentemente, ainda meio dormindo seu cérebro trabalhava “não é aqui, não é aqui, filho da puta”. De repente o corpo rendeu-se e ela despertou num pulo. Já pensara mil vezes em perguntar a síndica como diminuir o volume daquela campainha, não precisava tanto para um apartamento tão pequeno de paredes tão finas e próximas, ainda mais porque sua cama era o sofá da sala, e a sala era, bem dizer, na frente da porta. Sentou meio atônita, tudo na sua cabeça ainda não encontrava-se sincronizado, lembrou da bebedeira solitária da noite passada e no exato momento sua cabeça começou a doer, droga de vida, droga de vinho barato, droga de ressaca pensou. Pegou no chão ao lado dos sapatos virados de cabeça pra baixo o sutiã branco encardido, não iria abrir a porta com aqueles peitos caídos, vestiu o sutiã e andou em direção ao banheiro com a cara de quem odiava ser acordada, ainda mais com aquela campainha ecoando na sua cabeça. Olhou no espelho e não se reconheceu, não via nenhuma vida naqueles olhos tristes de lápis preto borrado, naqueles cabelos mal cortados, nem no seu piercing do nariz. Lavou a cara rapidamente, pressionada pela campainha que ainda tocava, chupou a bisnaga de pasta de dente e fez um bochecho rápido e saiu do banheiro pulando num pé só, tentando colocar a maldita saia. Voltou correndo para o banheiro, onde estava a porra da escova de cabelo? Depois de pentear os cabelos com a escova encontrada no chão, ao lado da privada, começou a ensaiar um sorriso no espelho, não lembrava da última vez que sorrira espontaneamente sem chorar logo na cena seguinte. Enquanto não encontrava um sorriso rápido que não parecesse triste a campainha silenciou-se. Correu para porta, bateu com o dedão no canto do sofá, gritou abafado, seus olhos encheram-se de lágrimas, e quando olhou no olho mágico viu a felicidade indo embora. Pensou em abrir a porta, daí lembrou-se que atirara as chaves pela janela na noite passada quando iniciara um suicídio fracassado. Não tinha mais tempo.
Tônio
Publicado no Recanto das Letras em 30/06/2008
Código do texto: T1058262

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Sobre o autor
Tônio
Porto Alegre/RS - Brasil, 26 anos, Escritor Amador
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