OS PRODÍGIOS
Os homens mulheres crianças vêm de todos os lados, felizes e sorridentes, ávidos pelos prodígios que lhes serão apresentados. Fazem muito barulho os homens, as crianças correm em volta, barulhentas também, as mulheres coram e deixam escapar risinhos pálidos como a lua.
Eu não uso cartola; meu corpo é meu instrumento de trabalho, dele extraio não somente coelhos, mas automóveis pássaros elefantes. Do meu corpo extraio também a felicidade que planto nos corações da platéia. Sim, o sorriso que ilumina todas as manhãs os rostos felizes da audiência vem de mim.
E eles se divertem há muito, vêm todos os dias, todos os dias sou obrigado a trabalhar. Ninguém nunca me disse, mas acho que, uma falha minha, a cidade pode parar. Pretensão, talvez, mas é assim que penso. E eles também: basta a minha presença para gerar gritos entusiasmados, mesmo os homens me lançam olhares libidinosos, as mulheres são de uma ternura sem igual. Eu respiro fundo. É a parte que me cabe nesta farsa.
Os aplausos diários, os sorrisos, as vozes gritando o meu nome. Considero a festa feita por eles um exagero, mas os julgamentos não são da minha competência. Faço apenas, exibo os meus prodígios. E não encontro a menor graça nisso. Não vejo mágica em mim. Tanto faz retirar uma cobra do bolso ou um avião da boca: tédio nevoento, só isso. O único prodígio que eu vejo neste mundo é o entusiasmo diariamente renovado da platéia. Eu alegro e dou sentido a homens mulheres e crianças, mas gostaria mesmo é de ser qualquer um deles.
Claudio Parreira
Publicado no Recanto das Letras em 01/07/2008
Código do texto: T1060455
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