OS PALHAÇOS
“Uma dúvida que sempre me assolou e é capaz de me assolar até agora é a questão do palhaço, quer dizer, sobre esse negócio do palhaço fazer os outros rirem, porque se ele faz os outros rirem, quem é que faz o palhaço rir?, será que ele ri de si mesmo?, ele mesmo se faz rir?, é possível isso?, mas isso não seria triste?, pois não é melhor rir de um outro palhaço do que rir de si mesmo?, e se for, porque nunca existiu o palhaço do palhaço?, mas, por outro lado, não seria verdadeiramente triste ter que rir de um outro palhaço?, não seria melhor se todos fossem auto-suficientes e pudessem rir de si mesmos?, mas nesse caso os palhaços perderiam o seu emprego, mas é estranho que eu, conhecido por aí como o adorável palhaço Cabelinho, entre nesse turbilhão de dúvidas que eu mesmo deveria saber responder, tudo bem que não sou um filósofo, talvez eu já seja quase um filósofo palhaço, ou somente um filósofo de sofá, eu não saberia responder a essas perguntas talvez pela minha condição atual, não é mesmo, doutor?, e me atormenta mais ainda, doutor, ter que duvidar do amanhã, não me incomodo em continuar assim, o problema é que eu queria sentir ainda o calor do sol na brisa da manhã, mas não posso, doutor!, como posso explicar isso?, se você não pode me ouvir.”
“Na verdade, nem sempre fui palhaço, doutor, eu só descobri essa vida de palhaço muito tarde, depois dos trinta, o que por si só já é incomum, e foi depois de muito sofrimento, sofrimento que agora percebo era absolutamente bobo e ingênuo, mas talvez os homens sejam todos assim, tartarugas que insistem em carregar cascos mais pesados do que deveriam, tendo sempre ao alcance a inteligente opção de usar um casco mais leve, e eu fui uma tartaruga até os meus trinta e três anos, a idade de Cristo, a idade em que eu me crucifiquei, é claro que posso ser claro, doutor! , se você pudesse me ouvir de fato, o meu problema é um clichê, problema de amor, tudo começou com um coração partido, e daqueles que fazem um homem perder o amor pela vida, mas eu reconheci a tempo que o meu desamor pela vida nada tinha a ver com esse coração partido, era algo que eu trazia de muito antes, descobri a cereja do Kierostami, saca?, esse desamor foi exatamente o que consegui curar ao virar o Cabelinho.”
“O Cabelinho era o remédio, a doença era o homem por trás do palhaço, Jaques Ribeiro, o homem tartaruga, e Jaques era o corpo, Cabelinho era a alma, é uma alusão que faz sentido, não concorda, doutor?, eu sei que não posso esperar resposta alguma de você, e me conformo, diferente do que eu fazia com Liviana, ela era a minha perdição, nunca me conformava com ela, nunca me conformava quando não me respondia, isso desde o início do nosso relacionamento, com as primeiras paqueradas, primeiras piscadelas, ela era sempre indiferente, nunca respondia, e quando estávamos casados, nunca me respondia o meu’eu te amo!’, e naquela época eu achava que o problema era o Theobaldo, meu melhor amigo, mas agora sei que o problema estava comigo mesmo, amava demais quando tinha amor de menos, apesar dos chifres serem reais, é!, não é um caso de incerteza como o daquele Dom Casmurro lá do palhaço Machadão, porque os dois foram namorados antes de eu ter me casado com ela, e o engraçado é que eu já sentia ciúmes dela só de vê-los namorando, e eu nem sentia tanta paixão por ela, acho que o que me incomodava era ver que Theobaldo tinha mais sucesso com as mulheres do que eu, eu sempre fui feio afinal, não é a toa que essa máscara de palhaço tinha me caído tão bem!”
“Doutor, no fim das contas, éramos um triângulo amoroso, éramos sim, porque os dois viviam se encontrando às escondidas, eu suspeitava no início, as conversinhas no telefone, as mensagens suspeitas na internet, eu sabia mas fingia não ver, tipo corno cego, dessas piadas que contam por aí, e o engraçado é que só agora eu consigo rir dessas piadas!, sempre me diziam pra não bancar o palhaço com as mulheres, e era o que eu tentava fazer o tempo todo, nunca me mostrava palhaço pra elas, pelo menos nunca quis me mostrar como palhaço, mas quase sempre eu era um palhaço, e isso me incomodava, mas o mais incrível, doutor, é que hoje eu faço questão de ser palhaço pra todos, a vida dá voltas!, eu sabia do rolo entre Theobaldo e Liviana porque trabalhávamos no mesmo lugar, numa escola, e é estranho pensar que naquela época eu dava aulas às criancinhas mas não tinha um terço da sensibilidade que eu hoje tenho em relação a elas como Cabelinho, dava aulas de matemática na quinta e na sexta séries, época bastante efervescente na vida das crianças, a puberdade, coisa que naquela época eu ignorava por falta de tato, só como Cabelinho é que eu descobri como lidar com isso brincando, o que também não sei se é o jeito certo, talvez nem descubra, por conta do meu estado atual, você bem sabe, doutor!”
“Liviana também era professora de matemática, dava aula pra sétima e pra oitava, e namorávamos comigo achando que dois e dois eram cinco e com ela batendo o pé que eram só quatro e pronto, mas apesar dessas divergências, nos casamos, até porque outro clichê que você deve conhecer, doutor, é o tal do ‘os opostos se atraem’, e o Theobaldo era o diretor da escola, ele foi quem me arranjou o emprego, porque se não fosse isso eu viveria desempregado, já que a minha ficha tava queimada por conta de uns meses que eu passei na prisão só por ter pichado o museu Mariano Procópio, bem no lugar que tinha sido o quarto lá do imperador, nem me lembro qual, se foi o primeiro ou o segundo, mas isso não vem ao caso!, coisas de uma juventude sem rumo, um passado importante sim, mas não mais importante que essa parte da Liviana, e...o problema do Theobaldo era que ele era um tremendo mulherengo, praticamente todas as professoras que trabalhavam por lá, até as casadas, já tiveram algum rolo com ele, foi até por isso que Liviana terminou com ele, ela sempre amou o Theobaldo, e casou-se comigo porque achou que poderia fazer ciúmes no mulherengo, mas ele não tinha ciúmes de mulher alguma, descobri isso tudo, doutor, das próprias bocas deles, acabaram de me confessar isso, e o mais curioso é que se tivesse sido quando ela estava casada comigo, eu teria ficado furioso, com certeza daria um tapa no rosto dela e um murro na cara dele, mas agora, não senti nada, acho que cheguei até a ter uma pontinha de felicidade pelos dois, deve ser porque eu estou assim, e eles também estão assim, doutor, se você estivesse assim como eu, veria os dois também assim como eu.”
“Casado com Liviana, eu achava que estava num mar de rosas e depois comecei a me incomodar com os espinhos e resolvi seguí-la, pra confirmar as minhas suspeitas que eram muitas, por causa das conversinhas, das mensagenzinhas no celular e na internet, já até falei isso, doutor, mas tenho certeza que essas repetições não poderão incomodá-lo, mas segui, segui ela e vi os dois, na maior cara-de-pau, como namoradinhos no cinema, no restaurante, passeando na praça e até no museu Mariano Procópio!, e eu até tinha pensado por um momento em pichar de novo aquele quarto lá, picharia assim ‘Liviana é uma piranha’, mas pensei duas vezes, mais de duas vezes, e percebi que eu gostava de ser chifrado, tinha prazer em vê-los achar que estavam me traindo às escondidas, e eles me confessaram também agora, recentemente, que sabiam que eu os espionava às escondidas, e sentiam prazer ao me fazer achar que eles não sabiam que estavam sendo vigiados às escondidas, me desculpe, doutor, mas a gargalhada é inevitável!...passada essa primeira fase das traições, eu simplesmente não tinha coragem de jogar raiva alguma na cara dela, por covardia, simples e pura covardia, não queria perdê-la, eu era um masoquista mesmo, doutor, se pudesse me ouvir, diria exatamente isso, eu sei, e eu queria parar de vê-los, não queria ser esse voyeur masoquista, mas não conseguia, e comecei a querer vê-los na cama, lutei o mais que pude contra esse desejo maluco, tentei flagrá-los na minha cama, na minha própria casa, mas os dois não iriam tão longe, e chegou a hora, cedi a todas as tentações e segui os dois indo pro motel, ele levava ela no carro dele, e eu, que nem tinha um carro, sempre tive pavor de pegar num volante, segui os dois num táxi, e o motorista do táxi falava, viu!, a gente acha que é só na Globo que taxista puxa papo, que nada!, esse falou de tudo, falou da sapatada que o Bush levou, do rebaixamento de um time desses pra segunda divisão, nem saco nada de futebol, falou do preço da gasolina, entrou tudo por um ouvido e saiu pelo outro, quase igual ao que está acontecendo aqui com você, doutor!”
“O carro estava indo pra muito longe, já estava ali na BR 040, indo pro Rio, e aí eu pensei, ‘será que o motel é em outra cidade?’, e aí o carro parou, mandei rapidamente o taxista parar, e fiquei ali, meio de longe, vendo o carro do Theobaldo parado no acostamento,’será que transariam ali mesmo?’, fiquei pensando nisso, e o taxista começou a achar tudo muito suspeito e quis rachar fora, não teve jeito, e eu paguei a viagem, depois eu me viraria com um outro táxi ou pedindo carona, se bem que já era de madrugada, e a estrada estava muito pouco movimentada, praticamente naquele trecho só estava o carro ali e eu bem atrás no meio do mato, de vez em quando vinha um caminhão, ou um ônibus, ou um carro, mas a falta de movimento era realmente estranha, só agora eu percebo, mas eu fui me aproximando, pra ver se os dois estavam transando mesmo, quando me dei conta fiquei aterrorizado ao ver que havia um caminhão gigantesco, desses de estrada mesmo, carregava não sei o quê, totalmente desgovernado indo em direção ao carro, então corri, corri que nem louco, gritando pra saírem do carro, e pela distância que eu estava dele dava pra ouvirem alguma coisa, mas acho que não ouviram ou não quiseram ouvir, é, engraçado, esse negócio das pessoas não me ouvirem, realmente não é de hoje!, gritei, me esgoelei, mas não pude chegar mais perto porque o caminhão iria atingir em cheio o carro, e atingiu, só de lado, mas o suficiente pra fazer o carro sair capotando no meio do mato, e ele acabou parando em pé, e nem explodiu, eu corri pra ajudar mas quando me aproximei eu vi que ela estava jogada no meio do mato, nua, desacordada, achei que estivesse morta, e ele estava ali de pé, tentando socorrê-la, também pelado, e estavam os dois com muitas marcas de sangue pelo corpo, eu queria muito ajudar mas fiquei constrangido porque ele estava pelado e ela ali também, poderia estar morta, e eu pensei ‘se algum carro passar e me ver ali com eles, poderia pensar que nós tínhamos matado ela, ou estuprado ela, ou estuprado ela e depois matado’, e ainda pensei estupidamente, até me envergonho, mas também acho graça agora, que poderiam pensar que se tratava de uma orgia no meio do mato, um ‘ménage-a-trois’, e, por tudo isso, por conta de toda aquela situação em si, preferi ficar escondido atrás de um cupinzal, vendo tudo ali às escondidas, como sempre tinha sido, e o que vi foi absurdamente enlouquecedor, e com certeza, doutor, se me ouvisse, não acreditaria!, a coisa dela, sabe, aquilo lá, a b*$&#a mesmo, pô!, não tem porque eu ficar com vergonha de falar isso, até porque não está me ouvindo mesmo, doutor!, a b*$&#a dela começou a ficar grande, isso mesmo!, inchou, não sei como, e ficou inchando, inchando, até ficar do tamanho de um boi, e Theobaldo ficou paradão ali diante daquele b*$&#ão, talvez estivesse em choque, ou excitado, sei lá, não saberia explicar por que ele não fugiu!, e ele acabou sendo engolido pela b*$&#a, saíram uns tentáculos de lá e puxaram ele pra dentro, foi apavorante, era como se ele se tornasse tipo um bebezão voltando pro útero da mãe, eu vi tudo, até os pés dele serem engolidos pela b*$&#a, e quando ele entrou completamente lá dentro, a b*$&#a começou a voltar aos poucos ao seu tamanho normal, até virar uma b*$&#inha de novo, do jeito que eu gostava, e Liviana se levantou, tranqüila, como se nada tivesse acontecido, e o corpo dela ainda estava do mesmo jeito, ainda magra e esbelta como antes, como?, se ela estava com Theobaldo lá dentro!, e ela andou até o carro, entrou no carro, ligou o carro, e o carro voltou pra estrada só com uns amassões, e eu fiquei ali suando de medo e sendo consolado pelos cupins, isso tudo aconteceu mesmo!, não é invenção da minha cabeça, não!, eu não sou louco, não, doutor!, posso ser masoquista, isso eu assumo, mas louco não!”
“Nos dias que se seguiram a esse episódio, eu vivi com aquela imagem da b*$&#a gigante da Liviana, aquilo tudo me voltava à cabeça e me perturbava profundamente, ainda mais por ela não ter voltado pra casa, ela sumiu, ele também, nem na escola apareceram, e, no mês seguinte, eu acabei sendo nomeado diretor da escola, já que, por insistência de Theobaldo, me tornei sócio da diretoria, os sócios éramos eu, Liviana e Theobaldo, e eu não me sentia apto a ser o diretor da escola, não me sentia apto nem pra ser um professor, mas segui em frente, iria ver no que ia dar tudo isso, mas o problema, doutor, era aquele b*$&#ão, no início, era uma mistura de pavor com preocupação, afinal, eu ainda amava a Liviana, e tinha medo de pensar que ela poderia ter se transformado em algum monstro, algo do tipo, tinha também um pouco de nojo, logo depois veio a obsessão, eu queria reencontrá-la só pra ver se aconteceria o mesmo comigo, eu queria também ser engolido pelo b*$&#ão, já disse, doutor, sou masoquista, não louco!, eu ficava imaginando se alguma outra mulher poderia fazer o que ela fez, mas não me interessava muito, eu queria era a Liviana, passei dois, três, quatro meses esperando que ela voltasse, mas ela não voltava, e a minha angústia crescia, e não sei se isso poderia ser esse negócio de coração partido, eu até tinha falado isso, mas que diferença faz?, você não lembraria, doutor, porque não me ouviu, não tenho por que esconder os meus sentimentos mais profundos e pervertidos, ainda mais pra alguém que não pode me ouvir, a questão era que pra todos os efeitos eu sofria de amor, desse coração partido, mas não confessava a ninguém o que tinha visto naquela madrugada, não por medo de acharem que eu estaria louco mas porque tinha medo de revelar o meu masoquismo, e comecei a ter uma daquelas dúvidas, de um filósofo de sofá, já naquela época, pensava se todo mundo não seria de certa forma masoquista, já que outro clichê que existe por aí é o ‘sofrer por amor’, se todo mundo ama, todo mundo sofre, se gostam de amar, gostam de sofrer, logo são masoquistas, isso explicaria essas musiquinhas, esses pagodes e sertanejos de ‘dor-de-cotovelo’, fazem sucesso e todo mundo gosta, mas são considerações muito ingênuas perto do meu caso, porque se bobear eu fui o único a ver aquele b*$&#ão, além do Theobaldo, claro!, e aí eu sempre me perguntava se eu amava Liviana de verdade ou não, isso tudo me deprimia de um jeito que depois de um ano eu era simplesmente um caco de Jaques Ribeiro, não suportava mais viver entre essa dúvida sobre a falta de amor que eu poderia ter dentro de mim e essa vontade de ser engolido pelo b*$&#ão, chegou o dia então em que eu resolvi cortar os pulsos, sim, resolvi me matar, doutor, é verdade!, as marcas, as cicatrizes ainda estão nos meus pulsos, mas a maquiagem do Cabelinho esconde elas, seria uma desgraça se soubessem que o adorável palhaço Cabelinho tinha sido um suicida.”
“Claro, doutor, que no fim das contas foi uma tentativa frustrada, porque cortar os pulsos é uma difícil arte, tem que cortar do jeito certo, senão fica todo mundo falando no ouvido, essa coisa de ‘suicídio é pecado’, ‘por que você fez isso?’, ‘você não tem amor pela vida?’, e uma série de moralismos baratos que ninguém levantaria se o caso fosse de um homicídio, vá entender esse mundo, doutor!, poderia ter dado um tiro na cabeça, como se eu fosse o Werther, mas ele amava a Carlota, e eu acho que não amava a Liviana, mas não foi essa a minha crucificação, não, pois nem tinha ainda os meus 33, e o curioso é pensar que Cristo tinha sido um suicida de uma certa forma, ele se deixou morrer, e ninguém fica perguntando a ele por que ele fez aquilo, mas os motivos dele foram nobres, muito diferentes dos meus, isso com certeza!, e esse blá-blá-blá no meu ouvido rolou, meu pai, minha mãe e minha irmã foram os primeiros a me visitarem no hospital com essas conversinhas, achando até que eu tinha feito isso pra chamar atenção, e é por isso que cortar os pulsos é a pior forma de suicídio pra quem realmente quer morrer, se eu quisesse chamar atenção, teria tentado pular de um prédio!, meu pai acabou pagando um pouco a mais pra que eu ficasse um tempinho a mais no hospital, sob a alegação de que eu teria que tratar uma crise de depressão profunda, eu não tinha gostado nada disso, até porque os enfermeiros viviam me enfiando uns sedativos na veia, e eu ficava mole, mole, mas o hospital foi onde toda a minha redenção começou, a longo prazo, foi muito bom eu ter ficado um tempo a mais, porque acabei conhecendo os Caçadores de Risos, uma dessas trupes de palhaços que vivem de alegrar pacientes em hospitais, nunca tinha achado muita graça nesse negócio, achava muito chato aquele filme do Patch Adams, mas até que eles me divertiam, em meio a aquele tédio todo, era um conforto ver os palhaços, mas eu estava ligado mesmo, doutor, era na única palhacinha da trupe, mesmo maquiada, com o narizinho vermelho, pude ver que era linda, de um jeito que Liviana nunca tinha sido, esse foi o início da minha via crucis.”
“O nome dela era Felícia, consegui conversar com ela no meu último dia de internação, antes de levar alta, procurei ela por todo o hospital, até que eu encontrei ela mais o resto da trupe alegrando as criancinhas com câncer, e aquilo realmente me comoveu!, por mais que só estivesse pensando nela, e eu conversei com ela e acabei descobrindo que ela era casada com o palhaço chefe da trupe, o nome dele era Cânio, isso me incomodou um pouco, doutor, mas nem tanto, já que eu já estava muito acostumado a dividir uma mulher com um outro homem, como eu tinha feito com Liviana, tentei arrumar um jeito de criar algum laço, um contato que fosse com Felícia, mas não rolou telefone, nem qualquer endereço, ela nem estava dando bola pro meu interesse, e, automaticamente, quando o marido dela, o palhaço Cânio, foi saber o que estávamos conversando, pra despistar, a única coisa que me veio à cabeça foi falar que eu queria me tornar um palhaço daquela trupe, aí sim!, marcaram um encontro comigo no dia seguinte dentro da área de lazer do hospital, eu fui lá, doutor, absolutamente sem jeito, porque é como já disse antes, eu ainda não levava jeito com criança, os Caçadores de Risos, como eu iria descobrir mais tarde, eram todos voluntários, ninguém ganhava nada com isso, todos tinham os seus empregos e na hora vaga bancavam os palhaços, na escola, entraram com uma liminar, na verdade foi um golpe, quase um golpe de estado, pedindo o meu afastamento da diretoria e do cargo de professor, alegavam, como era de se esperar, que eu seria uma péssima influência pras crianças, elas poderiam tentar suicídio algum dia, é o que diziam os golpistas, claro que eles não teriam nenhuma vantagem financeira com isso!, e eu nem entendo como é que eu posso ser sarcástico na minha condição atual, doutor, talvez seja um resquício de tudo que eu já passei nessa vida, você entenderia, eu fui lá, no dia seguinte, conversamos muito pouco e já me deram um narizinho de palhaço, e eu visitei os meus primeiros pacientes, muito desengonçado, muito desastrado, mas até que consegui fazer uma das criancinhas sorrir, indiretamente!, porque acabei escorregando, sem querer, por mais que os outros palhaços fizessem isso o tempo todo, escorreguei no próprio piso do hospital, por causa do sapato que me deram, um desses sapatões de palhaço, que tinha a sola lisinha, lisinha, na hora fiquei bastante envergonhado, não consegui achar graça nisso, mas agora eu não consigo conter o riso só de pensar naquele meu mau humor todo...”
“Doutor, eu estava gostando cada vez mais de bancar o palhaço, mas naquela época, eu achava que estava gostando porque Felícia estava gostando de me ver evoluir como palhaço, eu até tentava cantá-la, tentava tomar algum tipo de iniciativa, não conseguia, essa coisa dos palhaços consumia todo o tempo que eu tinha com ela, e o marido dela, o Cânio, era um sujeito tão bacana, tão melhor do que eu, que eu simplesmente não tinha coragem suficiente de tentar botar nele algum chifre, eu amava tudo nela, até as caretas que ela fazia eram lindas pra mim, e fiquei assim, um pierrô amando platonicamente, não é assim que se diz, doutor?, amando platonicamente aquela colombina, e o tempo foi passando, foi passando, até que comecei a imaginar como seria se Felícia tentasse me engolir assim como Liviana tinha engolido Theobaldo, e eu me envergonhava de pensar nisso, mas queria que isso acontecesse, não sabia mais se a amava mesmo ou não, se era amor platônico ou não, a questão era que eu imaginava e queria que ela me engolisse, e pensava se ela poderia fazer ou já ter feito isso com Cânio, e pensava se gostaria de ver essa cena, se ainda iria querer ser um mero voyeur, mas me incomodava profundamente a idéia de ser ainda um voyeur, eu queria agora era fazer parte da cena, e já desconfiava que Theobaldo tivesse morrido naquela, mas não me importava com esse mero detalhe, porque, doutor, como já lhe disse, além de masoquista, eu era suicida, o pior era que essa minha ânsia sem sentido começou a instigar em mim um desejo homicida, queria que Cânio morresse, pra que o caminho ficasse livre, acho que isso é normal, não é, doutor?, quem nunca passou por uma situação parecida?, ou melhor, muita gente pode ter passado por isso!, o amor, acho que não era amor, se não era, o que seria essa minha obsessão por Felícia?, pior que o amor platônico é o ciúme platônico, isso é terrível, nos faz querer morrer e matar.”
“Acho que já havia uns dois anos que eu tava nessa de palhacinho Patch Adams, alimentando aquela obsessão toda por Felícia, e aquela vontade de matar Cânio, sem perceber que já gostava muito de alegrar as criancinhas, até um dia que ela chegou pra mim e disse ter algo sério a me contar, o meu coração de palhaço disparou, mas era pra falar que os Caçadores de Risos iriam acabar, eu não entendi, pedi pra que ela explicasse essa história, mas não me explicou, só falou que aquele seria o último dia de palhaçadas, e como eu tinha reparado que havia um clima estranho entre Cânio e Felícia, achava que era por minha causa, resolvi ir até os dois e pedir desculpas caso eu tivesse feito qualquer coisa que tivesse desagradado eles, eu realmente comecei a me sentir culpado, doutor, aquelas criancinhas ficariam tristes e eu poderia ser o causador daquilo tudo, talvez os dois tivessem percebido de alguma forma a minha paixão, se é que era paixão mesmo, a minha paixão por Felícia, e o meu descontentamento em ver ela com ele, quase revelei a eles isso tudo pra pedir desculpas e continuar com os Caçadores de Risos, eu nem tinha percebido, doutor, que pela primeira vez, pra mim aquilo de alegrar as criancinhas passou a ter mais importância do que qualquer sentimento que eu nutrisse por ela ou por ele, mas Felícia resolveu conversar a sós comigo, e me revelou que o motivo do fim da trupe estava no marido dela, ele estava com câncer, um grave tipo de câncer, e ela deveria tomar conta dele, ele seria uma criança exclusiva pra ela, e ela seria a palhaça exclusiva pra ele, quando ela me disse isso, doutor, acho que não conseguiria reproduzir pra você como eu exatamente me senti naquele momento, eu tinha me sentido um lixo, ela e ele eram pessoas nobres e decentes, eu só era um lixo disfarçado de gente, e os Caçadores de Risos iriam acabar, eu nem te contei, porque os outros palhaços tinham se envolvido com problemas pessoais, casamentos, famílias, filhos, e naquela época, a época dessa revelação de Felícia, os Caçadores de Risos éramos eu, Felícia e Cânio, outro triângulo amoroso, um triângulo isósceles, o lado desigual era o meu, e só sobraria eu, Jaques Ribeiro, um lixo de gente, como o único Caçador de Risos, talvez fosse até por isso que ela tinha falado que os Caçadores de Risos iriam parar, no fundo ela sabia que eu não era moralmente indicado pra, sozinho, dar continuidade àquele trabalho tão digno e puro.”
“Agora eu tinha 33, e era a minha crucificação, doutor, concluí que eu era um lixo, não tinha amor dentro de mim, ela amava muito o marido, e ele lhe retribuía o mesmo amor, ela sacrificaria o amor às criancinhas por amor ao marido, e pra ela era um sacrifício mesmo!, pra mim não me custaria nada sacrificar o amor das criancinhas pelos meus desejos baixos, pra ficar com ela e pra matar o marido dela, eu poderia ter ficado feliz com a proximidade da morte dele, mas não fiquei, fiquei envergonhado por desejar a morte dele por tanto tempo, envergonhado por querer que ela fizesse comigo o mesmo que Liviana tinha feito com Theobaldo, porque ela era uma pessoa infinitamente melhor que Liviana, não seria capaz de uma monstruosidade como aquela que Liviana tinha feito, se é que aquilo foi realmente uma monstruosidade, doutor, e eu fiquei diante de uma dúvida desoladora, a mesma que tinha me assolado na época do meu primeiro suicídio, primeiro, doutor, porque agora viria o segundo, eu concluí que eu não tinha amor dentro de mim, Felícia não poderia me amar de forma alguma porque eu não poderia amá-la de fato, nunca tinha amado Liviana, o sentimento que eu tinha dentro de mim era destrutivo, sempre, sempre auto-destrutivo, era masoquista, como te disse, doutor, como se você pudesse se lembrar!, não ouviu nem da missa a metade!, fui até um daqueles prédios do calçadão, acho que o mesmo do qual um sujeito, certa vez, tinha se jogado, aquilo me inspirou, quis fazer a mesma coisa, fui até o último andar, ainda fiquei hesitando muito, mas fui em frente, fui até a laje do prédio, fui ao parapeito, sentei no parapeito de costas para a queda, fiquei remoendo, remoendo, se fosse pra pular eu pularia logo, de uma vez só, não iria dar chance pras pessoas pensarem que eu estaria chamando a atenção, não haveria novamente o mesmo erro, subi no parapeito e olhei pra baixo, já estava de frente pra queda, e vi que era muito alto, tive uma vertigem, de repente, vi voando perto de mim um urubu, pensei, ‘esse já tá de prontidão!’, ‘é só eu estar espatifado lá em baixo, que esse urubu não vai se importar de comer carniça no meio do calçadão’, fechei os olhos, iria contar até três, tinha que ser rápido, as pessoas lá em baixo ainda não tinham reparado no maluco que estava tentando se matar lá do alto do prédio, contei um, contei dois, pus o pé esquerdo pra fora do parapeito, tive uma certa inspiração romântica, poderia Felícia pensar que eu me matei de amor por ela?, isso me motivou por milésimos de segundo porque logo contei três, e movi o pé, o esquerdo de volta, veio à minha cabeça a imagem daquelas criancinhas chorando sem um palhaço, e aquilo foi como uma flor desabrochando, tomou conta de mim por completo depois de alguns segundos, com uma força muito maior que a que me impelia para a morte, e chorei, caí, pra trás do parapeito, e fiquei chorando sem parar, agora envergonhado por querer me matar, aquelas crianças se ficassem tristes poderiam até piorar os seus estados, e aí percebi que eu tinha amor dentro de mim, doutor!, o amor pelas criancinhas, o amor por aqueles sorrisos e gargalhadas que eu provocava com as minhas palhaçadas, isso cresceu rapidamente dentro de mim, naquele último instante, quando eu contei três, foi quando senti de verdade o calor do sol na brisa da manhã, pensei, ‘será que Deus fez isso?’, acho que não, porque ele deixou Cristo morrer pra fazer a humanidade triste, não me deixaria viver pra fazer as criancinhas felizes!, e é por isso que eu digo, doutor, essa foi a minha crucificação, uma crucificação ao contrário, porque vivi, vivi pra salvar as gargalhadas, ou melhor, doutor, morreu Jaques Ribeiro e nasceu o palhaço Cabelinho.”
“Doutor, naquele mesmo dia, me olhei no espelho, senti vergonha da minha cara de Jaques, e me maquiei, passei a maquiagem branca, o pancake, o batom vermelho, borrei a boca com o batom, fiquei com aquele sorrisão, o sorrisão que Jaques nunca teria, pus uma peruca vermelha e o nariz vermelho, mas não foi agora que nasceu o palhaço Cabelinho, foi depois, com as criancinhas no hospital, fui até lá, onde ficam as criancinhas com câncer, quis brincar com elas, e brinquei, brinquei como nunca tinha brincado em minha vida, levei um montão de peruquinhas iguais a aquela que eu estava usando, distribui pras criancinhas, havia peruquinhas de todas as cores, vermelha, azul, verde, rosa pras meninas, as peruquinhas tinham feito tanto sucesso que no dia seguinte, quando eu voltei lá, um menininho me viu e logo me chamou de “Cabelinho”, e depois todas as outras crianças começaram a me chamar de Cabelinho, achavam engraçado esse nome, toda vez que falavam Cabelinho caíam na gargalhada, e aquilo, doutor, me preencheu de um jeito que eu nunca poderia imaginar, foi assim que eu nasci, o palhaço Cabelinho, e talvez você constataria, se pudesse me ouvir, que só pelo fato de eu ter consciência sobre o Jaques e sobre mim, que somos o mesmo, claro!, só por eu ter essa consciência, isso não poderia ser um caso de dupla personalidade!, não é mesmo, doutor?, e as crianças, elas sabem rir, sabem gargalhar, é por isso que gostam dos palhaços, elas são, no fundo, no fundo, palhacinhos doidos pra montar um circo, e isso foi o que se sucedeu após a minha crucificação, e pensando nisso, mais uma dúvida daquelas de filósofos de sofá me assola, eu nunca vi ou ouvi falar que Jesus Cristo gargalhava, pelo menos, nesses filmes sobre a vida dele, ele é sempre tristonho, sério, no máximo dá aquele leve sorriso pacífico, mas por que nunca gargalhou?, será que é porque naquela época não existiam palhaços?, ou às vezes até alguns dos apóstolos eram palhaços, mas só aqueles que não eram palhaços tiveram o direito de escrever os evangelhos, ou talvez os apóstolos palhaços escreveram os seus evangelhos mas esses foram proibidos pela igreja, porque ela nunca gostou de gargalhadas, e com certeza acharia um insulto se, ao invés de mostrar Cristo falando os seus sermões chatos e tristonhos em cima de uma montanha, um evangelho mostrasse Cristo contando piadas e gargalhando com os seus apóstolos em um circo, a igreja sempre falou que o diabo era quem gargalhava, e isso não dá pra entender, se o diabo é do mal, porque gargalha, se gargalhar é uma coisa tão boa?, talvez o diabo tenha sido o primeiro palhaço de todos, a igreja é boba!, deveria rir, gargalhar, nunca vi um padre gargalhar, talvez tudo mude quando algum palhaço conseguir se tornar padre, mas isso não adiantaria, o papa não deixaria, taí, doutor!, seria o caso de algum palhaço se tornar papa, um papalhaço,... me perdoe, doutor, eu não resisti ao trocadilho, é engraçado!, se me ouvisse, teria de convir, mas não posso falar assim, eu nem sei se você é um desses religiosos fervorosos, um cristão, católico xiita, que com certeza, depois de me ouvir falar assim, me acharia o mais profano de todos os hereges.”
“Mas, se eu parasse por aqui a história da minha vida, daria um belo livro de auto-ajuda, um provável best-seller, essa coisa de redenção e final feliz que sempre vende, é claro que é bom escrever livros falando de sentimentos nobres e coisas do tipo, mas eu acho uma boa gargalhada muito mais edificante, e doutor, se um dia viesse a lançar a minha autobiografia, não omitiria nenhum dos meus sentimentos baixos e episódios vergonhosos, porque o ser humano é isso!, feito de altos e baixos, e esses baixos às vezes são muito baixos, e ninguém deveria esquecê-los, devemos sempre gargalhar de todos eles, como eu faço!, porém, depois de tudo que eu tinha passado, eu vi o diabo, doutor, o livro teria que ser um livro de terror, eu vi o diabo, e não é forma de expressão, não!, era o diabo mesmo!, e ele sorria pra mim, talvez seja porque sabia que Jaques era Cabelinho, eu estava no calçadão, talvez ele soubesse que eu já tinha pensado em me matar ali, e ele usava guarda-chuva, o que dizem por aí é verdade!, e eu estava no meio de uma dessas filas de abate, não é assim como chamam, doutor?, fila de abate, uma dessas em que oito pessoas são esterilizadas pelo guarda-chuva do diabo, o problema era que eu não estava na posição certa, descobri quando vi o diabo rindo pra mim, eu, sem querer, atingi a velocidade do diabo, só tinha me abaixado pra amarrar os cadarços do meu tênis que estavam desamarrados, isso só caía bem no Cabelinho, não em Jaques, e eu tinha me abaixado com tanta pressa, que fui muito rápido, e vi o exato instante em que o diabo iria me tirar o testículo direito, ele sorriu pra mim, ele passava entre as oito pessoas dançando frevo, ele estava do meu lado, cheguei a sentir até o seu bafo de enxofre, mas não tinha como ele me arrancar um testículo, eu estava na altura errada, estava me abaixando, ele acabou arrancando o meu olho direito, como você pode ver, não é, doutor?, foi tão rápido mas senti a pior dor de toda a minha vida!, aquela ponta de ferro do guarda-chuva entrando no meu olho e o meu olho sumindo da órbita, caí no calçadão, ironicamente!, onde eu deveria ter me espatifado a algum tempo atrás, e eu ainda vi, eu acho, o sangue se espalhando na minha frente, preenchendo as fissuras entre os ladrilhos do calçadão, foi a última coisa que eu vi antes de entrar em coma, um olho pra salvar um testículo, talvez fosse castigo por toda a baixeza da minha vida de Jaques, se eu acreditasse nesse tipo de coisa.”
“E Jaques é exatamente isso aí que você está vendo agora, doutor, um homem sem o olho direito, em um coma praticamente irreversível, e você ainda pensa em eutanásia, meus familiares ainda acham que eu vou voltar, e eu, Cabelinho, gargalho de tudo isso, aqui do outro lado, no início, achei estranho ver o meu corpo aí sendo operado, você abrindo a minha cabeça pra conter a hemorragia cerebral, mas depois comecei a gargalhar de tudo o que eu via, você e os outros fuçando no meu corpo, ah, como seria bom se eu pudesse te falar que esse tipo de experiência é incrível!, você também gostaria de ficar aqui do outro lado!, esse negócio de experiência fora do corpo, eu já acreditava nisso!, quando tinha uns dezesseis anos, estava dormindo mas podia ouvir a música que tocava no rádio, e simplesmente eu consegui sair do corpo pra ir até o aparelho, pra tentar apertar o botão pra gravar um Tim Maia Racional que tocava naquela hora, quando percebi que não era o meu corpo que estava fazendo isso, voltei pra cama, aquilo tinha a cara de um sonho, só não era porque eu podia ouvir aquela música rolando ali em tempo natural, foi incrível, e agora, é mais incrível ainda!, é tipo aquele filme “Ghost - do outro lado da vida”, com a diferença que aqui não rola aquela musiquinha xarope!, e aqui eu posso conversar com todos os outros pacientes em coma, e o mais incrível, eles também são palhaços, e o legal é que fora do hospital, se eu quiser ir pra mais longe, eu entro em um circo, com trapezistas, malabaristas, domadores de leão, elefantes, macacos brincalhões, será que isso é o inferno?, ou será que é o céu?, por que os evangelhos nunca falaram desse lugar?, deve ser porque nenhum deles foi escrito pelos apóstolos que eram palhaços, e eu encontrei, faz pouco tempo, como até eu tinha tentado te dizer, doutor, a Liviana e o Theobaldo, que não deixaram claro se morreram ou não!, se a morte foi naquele episódio ou não!, talvez estivessem só passeando fora dos seus corpos, mas esse tipo de informação, doutor, realmente não importa nesse circo de cá, Liviana e Theobaldo também estavam maquiados de palhaço, se eu soubesse antes, poderia tê-los chamado pra sermos juntos a nova formação dos Caçadores de Risos, ah, agora eu percebo que a máscara, a maquiagem, não era do Cabelinho, era do Jaques, porque no lado de cá, a minha alma é o Cabelinho, essa é a minha essência!, o Jaques é só o meu corpo, ah, doutor, se todo mundo soubesse que o Jaques é o Cabelinho, ninguém acreditaria!, eu venho tentando te falar isso, eu tento voltar pro meu corpo só pra te revelar essas coisas mas eu não consigo, acho que o cérebro do Jaques já não vai mais voltar a funcionar, uma pena!”
“Jaques é o corpo, Cabelinho é a alma, um filósofo palhaço lá no circo me disse que isso é platônico, eu quis que ele me explicasse isso, ele me disse que era por causa de um tal mito da caverna que o Platão tinha bolado, e não é que eu encontrei Platão!, ele estava com a barba pintada de vermelho, também era um palhaço, eu perguntei pra ele sobre esse negócio da caverna, ele nem deu bola!, porque estava brincando de equilibrista com um outro palhaço, que também tinha sido importante, um tal de Nietzsche, nome difícil, parece um espirro!, mas esperei os dois terminarem a brincadeira, o Ni..., esse do nome difícil, tentava se equilibrar andando sobre as costas do Platão, dizendo que o homem era uma ponte pro Super-homem, então comecei a discutir com o Ni...,lá-das-quantas, quem seria o palhaço, Clark Kent ou Super-homem?, ele não entendeu nada, mas eu é que não entendi, ele não falava do Super-homem!, depois, o Platão me disse que esse negócio do mito da caverna foi a maior palhaçada que ele já tinha feito, e todos caímos na gargalhada, e no meio dessa gargalhada apareceu um palhaço cor de rosa, essa coca é fanta, hein!, o Sócrates, não seria um jogador de futebol?, esse começou a brigar com Platão, a princípio achei que era por ciúmes, por causa do Ni...,lá-das-quantas, mas depois descobri que era por causa daquela palhaçada de Platão, porque o Platão tinha bolado aquela história da caverna mas espalhado pra todo mundo que quem tinha inventado a história era o Sócrates, que já não podia mais se defender dessa calúnia, porque já estava morto, tinha virado palhaço, ou não seria melhor dizer purpurina?, não!, coitado!, é bom não ficar zoando ele, até porque, doutor, palhaços não têm opção sexual, são assexuados, pode acreditar!, palhaços não mentem como Andy Kaufman, pelo menos, não exatamente, eu vi tanta coisa, doutor, que se você soubesse, se todo mundo soubesse, ninguém teria medo de morrer, vi coisas fantásticas, vi Hitler e Chaplin juntos brincando no picadeiro, um tentando imitar o outro, o Hitler bancando o vagabundo e o Chaplin bancando o grande ditador, tirando toda essa gente importante, também descobri que muita gente normal, simples, assim como eu, assim como você, doutor, era também palhaço, uma das mulheres que estavam na mesma fila de abate que me deixou em coma, que acabou de falecer, por causa de hemorragia interna, você sabe, foi você quem atestou o óbito dela, ela é uma palhaça e tanto!, ela está andando loucamente por todo o hospital se equilibrando em cima de uma bola, também encontrei mendigos, aquele que tinha morrido de frio no calçadão também, todos ótimos saltimbancos, uma pirueta, duas piruetas, bravo!, bravo!, o lado de cá, doutor, esse circo todo deixa qualquer Circ du Soleil no chão.”
“Todas as referências cinematográficas, se tivesse pelo menos me ouvido, talvez me diria que eu manjo muito de cinema, mas eu comecei a gostar, a ver, a conhecer cinema no lado de cá, é ótimo poder entrar nos cinemas de graça, sem pagar nada, sem que te incomodem, posso ver quantas sessões quiser, de qualquer filme que seja, ninguém me vê, ninguém me percebe, ninguém me ouve, assim como você, doutor, diante desse leito com o meu corpo, no entanto, eu estou gostando da idéia de escrever um livro, talvez eu lance toda essa história que eu tentei contar pra você, vai ser a minha autobiografia, e não ache, doutor, como se pudesse achar alguma coisa!, que eu esperarei poder voltar pro meu corpo pra fazer isso, não, conheci um médium na cidade do Chico Xavier, muito hábil com psicografias, talvez nem queira lançar a minha autobiografia, ainda não sei se é justo que o mundo saiba que Jaques Ribeiro é o palhaço Cabelinho, talvez eu escreva um conto fantástico, um romance policial, ou até um livro pra crianças!, ah, as criancinhas!, elas estão aqui!, eu arranjei um jeito de entrar nos sonhos delas pra deixá-las ainda felizes, mas só consigo nas cabeças das crianças, elas têm a mente aberta, se fosse tão fácil assim, já teria lhe falado toda essa história em algum sonho seu, talvez Freddy Krugger conseguisse entrar mais facilmente na sua cabeça, doutor, mas o que estou falando!?, me desculpe, essas minhas referências cinematográficas!, voltando aos livros, acho que seria uma boa idéia ter a ajuda daquele médium, comecei a pensar, a voar longe, com a minha imaginação, pensei, será que um dia eu poderia entrar pra Academia Brasileira de Letras?, seria o primeiro palhaço imortal, ou melhor, seria o primeiro fantasma imortal, talvez eu faça igual ao Platão, e lance as minhas histórias como sendo do Machado de Assis, o Machadão, ele seria o meu Sócrates, ninguém poderia descobrir que não seria verdade, e o Machadão, ele nem se importaria com isso!, eu conheci ele, doutor, lá no circo, gente fina!, um palhaço velho desses contadores de história, ele fica lá no circo sentado ao lado da esposa, uma palhacinha velha, e fica contando as suas histórias, a minha preferida, se tivesse me ouvido, doutor, eu até tinha comentado antes, como um exemplo, eu acho!, é a do Dom Casmurro.”
“E Felícia, eu queria vê-la, ver como está ajudando o marido, ver se ele já está melhor, mas eu prefiro não, porque simplesmente me contento em apenas me relembrar dela, esse lance de amor platônico foi realmente uma palhaçada genial do Platão, porque só agora que eu percebo a dimensão do amor platônico que eu sentia por Felícia, ela nunca soube dos meus sentimentos por ela, talvez, doutor, ela até suspeitasse mas tolerava naturalmente, como só as mulheres sabem fazer, mas o que me contentava era só captá-la, eu juntava cada gesto novo dela, cada novo tom de voz dela, cada sorriso, cada gargalhada que ela dava, cada nova expressão facial que ela tinha, cada nova roupa que vestia, e transformava tudo isso em diamantes que eu colocava num relicário que eu tinha exatamente dentro da minha cabeça, e não era a cabeça do Jaques não, doutor, era a cabeça do Cabelinho, essa que nunca pode morrer, nenhuma hemorragia cerebral pode danificá-la, tanto que eu posso, agora, a qualquer momento, me dar o desfrute de tirar da minha cabeça esse relicário, e de dentro dele tirar os diamantes, esses pedaços eternamente cristalizados da Felícia, e ficar me relembrando dela, é, eu acho que eu até amava de verdade a Felícia, como Jaques eu tinha dúvidas, mas como Cabelinho a dúvida não existe, nós poderíamos ter sido namorados, se ela não fosse casada e eu não tivesse sido uma pessoa tão abjeta, quer dizer, se o Jaques não tivesse sido tão abjeto, mas só poderia mesmo ter ficado com esse relicário, talvez, numa outra vida, eu ainda não descobri, doutor, por aqui, se existe esse lance de reencarnação, mas se houver uma outra vida, uma nova chance, eu vou tentar dar um jeito, não sei como, de reencontrá-la, a palhacinha do meu relicário, numa outra vida dela, e de tentar ser o namorado dela, não, melhor, ser o melhor namorado do mundo pra ela, porque aquela palhacinha vale infinitos diamantes, é engraçado, doutor, que como Jaques eu nunca conseguiria ser assim, meio bobo, meio romântico, talvez eu até use isso como uma tática pra fazer ela saber, através dessa provável autobiografia minha que vai ser psicografada, que eu a amava.”
“Você ficou agitado por todas as vezes que o meu corpo tinha dado aqueles picos de melhora dos sinais vitais, eu vi!, era eu tentando voltar pro corpo, no começo tentei muitas vezes, agora venho tentando cada vez menos, até porque não faço questão de voltar pra aí, eu prefiro mil vezes o lado de cá, que é colorido, sabia?, quer dizer, o mundo de vocês é que é preto-e-branco, igual a como os anjos daquele filme do Wenders viam o mundo, mas eu só queria te dizer uma coisa, doutor!, só queria uma chance de voltar por alguns instantes pra te dizer isso, por isso ainda não desisti de reanimar esse corpo aí, porque nem faço questão de te dizer tudo o que eu tentei te dizer agora, foi tudo perda de tempo!, da minha parte, claro!, mas eu só queria te contar a imensa e alegre descoberta que eu fiz, é o que estou tentando lhe dizer desde o início na verdade, a descoberta que eu fiz é capaz de responder alguma daquelas minhas perguntas iniciais, de um filósofo de sofá, lá do início do nosso diálogo, que na verdade foi somente um monólogo, eu só queria voltar pro meu corpo por alguns instantes, respirar o ar na brisa dessa manhã, sentir esse ar entrando nas minhas narinas e passando pelas minhas cordas vocais, sentir a musculatura da minha boca se contraindo e se distendendo, a língua se articulando com os dentes, o palato duro e o palato mole, só pra te dizer uma única frase: Doutor, todos somos palhaços!”
Jackson Leocádio
Publicado no Recanto das Letras em 25/10/2009
Código do texto: T1886973
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