Viva a Revolução!
Munenori, sozinho no quarto, foi distraidamente até a janela, observar o jardim. Queria meditar um pouco, antes do início da festa. Dentro da casa, ouvia a agitação dos preparativos. Já era costume, há algumas gerações, celebrar, durante aquele dia, a memória de Sekishusai - seu mais ilustre antepassado.
Nascido no Brasil, Sekishusai era filho de japoneses. Aos vinte e cinco anos de idade, começou a se preocupar com a própria situação. Não conseguia se interessar pelas mesmas coisas que a maioria das pessoas. Não gostava de televisão, por exemplo. Ficava dentro do quarto, lendo. Também gostava de sair. Nas ruas, em cada janela, uma televisão ligada.
Ele gostava de sair para ver lugares. Pessoas. Visitava regularmente museus. Frequentava estréias do cinema. Teatro. Gostava de tudo aquilo e se dedicava naturalmente às suas paixões. Sentia orgulho do quanto tinha evoluído em conhecimento e capacidade de apreciar arte. Sentia sinceramente que aquele aprendizado contribuía imensamente para sua vida. Sentia-se uma pessoa melhor por isso. Mas por mais que aquilo o melhorasse, ele ainda não conseguia ser uma pessoa boa – pelo menos não em relação ao que o mundo esperava dele.
Descobriu que muita coisa ainda lhe faltava. Certamente é bom aprender a rir-se da ganância, por exemplo. Sekishusai tinha aprendido isso. Mas além de não apreciar a ganância, também não conseguia apreciar uma reunião empresarial. Ele não conseguia apreciar qualquer tipo de trabalho remunerado. As implicações negativas disso eram óbvias. Era difícil encontrar emprego.
É claro que ele gostaria muito de ser escritor, ou músico. Ator. Pintor. Sentia-se atraído por diversas atividades, mas nenhuma delas dava dinheiro. Quer dizer, o Frank Sinatra ganhara muito dinheiro, mas você não poderia seguir uma carreira de músico achando que ela seria como a do Frank Sinatra. Você precisa de muito talento para entrar no lugar do Frank Sinatra - e se você não tiver esse talento, então
nem adianta tentar. Mas mesmo que você tenha o talento, é preciso mais que isso.
É preciso sorte. Indicações. Oportunidade. Qualquer coisa. Coisas que não se pode controlar. Algo além das suas capacidades. Como uma roleta. Não basta conhecer o jogo. Talento é só o preço do pingo. Só para sentar na mesa. Ganhar o jogo, é outra coisa.
Se você pretende ter uma esposa e comprar coisas bonitas pra ela, se pretende ter filhos e segurança para pagar possíveis contas astronômicas de hospital, ou qualquer eventualidade, ou faculdade, ou uma casa decente... – desnecessário enumerar o que faz do dinheiro uma necessidade. Se você pretende ter tudo isso, não pode mais apostar num jogo tudo o que tem. Precisa de algum tipo de solidez,
mesmo que continue jogando – apenas por lazer. Tentando, sempre, ganhar – mas sem depender disso.
Os empregos "de verdade" não eram de músico, ou escultor. Era como se o mundo dissesse "Você está se dedicando a baboseiras. Você tem razão em dizer que isso tudo merece certa atenção e torna as pessoas melhores, mas, ainda assim, são baboseiras. Nós pagamos fortunas a determinados gênios. Cobrimos outros tantos idiotas em ouro por tantos ou tantos anos, só pra manter as pessoas entrando. A roleta girando. Mas isso aí é ocupação para uns poucos. É suficiente.
Não precisamos de mais do que isso no topo. O realmente importante está aqui do outro lado! É por essas outras atividades, serviços e produtos que estamos pagando bem e regularmente... É isso que queremos que você aprenda. É a isso que você deve se dedicar. É a isso que precisamos que você se dedique." Um mundo estranho. Em cada janela uma televisão ligada.
Então ele parou de sonhar. Não como quem deixa que os sonhos morram, mas como quem se levanta cedo para trabalhar e conquistar o sono tranquilo da noite seguinte. Sekishusai parou de visitar museus e voltou à faculdade. Era formado em filosofia - a verdadeiramente vã filosofia. Por este caminho, nem os maiores gênios parecem ganhar dinheiro. Apenas os oportunistas. A mensagem do mundo para os filósofos era algo do tipo: “Tudo bem, sabemos que isso aí é uma coisa boa. Mas não estamos realmente interessados. Concordamos em não matar vocês. Talvez até admirá-los um pouco, da boca para fora. Mas fiquem quietos aí no seu canto, seus malucos esquisitos...”
Sekishusai voltou à faculdade. Mas não voltava pelos mesmos motivos de antes. Da primeira vez, buscava conhecimento. Agora, era uma atividade profissional.
Especializou-se em direito tributário. Dedicou-se com afinco. Tratando os livros como se fossem Mozart. Cada caso como um poema. Buscou a fundo o espírito de sua arte e procurou a cada dia, a cada hora, ser melhor do que era antes. Num terreno tão fértil quanto o do direito tributário – criado pela eterna luta dos governos cobrando tributos, contra as empresas que tentam deixar de pagá-los – este esforço foi suficiente. Sekishusai floresceu. Apenas alguns anos após o término dos estudos, já era um milionário. Pegava todos os casos mais altos, e ganhava a maioria deles.
Apesar da tradição então inerente à profissão, ele não comprou um BMW. Falava sério, anos antes, quando dizia não se importar com dinheiro. Que só fazia questão de tê-lo na quantidade necessária para sentir certo conforto e segurança.
Não precisava de nada além daquilo. Há, inclusive, uma história divertida sobre os argumentos de Sekishusai para usar um carro modesto. Segundo contaram os pais dos pais de nossos pais, certo dia ele encontrou-se com um colega, no estacionamento, e este disse que o carro era necessário não apenas pela tradição, mas também para passar aos clientes a impressão de que ali estava um advogado bem sucedido. Os clientes precisam disso, ele argumentava. Os clientes compram isso. Sekishusai teria respondido algo como: "Compreendo seu ponto de vista, colega. Mas não trabalho para meus clientes. Ou, antes, trabalho apenas acidentalmente para eles. Não me importa a impressão que fazem de mim. Meu trabalho é um exercício íntimo de auto-superação. É a minha impressão que conta. É apenas a mim que presto contas, e que preciso impressionar. Posso dizer com sinceridade e orgulho que um BMW não é o tipo de
coisa que me impressiona. Nunca foi, mesmo quando eu não podia comprá-los. Um carro não me satisfaz. O que eu realmente preciso, para ficar satisfeito, é sentir que acordo a cada dia como um advogado melhor que ontem. Além disso, é claro, também é bom ganhar os casos que disputo - como fiz agora há pouco, antes de vir
para o estacionamento. Sinto-me realizado. É bom ter um carro para voltar até minha casa, mas contando que ele seja um bom carro, não preciso de mais do que isso. Se você realmente precisa de um BMW quando chega na garagem, talvez não seja comprando carros que você vá melhorar sua vida."
Sekishusai continuava ganhando. O dinheiro se acumulava, e ele não era homem de desperdícios. Começou a abrir suas próprias empresas. Não porque tivesse tomado gosto pela coisa. Não era isso. Na verdade, imaginava uma vida mais confortável se pudesse voltar aos tempos de jovem, admirando as quase esquecidas "baboseiras". Mas sabia que o mundo devia estar repleto de pessoas como ele quando jovem. Agora, Sekishusai era um advogado milionário e sentiase
em condições de fazer algo por essas pessoas. Naquela época, ele precisara se dobrar para o mundo e desistir de seus sonhos, em troca de segurança. Agora, ele queria oferecer segurança a quem tivesse sonhos.
Abriu empresas. Pequenas, mas envolvendo um capital considerável. As empresas prosperavam com a mesma eficiência de sua carreira jurídica. Procurava áreas lucrativas e, ao mesmo tempo, adequadas ao seu sistema de gestão. Tudo baseado num rígido sistema hierárquico, em que o de cima toma as decisões mais importantes e tem menos trabalho. Assim, quanto mais alto na hierarquia, havia mais tempo livre – ao mesmo tempo, mais responsabilidade. Procurava, para os
cargos mais altos, gente que também se interessasse por "baboseiras". Os salários eram altos e, consequentemente, os cargos eram disputadíssimos. Ele escolhia a dedo sua equipe superior. Descobria mestres empresariais onde ninguém havi pensado em procurá-los. Costumava dizer "se você acha difícil elaborar uma
estratégia de vendas, nunca passou uma semana consertando um verso."
Mais do que empregados, Sekishusai procurava por amigos. O homem deve se auto-aprimorar, e depois procurar afinidades, ele dizia. Agora, seu próprio estágio de auto-aprimoramento já era notável em diversas áreas. Era um verdadeiro artista, e sabia transformar arte em atividade lucrativa. Procurava amigos onde encontrava afinidade. Não procurava empregados, mas artistas. Então tentava mostrar a eles
como a arte podia trabalhar também pelas coisas práticas. Artistas têm um jeito próprio de se fazer entender. Normalmente, ele conseguia. Estimulava-os a fazer o mesmo. Procurar por mais amigos, ao invés de empregados.
Os braços da sua influência não paravam de crescer. Braços corporativos e afetivos. As empresas do grupo Sekishusai esmagavam a concorrência em todas as áreas que ingressavam. Logo, trabalhar para Sekishusai era algo como, em certo tempo e lugar, fora trabalhar para a Microsoft. Depois, ficou maior que isso.
Em certos países, o poder da corporação Sekishusai passou a competir com o poder do governo. Em algum tempo, |Governo| era um conceito diferente do que tinha sido até então. De repente, sem que ninguém pudesse dizer exatamente quando aconteceu a derradeira transformação, Governo era realmente apenas um órgão decorativo. Algo como a antiga família real inglesa. Conservado ali para funções amenas como, por exemplo, manter cada país como uma entidade cultural própria, com sua língua própria, fronteiras e pequenas diferenças históricas e sociais que nada tinham de decisivo nas decisões do Estado.
Os jovens, que costumavam sentar-se nos bares pra discutir qual faculdade lhes interessava mais, agora discutiam em qual setor da Sekishusai gostariam de trabalhar. Em pouco tempo, além das escolas preparatórias oficiais, havia cursos e mais cursos – apostilas... – inúmeros métodos e doutrinas ensinando como subir hierarquicamente. O que estudar além da área profissional propriamente dita. Como fazer. Pelo que se interessar. Mil traços que pretendiam ser formadores do perfil desejado para líder.
Mais do que isso – os valores da empresa passaram a ser valorizados socialmente. Um garoto que mostrasse, na escola, inclinações artísticas e criativas, era logo visto como exemplo e lhe atribuíam, por cima, um futuro próspero e promissor. Nas boas escolas oficiais, qualquer garoto de vinte anos conhecia Aristóteles como os de certa época conheceram Beatles. Jorge Luis Borges como Cavaleiros
do Zodíaco. Rafael como Tarantino.
Os grandes líderes levavam uma vida quase que completamente ociosa, oficialmente. Não era cobrado muito deles. Precisavam apenas continuar engajados em qualquer tipo de atividade que levasse ao autoaprimoramento. Além disso, também deviam manter-se informados sobre o andamento da máquina sob seus pés. E isso era fácil, através dos vários e eficientes jornais setoriais, aos quais eram somados eventuais relatórios específicos e pessoais.
Havia casos fantásticos, como o de Deluv Rien – durante o período Muromachi. Um dos Três Maiores do setor agrário. Conta-se que seu setor funcionava com tamanha eficiência que ele teria ficado três anos seguidos sem precisar tomar uma decisão sequer. Um dia, inexplicavelmente, discou para sua secretária e disse: "Por favor, avise
a todos que é preciso atrasar em um mês o plantio do feijão, para este ano, nas fazendas da área 66". Ninguém havia previsto aquilo, mas a ordem foi cumprida e a chuva também atrasou, como sua ordem sugeria. Uma decisão que economizou uma pequena fortuna, de outra forma necessária para a irrigação artificial.
Quando interrogado sobre a previsão, Deluv explicou que foi capaz de prever o atraso da chuva por dedicação à pintura. Tentava, há alguns anos, pintar determinada cena de céu sombrio e vento carregando folhas, mas não conseguia atingir seu objetivo sobre a tela. Estudou diversas técnicas de outros pintores, até decidir estudar a própria natureza, como vários já haviam feito antes dele. Nesse
caminho, enquanto estudava sobre a luz e outras coisas, aprendeu também sobre condições climáticas. Movimentos do ar e das nuvens.
Por mais que aprendesse e desenvolvesse novos métodos para o quadro, ainda não se dera por satisfeito. Não conseguia fazer o quadro "sair". Então continuou mergulhando mais e mais fundo no assunto. Não era difícil, com tantas pesquisas feitas na área pelo seu próprio setor produtivo. Ele tinha, à sua disposição, todos os dados climáticos de várias partes do globo, coletados de forma confiável e organizada. Se quisesse ver um gráfico pluvial de toda a China durante dez anos, ou de apenas uma cidade no Chile, durante dez dias, bastava alguns minutos no computador da corporação.
Tornou-se especialista em diversas áreas ligadas ao clima e estava, há algum tempo, pesquisando sobre a previsão de chuvas. Como suas pesquisas indicavam o atraso, e este não estava previsto pelo jornal setorial, deu a ordem por si mesmo. Mais tarde, enviou uma carta ao setor meteorológico. Dentro do envelope, sua pesquisa pessoal sobre a formação da chuva, que havia desenvolvido na busca de aperfeiçoar sua arte - a pintura. Esse documento é publicado até hoje, por sua importância história e científica. Alguns chegam a dizer que há duas histórias da previsão do tempo - uma antes do documento, quando ela seria ainda incerta e apenas estimativa, e a previsão do tempo como nós a conhecemos hoje, possibilitada pelas descobertas de Deluv Rien.
Os progressos eram tremendos, em todas as áreas. Tudo prosperava. O tempo passa. O homem é frágil como folha ao vento. Sekishusai havia morrido naturalmente. Mas seu filho, Kojiro continuara sua obra. E os filhos dele também. E os filhos dos filhos dele e assim por diante... Agora, Munenori, observando o jardim, lutava para se manter à altura da dignidade do seu nome de família.
Repassando mentalmente a trajetória de Sekishusai, Munenori prestava uma homenagem íntima ao seu mais ilustre antepassado. Depois dele, geração após geração, o mundo viu surgir prosperidade. Sekishusai tinha começado aquele sonho e era visto, por quase todos, como um pai. Então era natural que não apenas a família de Munenori, mas também toda a família da corporação Sekishusai - no mundo inteiro - comemorasse a memória dele durante o dia dos pais.
As folhas morrem e crescem de novo, só para cair e nascer outra vez. Tanto feito... Ainda tanto por fazer... Munenori queria meditar um pouco, antes da festa. Era um dia de alegria, e ainda assim...
Ainda assim ele se assustou quando ouviu o barulho de algo se quebrando, talvez na cozinha. Não teve tempo de pensar ou fazer muita coisa. Poucos minutos depois dessa primeira perturbação da ordem, eles já estavam dentro do quarto. Sujos. Gritando. Quatro deles. Dos que não trabalhavam para a corporação. Os rebeldes. Como tinham conseguido chegar até ali? Os bárbaros. Enlouquecidos.
Desempregados. Atirando.
A cabeça de Munenori explodiu na primeira rajada. Pequenos pedaços
ensebados de sangue que se espalharam no chão do quarto, para serem impiedosamente esmagados pelos invasores e suas botas enlameadas que não paravam de pisotear. Sempre atirando. Loucos.
Chutaram ainda algumas vezes o corpo inanimado crivado de balas, e foram embora correndo. Ainda gritando. Espalhando a Boa Nova. “VIVA A REVOLUÇÃO!”, “VIVA, VIVA!...”
buk
Publicado no Recanto das Letras em 26/10/2009
Código do texto: T1888927
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