Robert e as rajadas de vento
Uma rajada de vento. Suspiro. Outra. Lá estava ele, Robert O’ Beasley era seu nome, nome de gente grande diriam alguns, ou Robby, como outros o chamavam. E lá estava o grande homem no topo de um grande prédio da cidade grande, grande até demais pensava ele às vezes. Tivera uma grande vida até então, o Robert. Uma grande carreira também. Por que então se sentia tão pequeno?
Um passo à frente. Cuidado, Robert! Você está muito próximo! É mesmo uma vista linda, não? Sim, ele sabe. Ele admira essas coisas agora. Uma vez não tinha tempo pra isso, mas agora admira. O tempo faz isso com as pessoas. Você quem o diga, hein Robby? Lá se vão quarenta e tantos anos, vinte e quatro só de carreira. Começou aos dezesseis, em um pequeno grupo teatral da sua pequena cidade de origem, com públicos pequenos, de cinqüenta, cem pessoas às vezes. E parecia tão grande aquele amontoado de gente ansiosa por uma pequena demonstração de cultura. Mesmo que fossem dez ou vinte pessoas, como acontecia muitas vezes, ainda parecia muito para o pequeno Robert. Mas mesmo assustado, mesmo nervoso, Robert mostrava seu potencial já naquela época, e isso não passou despercebido.
Já aos dezessete fora convidado a participar de um grupo maior em uma cidade grande. Aos vinte, começou a aparecer na tevê e aos vinte e cinco era praticamente uma celebridade. Claro que nem tudo eram flores na vida de Robert, durante esse período ele perdeu a mãe, casou-se e divorciou-se três vezes e começava a ter pequenos problemas com álcool e alucinógenos. Mas não é sobre isso que quero falar, o que importa é que Robert O’ Beasley deu a volta por cima e aos trinta e três voltou ao mundo das celebridades como “Joseph Hofman” em “Encurralados”, um seriado de muito sucesso e seu personagem, adivinhem, sim, era a estrela: um espião durão e mau-humorado que não tinha papas na língua e era muito, muito bom no que fazia. Além disso, era extremamente respeitado pelos aliados e temido pelos inimigos. Esse seriado era sobre uma disputa ente espiões de um mesmo país, eu acho. Mas bem, isso não importa. O fato é que o seriado encheu o saco e foi cancelado há cerca de dois anos. E isso não foi nada bom para o grande Robert. Ele havia representado seu personagem de uma forma como ninguém mais conseguiria, ele que fez aquele seriado funcionar, ele que cativou milhares de pessoas ao redor do mundo. Como poderiam dispensá-lo agora? Depois de tudo que fez pelo personagem e pelo seriado? Sentia-se um cachorro velho, o Robert.
Mais um passo e outra rajada de vento. E outra. O vento parecia tentar impedi-lo de ir em frente, mas, ao mesmo tempo, parecia convidá-lo a desfrutar do prazer que é ter o rosto banhado por uma brisa forte mas reconfortante, no silêncio do ruído que só o vento sabe fazer. Mais um pequeno passo. Um frio na barriga. Robert se assustou. Uma compreensão súbita do que estava fazendo apossou-se de seus pensamentos e causou-lhe pânico, nervosismo, ansiedade. Exatamente do mesmo modo como lhe acontecia quando as cortinas estavam prestes a se abrir e alguém sussurrava: “Deve ter umas cento e cinqüenta pessoas lá fora”. Isso queria dizer cinqüenta, é claro.
De repente, Robert sentiu-se em casa, eram acalentadoras aquelas emoções tão humanas diante de algo novo. E desta vez, era algo realmente novo. Algo que ele nunca havia feito antes e jamais faria de novo. Robert olhou ao seu redor, era mesmo lindo. Outra rajada. Robert perguntou, sussurrando: “Quem eu sou?” Nenhuma resposta. “Quem eu sou?” Novamente, nada. Robert gritou, desesperado, aos quatro ventos: “Quem eu sou?!” Robert pensou, era realmente confuso. Mas Robert estava conciso, apesar de perdido; e, meio tonto, deu mais um passo. E o vento tomou conta de seu coração.
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Hugo Fazzi Verne
Publicado no Recanto das Letras em 27/10/2009
Código do texto: T1890441
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