Texto

Terrível Sangue Preto

Com seu casaco estampado apenas pelo sol, e se arrastando pela calçada, na travessa da Rua Paraíso com a Constantinopla, um caquético senhor de idade com o vento roubando seu resto de idade, subia a rua rufando suas botinas que emprestavam ao chão um pouco de história que anda.

Sabia que aqueles não eram passos comuns. Não comuns de se ver, não comuns de se esquecer. Regurgito aqui as palavras que ouvi dele na passarela do seu assovio: ele assobiava cantigas de ninar que pareciam ser dirigidas a ele mesmo e que até adormecia os pássaros sem coragem.

Passeando por entre arbustos sem galhos, extinguidos pelo verão desertificante que assolou a área no mês passado, avistou uma moçoila jovem e atraente que caminhava desfilando seu ventre recém bronzeado com um piercing no umbigo que ganhou do namorado no aniversário de dois anos de seu primeiro ato de prazer silvestre.
Ela estava desacompanhada. Parecia estar só. Parecia, pois o senhor andarilho disforme a seguia de longe, acompanhando-a com seu olhar anorexicamente assassino.

Logo foi ele se aproximando.

Veja que pecado. O andarilho arremessou nela um objeto. Direto e abjeto, o que ele lançou, o instinto de vida da moça desviou, declinando assim o golpe que marcou meu susto.

Determinado em sua covardia, tentava correr atrás da moça, mas inexplicavelmente começara ele a lutar consigo mesmo. Lutava e se debatia como um cão sem raça correndo atrás do próprio rabo.
Naquele momento o céu ficou escuro. Escuridão... Um sangue jorrava de seu peito, escuro, irreal. O homem a beira de sua extinção, alucinava...

Dizia ele: “Corre dissolvido o bolo de chocolate meio amargo que entope minhas veias.”

Se era um Infarto ou Alucinação, não sabia mais não...

Absolvido estava da sua dissolvida e doce covardia? Entre veias e teias, alugou ele o corpo para quem?

Para este Terrível Sangue Preto...
Caio Garrido
Publicado no Recanto das Letras em 27/10/2009
Código do texto: T1891024

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Comentários
29/10/2009 02h25 - buk
"...o homem, a beira de sua extinção, alucinava" Muito bom.
28/10/2009 11h42 - Louco Rutra
insólito! show!

Sobre o autor
Caio Garrido
Ribeirão Preto/SP - Brasil, 31 anos
34 textos (440 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 08:19)

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