ASS HOLE STORY
DE POESE
Se fosses um anjo,
Seria tuas asas,
E levar-te-ia
Ao paraíso
Mais belo
Que só perderia
Ao teu sorriso
Singelo.
Não era uma vez, nem duas, nem três as vezes nas quais um homem provisório tentava conquistar uma mulher definitiva com esse poema, também um tanto provisório. Mas ele não sabia o que estava escrito nesse poema, nunca o lera. Também não fora o poeta de versos tão enxutos. Na verdade, o sujeito nem sabia ler nem sabia escrever. Ganhou o poeminha de um forasteiro que se abrigara em sua casa. Este sim, um poeta de mão cheia, que escreveu os versos supracitados como quem palita os dentes. Era só um tomás-da-bolandeira, que para o analfabeto era um verdadeiro don-juan. Seleção sexual, a vantagem do estranho era saber ler e escrever, e escrever poesia!
- Deve tê levado muita muié no papo, né memo?
- Mais ou menos! Elas gostam de poesia, mas na hora do vamos-ver...
- Escreve pr’eu uma dessas puresia bonita que ocê faz!
- Poesia requer tempo, meu caro amigo!
- Ocê é desses alumiado que faz tudo assim num instantin...
- Isso é um grande equívoco! A genialidade não se mede pelo tempo.
- Ocê fala assim tão bonito, em tão poco tempo, escreve bonito em menas tempo ainda!
- Não dá, estou sem inspiração.
- Faz favô, quero uma muié que sabe lê. E se ela fô lê um purema que achá que é meu, quem sabe inté casa cu’eu!
E assim, o poeta estrangeiro, fatigado e sem inspiração, compôs o bendito poema. E assim, entrou em cena uma nova faceta do sujeitinho que não sabia ler - a do usurpador de poetas -, tão comum entre aqueles que pretendem conquistar uma mulher à moda antiga. Mas, nesse caso, tratava-se de um usurpador que nunca iria convencer em sua usurpação.
MERETRIX ET USURPATOR
O usurpador de poemas queria um poema porque tinha visto em um filme que um certo mocinho conquistara uma mocinha com um “purema”, e também porque achava que, se casasse com uma mulher que sabia ler, sua vida iria mudar. Ele morava na zona rural da cidade, com um velho porco e uma jovem puta, com os quais mantinha uma relação até cordial, exceto quando o primeiro fazia da sua casa um chiqueiro e a segunda fazia da sua casa um motel. O porco, obviamente, por ser um porco, não sabia ler, mas a puta, ela sim, sabia ler, e sempre teve curiosidade para ler aquele “purema” que o analfabeto não deixava que lesse, porque ele queria que mulheres puras o lessem. Se ele lhe mostrasse essa poesia, poderia ser mal escrita, brega ou cafona, poderia não ser grandiscoisa, ela, justo uma puta cara e formosa, daria para ele de graça. Ela volta-e-meia, meia volta vamos dar, imaginava que ele poderia nutrir um certo amor por ela, tal qual um jardineiro fiel que rega silenciosamente suas plantas e nem se dá conta de que a flor da moita, a mais escondida, sempre fora a sua preferida. No fundo, no fundo, tinha esperanças de que ele um dia viesse a enlouquecer de amor por ela, um amor inesperado, escondido lá no fundo, um amor reprimido, tal qual o amor de um rubião por uma sofia. Mas, entediada de tanto criar raízes, ela resolveu tomar a iniciativa - a árvore andou. Uma belora, após mostrar a sua flor da moita para um jovem rapaz que queria perder a virgindade, ao ler a Bíblia, exatamente o capítulo 19 do Gênesis, se inspirou no sagrado incesto que as filhas de Ló cometeram, e pensou numa forma de tirar a virgindade do seu príncipe encantado e analfabeto. Ela o entupiu de vinho e o levou pra cama. Isso aconteceu, mas não mudou nada - o sujeitinho provisório encarou aquilo como uma situação provisória, e não deixou ela ler o seu, ou melhor, o não-seu poema. A puta, que era definitiva, conseqüentemente, como era de se esperar, maldisse todos os amonitas e moabitas, jurando que nunca mais daria por amor.
DE QUASI UXORIBUS
O homem que queria casar com uma mulher pura trabalhava como camelô no centro da cidade, vendendo guarda-chuvas piratas, e sempre com o cú na mão diante de qualquer indício da aproximação de fiscais da prefeitura, uns caras sem coração que não hesitariam em acabar com o ganha-pão de qualquer reles esfomeado. A culpa não era dele, se sem querer funcionava como um parasita do sistema. A culpa, como sempre é, é do sistema, tão burro por vender os guarda-chuvas originais por um preço que não cabe no bolso de um consumidor normal. Daí, a proliferação de jack-sparrows pelas ruas juizforanas atendendo às necessidades do consumidor normal e, diga-se de passagem, mortal. O pirata da puta bíblica vendia de todos os tamanhos, todos os modelos, todos os preços acessíveis que terminavam sempre nos 99 centavos, um recurso esperto, pois fingia, às vezes era verdade, sempre não ter 1 centavo de troco, arrebatando mais 1 centavinho para o seu cofre, que era, perdoa-me o leitor mais sensível, o próprio cú do porco com o qual vivia. Sabe como é, né ? De moedinha em moedinha, o porco enche o bucho, literalmente. Porém, não era esse lucro que animava o torturador de porcos nessa labuta diária, e sim a possibilidade de encontrar a mulher da sua vida, diferente daquela mulher da vida que tinha em casa. Aprendera com aquele poeta, o original (lembra?), alguns macetes, como, por exemplo, reparar se há o anel naquele dedo da mão direita das mulheres, o dedo anular direito feminino, o qual é bloqueado nas mulheres compromissadas. Também o outro dedo anular, o da mão esquerda, bloqueado nas mulheres casadas, relativamente mais difíceis de se conquistar. No entanto, o poeta o advertira sobre a relatividade de tudo isto nos dias atuais: “Um anel desses não tem muito valor nos dias de hoje, uma mulher pode usá-lo por usar, para fingir que é compromissada só pra atrair os homens, ou até pra afastar os homens, e se for casada talvez até rompa com o marido diante de uma proposta indecente, ou ainda fique com ele por muito tempo, e se for só compromissada, é pior ainda, porque não saberíamos direito o nível desse compromisso, pode estar tanto namorando firme quanto ficando ou só pegando, e é por isso que eu te digo, meu caro amigo, o problema não está no anel e sim na cabeça das mulheres, nunca sabemos realmente o que elas querem.” O caçador de mulheres em questão sempre aproveitava as situações em que atendia uma mulher bonita no seu camelô.
- A moça bonita sabe lê ?
Algumas, mais ignorantes, ou melhor, que o achavam repulsivo, não respondiam. Outras até respondiam mas fingiam ter pressa e não liam o “purema”. Uma meia dúzia chegou a lê-lo.
- Que lindo ! Foi você quem escreveu ?
- Iscrivi pr’ocê ! Uma lindeza di muié!
- Que gracinha ! Quanto custa aquele guarda-chuva ali, aquele grande, que cabe a família inteira...
As tentativas bem sucedidas se resumiram praticamente em diálogos xoxos como esse. Demorou quase um ano para conseguir uma mulher que fosse, mas essa...
- Eu tô emocionada! Nunca homem nenhum escreveu um poema pra mim antes. Que romântico!
- Quando botei os óio n’ocê, vi que era a muié da minha vida.
- Verdade?
- Qué casá co’eu?
- Como!?
- Qué?
- Assim, na lata?
- É, uai!
- Vou pensar no caso!
E pensou, deve ter pensado, mas pensou tanto que ainda deve estar pensando porque nunca mais apareceu para dar uma resposta definitiva a quem tudo era tão provisório. Mais um ano mais ou menos até conseguir uma com quem se casou. Sim, verdade, ele conseguiu uma mulher maluca o suficiente para cair naquela lábia tão fajuta. Mas se separaram tão logo ele descobriu ela não ser virgem. Era um cara muito exigente. A partir disso, passou a incluir mais uma pergunta entre as suas perguntas abusadas às mulheres que lhe compravam sombrinhas.
- Ocê é vrigi?
Claro que ele colecionou tapas, e de vários tipos ! Eram tapas rápidos e leves, ou tapas fortes que quase lhe arrancavam uma das maçãs podres que tinha no rosto, ou tapas freneticamente repetidos que faziam do seu rosto um tipo de pandeiro; alguns tapas estalavam rapidamente, outros ecoavam por algum tempinho, e havia tapas silenciosos, os últimos, pois ele já estava tão acostumado a elas que era como se não as sentisse, como se não as visse ou ouvisse, apenas as deletava da sua cabeça automaticamente. Foi quando ele teve que abrir uma exceção em seu conjunto de exigências. Algumas mulheres que ele considerava feias estavam doidas para desencalhar e eram virgens. Com essa disponibilidade delas, ele não teve como recusar.
DE SIGNO LITTERAE ‘I’
O filhote do machismo que queria tanto uma mulher que soubesse ler, fosse virgem e bonita, além de solteira, conseguiu a sua segunda esposa, que sabia ler, era virgem, era solteira, mas era feia. Mas não dá pra conseguir tudo que a gente quer na vida, não é mesmo? Porém, anos se passavam, e o camelô machista começou a estranhar uma coisa.
- Ocê tem certês que ocê pode tê fío?
Logo, fizeram, ou melhor, ela fez um exame pelo SUS, que comprovou a sua esterilidade. Foi um desgosto só para aquele sujeitinho tão exigente. E, por conta da sua exigência, se separou dela. Só podia haver uma exceção na lista de exigências.
- Já basta ocê sê feia ! Num quero muié istéri.
Diante de tudo isso, a puta bíblica só ria no fundo, no fundo. Ela, sim, era fértil que só ela mesmo! Fazia questão de mostrar para o seu amado que já tivera alguns filhos, acidentais, com os seus clientes descuidados, mas poderia lhe dar um filho não-acidental. Era só ele deixá-la ler o “purema”. No entanto, a lista de exigências, que deveria ser provisória como o seu dono, parecia mais definitiva do que nunca. O que deixava ela profundamente magoada, porque por ele seria capaz de largar a putidão e constituir uma bela família. Chegou até mesmo a tentar convencê-lo a recuperar todos os bebês que tinha doado a outras famílias, para que ele os adotasse e juntos formassem uma grande família. Nada mudava aquela resolução tão arbitrária do homem provisório, de conseguir uma mulher que soubesse ler, fosse bonita, mas nem tanto(a exceção, lembra?), fosse virgem, solteira e fértil. Se tinha alguma coisa que ele queria muito era poder chamar a um filhinho seu de “pingo do ‘i’ do papai”, não que ele soubesse o que seria isso, já que ele não sabe ler(também lembra?), mas era porque ouvia sempre uma de suas clientes do camelô, uma senhora bacana, chamar a sua netinha de “pingo do ‘i’ da vovó” e achava isso tão bonito ! Ah, e veio mais uma pergunta, daquelas que constrangiam as mulheres que iam ao camelô.
- Ocê pode tê fío ?
O que o surpreendeu era a quantidade de mulheres desovariadas. A cidade vivia uma epidemia de desovariações, e o irônico era que apenas mulheres que não se encaixavam na sua lista de exigências eram normais, isto é, ovariadas. Começou então a se formar uma nova faceta no homem provisório, a do pessimismo. Tudo começou com aquele poema, e achava que com ele sua vida iria mudar radicalmente. Entretanto, passaram se anos e tudo continua na mesma - era solteiro, analfabeto, sem família, pobre, e suportava um porco e uma puta em sua casa -, ainda provisório. Só queria que alguma mulher o fizesse definitivo. Era o que a puta queria fazer com ele mas ele não deixava. O camelô pessimista queria tanto uma mulher com ovários e ignorava completamente aqueles ovários que estavam diante do seu nariz, mesmo já tendo visto a puta com um barrigão várias vezes. E ela, propositalmente, desfilava pralá-pracá, quase uma bündchen, diante de seus olhos estéreis exibindo o barrigão lustroso.
SUS AD MERETRICEM
E quanto ao porco? Esse começou a ficar doente desde quando ganhava os presentinhos anais(as moedas, lembra?). Não conseguia cagar; por mais que tentasse, não cagava de jeito maneira. E o resultado era que tudo que comia vomitava. Mas ele viveu um bom tempo ainda assim, porque havia sempre uma região do seu intestino apto a absorver os nutrientes das lavagens que comia. E a parte do intestino que vivia entupida, o grosso e parte do delgado, só se enchia com mais e mais pratinhas de um centavo, de modo que o porco a cada dia que passava ficava um pouquinho mais obeso mórbido. Pelo seu ânus até podia sair alguma coisa, que se resumia simplesmente a alguns litros de pus. O camelô, quando tinha cara de anjo, gostava de ficar afagando o queixo do porco por horas e horas, mas, quando tinha cara de pau, esquecia-se completamente do pobre animal e não lhe dava a lavagem do dia; e quando tinha a sua cara de bunda então? - não suportava nenhum dos barulhos que o porco fazia nem os gemidos que a puta gozava, vivia xingando Deus(∞ - ∞) e o mundo. Neste ponto, é importante levar em conta a ligação que existia entre a puta e o porco. Ela não gostava dele, e nem ele dela, mas o que os ligava era a solidariedade que existe entre os que são rejeitados; no caso, rejeitados, cada um à sua maneira, pelo homem das muitas caras. Este, inclusive, vivia temendo um levante dos dois. E, de certa forma, isto acabou acontecendo. Um belo dia, quando o camelô estava em seu camelô, o porco, extremamente inchado, já no bico do urubu, fez uma grande bagunça na casa, derrubando móveis, os poucos que existiam ali, até que, sentindo um misto de alívio colossal e um súbito pânico de morrer, teve o seu intestino milagrosamente desobstruído, talvez por algum anjo bondoso que tivesse passado por ali no momento. E cagou, cagou como nunca cagara em sua vida, e dessa vez era uma caganeira valorosa, que tinha mais centavinhos do que cocô propriamente dito. No meio da bosta toda, ainda tinha muito sangue e pus. A puta estava distraída trepando com mais um desses rapazes recém-virgens no quarto, e quando abriu a porta deu um berro. O rapaz desmaiou. Ela, mantendo-se firme para não se render a uma ânsia de vômito, aproveitou a oportunidade para catar todas aquelas moedinhas. O cofre vivo quebrou. Encheu mais ou menos uns vinte saquinhos com a budunfa, desculpem-me - o word, maldito, nem pra me corrigir, hein! -, quis dizer bufunfa. Foi então que ela ficou extasiada ao perceber que o porco sem querer derrubara uma cômoda com muitos papéis em suas gavetas. Ela gostava de derrubar cômodas de uma certa forma também, mas o que deixou ela feliz foi ter visto, no meio daquele monte de papéis - pra quê?, se o homem lá não sabia ler! -, o “purema”. Ela teve algo próximo de um orgasmo múltiplo ao lê-lo, mas, passada a euforia inicial, a puta ficou puta, sentiu uma raiva homérica do poeta, o falso, não o verdadeiro. Aqueles versos eram definitivamente feitos sob medida para ela, e, no entanto, o pirata da cara de pau insistia em mostrá-los a outras mulheres. Logo, a puta bíblica resolveu sumir dali, para sempre, com todo o dinheiro que o seu algoz tinha juntado no cú do porco. Seria a sua vingança contra anos, décadas e séculos de indiferença. Não antes de ter rasgado o “purema” em mil pedacinhos, pulverizando-o, para que nenhuma outra mulher tivesse o mesmo orgasmo múltiplo ao lê-lo. E ainda fez o seu poema para o seu amor não correspondido; era na verdade um poema em prosa, carregado de muito veneno destilado desde muitas eras atrás. Deixou a sua carta de despedida em cima do porco, do corpo morto do porco, e saiu, para nunca mais voltar, sorrindo com o mais profundo escárnio da sua alma prostituta, porque aquela carta seria uma tortura para um analfabeto - ele demoraria muito até descobrir o que nela estaria escrito, e talvez até, por um cansaço muito na moda, desses que semeiam a provisoriedade de toda uma vida, nunca descobrisse o real conteúdo da carta, e, dessa forma, viveria até o último dia da sua vida com a angústia de tentar adivinhar o que aconteceu. E o porco, esse já devia estar comendo as lavagens das mãos de um são-pedro qualquer em um paraíso qualquer.
DE MORALE HISTORIAE
Colapso. O homem provisório quase teve um colapso.
- Ela matô o prôco?
- Quedê o meu purema?
- Ela matô o prôco pruquê leu o purema?
- O prôco comeu o purema e morreu?
- As pratinha sumíro ou aquela vaca catô embora?
Ele já estava velho, os cabelos grisalhos já não eram novidade, já eram raridade, perdendo espaço para os fios brancos, que também não eram muitos, porque o maior vilão na sua cabeça era a carequice. Parou de trabalhar, ficou sem ânimo.
- Onde é que vô infiá as muedinha agora?
Qual cú agora se habilitaria para isso? Percebeu tarde demais que a sua vida só tinha sentido diante das porqueiras do porco e das putarias da puta. Ficou se lamentando por muito tempo até que as necessidades falaram alto, e ele teve que voltar ao negócio dos guarda-chuvas pirateados. Foi então que reencontrou, para a sua surpresa, passando pela rua, o poeta(lá do início, lembra?). Ele estava numa cadeira de rodas, sendo empurrado por uma mulher, que poderia ser uma filha, uma esposa, uma enfermeira,... O camelô abandonou o camelô e seguiu o poeta. Alcançou o cadeirante e, para a sua surpresa, este não o reconhecia de forma alguma. Descobriu pela boca daquela mulher indefinida que o poeta sofrera um AVC, o popular derrame, e que, por conta desse quadro, ele perdera boa parte da sua memória. O poeta já não escrevia poemas, não só por conta da perda de memória, mas também porque já não conseguia mais escrever - perdera o movimento da mão direita, a qual usava para compor suas pérolas. E não adiantaria insistir que ele nunca conseguiria se tornar canhoto, porque esse negócio de “gauche na vida” só funciona com alguns poetas. Mas o cadeirante podia falar, e isso já trazia grandes esperanças ao usurpador de poetas. O sujeitinho ainda não havia desistido da idéia de fisgar alguma peixona com uma isca poética. Deixava o extremamente atemorizado a idéia de terminar a sua velhice sozinho sem ter uns pés femininos e quentes com que se esquentar nas noites frias debaixo do edredom.
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a t
ev
o
“
Isso foi o que sobrou do ilustre poema que deu início a esta narrativa. O ex-poeta começou a ser assediado todos os dias pelo usurpador para que tentasse se lembrar do resto do “purema” que completava este pedacinho, mas ninguém podia adivinhar as palavras e frases que completariam aquele pedacinho rasgado, amassado e sujo de papel. O cara de pau insistiu, insistiu, insistiu até ver que o poeta já não era mais poeta. E o seu chão caiu mais uma vez. Aquele era aquele, aquele poeta lá do começo, mas não era mais. Como podia ser? Pelo menos ainda falava. E poderia falar um “purema”, até um outro diferente, mas não tinha mais cabeça para fazer “puremas”. Foi quando a única coisa que restou ao camelô fazer era um longo e patético desabafo.
- Ô, puréta, as muié dôji num qué nada co’nada ! E quano qué, num pódi tê fío ! Esse muno tá virado memo, é só tristeza !
- (com o canto esquerdo da boca) - Seu coração está cheio de flechas de chumbo !
- Frécha di chumbo? Quê qué isso?
- (com o canto esquerdo da boca) - O cupido disparou flechas de chumbo no seu coração !
- Quem?
- (com o canto esquerdo da boca) - O cupido, o anjo cupido. Nunca ouviu falar no anjo cupido?
- Anjo cuspido!? É o capeta, num é? O capeta num é um anjo que foi cuspid’ucéu?
- (com o canto esquerdo da boca) - Não, o capeta é um anjo caído, e o cupido, não cuspido, é o anjo do amor!
- Ocê acabô de falá um purema, num falô?
- (com o canto esquerdo da boca) - Poesia a gente não faz nem fala assim, numa conversa qualquer, a gente não pode tirar da orelha.
Mas o inválido ainda podia ler. Foi depois de muito tempo que o flechado atinou para esse fato e, então, mostrou ao velho amigo, pelo menos conhecido, a carta que restara da maldita puta. O cadeirante, ao lê-la, hesitou, ficou sem graça, tentou fingir ler outras frases, mas não conseguiu, e a leu do jeito como fora escrita. Pausava em certos trechos, mas o destinatário dela, com monstruosa ansiedade, queria descobrir aquelas palavras tão traiçoeiras e, praticamente, implorava de joelhos para que o outro a lesse dizendo tudo tin-tin por tin-tin. A puta dissera que, ao contrário do que sempre afirmara, todos os bebês que tivera, os jogara em latas de lixo e não os entregava a famílias adotivas. Até aí, tudo bem! A coisa ficou preta quando veio uma atordoante revelação. Ela tivera um filho do analfabeto(de quando ele perdeu a virgindade, lembra?), e este filho recebera o mesmo destino dos outros bebês: a lata de lixo. A puta só queria ser vista pelo homem provisório como uma mulher capaz de gerar filhos, capaz de ser esposa e mãe, mas só era vista por ele como uma puta sem direito a ser esposa ou mãe. Ela só sofrera de fato o abandono desta criança, porque era filha do amor que tinha por ele, e estava disposta a se redimir por todos os bebês que descartara, procurá-los-ia um por um e disponibilizar-se-ia a até, quem sabe, montar um orfanato para os próprios filhos rejeitados. Tudo isso poderia ter acontecido, tudo poderia ter sido diferente, se ele tivesse lhe mostrado o “purema”. Neste instante, o pai acidentalmente ausente se encheu de lágrimas nos olhos, e se sufocou com um nó na garganta. Passaram se tantos anos, tanto tempo, que seria impossível para ele reencontrar, ou melhor, resgatar o seu filho. Foi quando percebeu que tudo na sua vida poderia ter sido diferente se tivesse tomado a simples e generosa atitude de ter mostrado o “purema” à puta. Hoje seria feliz, porque teria uma esposa, um filho, que poderia ter chamado de “pingo do ‘i’ do papai”, não seria mais camelô, seria rico, com o dinheiro do cú do porco, e quem sabe até não fosse mais analfabeto, já que a puta, que seria uma ex-puta, poderia ter lhe ensinado a arte de ler e de escrever. Mas, por outro lado, se ela fora tão capaz de jogar os próprios filhos na lata de lixo, isso mostra que ela não seria uma boa pessoa. Por fim, no meio da sua infelicidade nada provisória, o homem se perguntou, existencialmente, o porquê de não ter incluído entre as suas exigências(a lista, lembra?) o bom caráter de uma mulher. Será que é porque ele, no fundo, no fundo, não é também uma má pessoa? E, como um gesto desesperado, de quem ainda quer transformar pelo menos uma ínfima parte de uma vida provisória em algo definitivo, saiu correndo por todos os cantos das ruas e dos bairros da cidade para revirar as latas de lixo, foi às demlurbs que existem por aí, aos lixões dos salvaterras, para ver se encontrava pelo menos um resquício do filho que perdera, uma placenta apodrecida.
E, sem poeta, sem “purema”, sem porco, sem puta e sem “pingo do ‘i’ do papai”, o revirador de lixos percebeu que toda a pequena e provisória utopia na qual vivia era na verdade uma grande e definitiva distopia. E o poema em prosa da puta começava assim: “Se você visse um bicho numa jaula! Você saberia de que lado dessa jaula você estaria?” E terminava assim: “Nunca houve eu em sua vida, só a porra de você.” E todos viveram infelizes para sempre.
Jackson Leocádio
Publicado no Recanto das Letras em 01/11/2009
Código do texto: T1899906
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