Eles Me Chamam de Corrompido
por Gustavo "Pango" Diógenes de Oliveira
“Para que lutar? Pela homogeneidade de pensamento? Para dominar? Ser poderoso?
Ora, que tal viver para corromper? Que tal viver pelo mero viver?”
Planeta Acáci, num sistema solar binário ainda não catalogado pela espécie Homo sapiens, galáxia NGC 5866.
289 anos após a Décima Sexta Catástrofe, vulgo, o Fim de BaohBah.
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Primeira Parte
Imponente, soberana, indiscutível, lá estava a grande árvore, observando todos que viviam no seu vasto reino.
Seu olhar penetrante e firme percorria todos os seres, répteis, anfíbios, mamíferos, insetos, peixes. A ela subordinados, tinham seus destinos inscritos em suas folhas brancas e imaculadas.
O sol lentamente se levantava, trazendo consigo mais um feliz e prazeroso dia.
Os animais começavam também a se levantar, esfomeados.
Baratas carregavam terra em suas pequenas costas. Cães, além de terra, traziam pedras na boca. Aves transportavam pedras nos bicos e peixes levavam-nas para a superfície. Vacas transformavam grama em adubo, todos trabalhando em conjunto, visando somente um objetivo: alimentar a mãe-árvore.
Assim que os pesados carregamentos tocavam as frias raízes da árvore, desapareciam, absorvidos pela esfomeada árvore. O fruto do seu árduo trabalho sendo usado para uma boa causa - era o que pensavam os carregadores.
Horas após, a árvore se satisfazia. Todos assistiam, entusiasmados, os sinais que diziam que a árvore não mais necessitaria de alimentos.
O vento soprou forte, e os fortes e grossos galhos da árvore balançaram. Deles caiu somente uma única folha branca.
Lentamente ela percorreu os cento e setenta metros que separavam o galho do chão. Cada segundo mais doloroso que o outro para todos os presentes, cada segundo mais longo que o anterior.
Quando faltavam somente cem metros, virou o vento, e a folha que cairia na multidão foi extraviada. Fora do seu curso, perdeu o objetivo que nunca tivera.
Filhotes choraram. Hoje, a folha abençoada não escolheria ninguém para ser abençoado.
O vento soprava cada vez mais forte, e a folha se distanciava da multidão, indo em direção ao único ser que não acompanhava a celebração.
Porém, o vento não foi o suficiente. Longe demais estava o ser corrompido, longe demais.
Ela caiu no chão, faltando apenas vinte metros para atingir seu alvo.
Friamente, o ser corrompido olhou a folha cair. Sabia que não seria atingido. Seus olhos negros acompanharam cada movimento, até que ela finalmente tocara o chão.
A folha imaculada, assim que tocou o solo, escureceu. Corrompida, não atingiu seu alvo, mas serviria como indicação da sua posição.
Frio, sem emoções e focado estava o corrompido, não temia seu destino...?
Sua fachada quebrou, seu medo apareceu, emergiu, não adiantava esconder sua verdade.
Fitou a folha.
Fitou seu destino.
Não, ainda não era hora, ele ainda era muito fraco.
Virou-se e mergulhou nas águas profundas e negras da sua revolta.
Conforme se aprofundava, sussurrou seu mantra.
Os fortes não precisam de um ídolo.
Alguns minutos depois, os primeiros animais avistaram a folha corrompida, negra como a noite.
Desapontados, porém esperançosos, continuaram com a busca pelo ser corrompido. Eles tinham que encontrar o último corrompido, o último que faltava para criar o mundo perfeito, o mundo lindo, planejado eras atrás pela mãe-árvore.
Tinham que retribuir o favor da mãe e realizar seu sonho.
Seu sonho especulado perfeito.
A mãe-árvore fitou o último ser corrompido; nem a água, nem a terra, nem as nuvens do céu podiam enevoar sua visão perfeita e inquestionável. Ela o avistou.
O viu nadando para as profundezas. No dia seguinte, ela o pegaria. Se falhasse, o pegaria depois. Continuaria tentando, até que todos os corrompidos estivessem mortos.
Tudo pela sua utopia.
Segunda Parte
Horas depois, os animais desistiram da busca. Já era tarde, o ser corrompido havia fugido.
Os responsáveis pelas buscas voltaram à mãe-árvore, pediram perdão, e a única resposta foi um longo e arrastado grunhido. Todos sabiam seu significado, e quando o ouviram, relaxaram aliviados.
Hoje ela estava especialmente forte, sacrifícios não seriam necessários.
Porém, alguns animais não relaxaram de fato: os animais da terra.
A folha antes-imaculada-agora-corrompida havia caído na terra, o que significava que o corrompido estava na terra. Mas todos os terrestres estavam presentes na cerimônia, nenhum foi encontrado fora dela. O que estava errado?
-Mãe-árvore, por favor, seja mais específica! Por favor, necessitamos da sua sabedoria para realizar seu sonho! – gritaram.
A árvore novamente grunhiu. Não mais tinha a energia necessária para falar. Os corrompidos haviam sugado quase tudo.
Os filhotes choraram. Quando o corrompido finalmente se mostraria, quando ousaria mostrar sua cara imunda para finalmente confrontá-los? Por que se esconde, ó corrompido? Por que nos atrasa, por que nos faz sofrer com sua maldade profunda e natural?
Enquanto todos odiavam o corrompido, ele nadava pelas profundezas, abaixo da terra, abaixo de todos e de seus olhares, perguntando-se as mesmas coisas e muito mais.
Por que sou fraco? Por que não os confronto? Por que os atormento com minha existência? Por que não sou como eles? Por que não me entendem? Por que vocês não me aceitam?
Continuou nadando para as profundezas, suas profundezas, procurando sua alma, procurando sua força interna, procurando seu motivo, e uma solução.
Finalmente, parou. Olhou para cima, não mais via a luz do sol. Tinha que voltar, ou morreria sem ar. Não mais agüentava suas próprias profundezas, cruel demais ele era. Não podia se suportar.
Pulou; Respirou;
Emergiu; E
Nadou; mergulhou
Nadou; de
Nadou; n
Nadou; o
Nadou; v
Nadou; o
Nadou... .
mesmo, .
si .
de
Fugindo
Fraco, ele era fraco.
O que o motivava?
O que o impedia de desistir?
Fechou os olhos, e mais uma vez mergulhou na escuridão, temendo que, dessa vez, se tornasse parte dela.
Dessa vez, fechou sua voz. Não poderia falar.
Fechou os olhos. Não poderia ver.
Fechou-se para o mundo completamente, e entrou em si mesmo. Olhou sua e vida e morte, fitou seu destino inexorável, e viu a origem da sua pura e indiscutível crueldade.
Dentro de si, estava um filhote, curioso, questionador e egoísta.
O filhote olhou para ele e perguntou.
Perguntou de novo.
Mais uma vez.
Continuou perguntando.
-Quem é você? [Para que lado você lutará?]
-Calado! – gritou o corrompido.
Tentou acertar o filhote, estraçalhá-lo, destruir tudo o que um dia poderia dar vida a ele, e tudo o que um dia dera.
Não, o filhote era forte demais, e o empurrou de volta.
-Quem é você?[A quem se juntará?]
Tentou mais uma vez. Novamente falhou, bateu de cara no escudo que o filhote projetara.
-Quem é você?[Você quer ser como eles?]
A cada segundo que se passava, a voz do filhote mais macabra e grossa ficava. Seu corpo crescia, e seus olhos escureciam.
Em pouco tempo, o filhote estava igual ao corrompido, em todos os aspectos.
-Quem é você?[Você se odeia?]
O corrompido cedeu e começou a afundar, chorando. Suas lágrimas se misturavam à água que o rodeava, lágrimas insignificantes num mar de diferenças.
Com muita dor e dificuldade, o corrompido, agora não mais diferente do filhote, admitiu a verdade inadmissível.
-Eu sou... Você...[Entre tantos, sou você.]
O filhote, que não mais era filhote, sorriu.
-Sim, mas quem sou eu?[Quem, de tantos em você, sou eu?]
Mais lágrimas saíram dos olhos do corrompido. Lágrimas insignificantes de uma dor patética.
-Eu... Sou aquele que quer ser como os outros...[Sou aquele que quer voltar para trás. Aquele que quer esquecer as verdades que descobriu. Quero negar minha existência como um indivíduo.]
-Não.[Eu não sou essa parte. Somos tantos, e apenas um. Eu te asseguro; não sou esse.]
-Eu... Eu sou aquele que quer ser desculpado...[Eu quero esquecer. Quero voltar à doce ignorância.]
-Não.[Você não é apenas isso. Há mais em você do que deseja mostrar.]
[Você tem medo
de ficar sozinho?]
Mais uma vez, a verdade obscura brilhou sobre ele.
Seus olhos negros brilharam na própria penumbra. As lágrimas pararam de sair, e ele fitou-se a si mesmo.
-Eu sou aquele que ousou.
-Ousou o que?
-Ousou questionar.
O filhote sorriu, e se juntou ao corrompido. Finalmente eram um só, não mais partes de um único dividido. Agora eram o único. O único que desafiara tudo e todos com sua maldade e crueldade, que queria destruir os sonhos e que queria quebrar o mundo.
O único que restava dos que duvidaram.
A árvore-mãe gemeu, o vento soprou forte, e uma folha caiu. O vento logo a carregou em direção ao corrompido, muito mais rápido que as outras.
A pressa e urgência despertaram forças que a árvore desconhecia.
Entretanto, antes de sequer aproximar-se da água, foi cortada pelo vento e coragem.
Muitos viram a folha cair da copa da árvore, mas ninguém a viu sendo destruída. A distância percorrida assegurou isso.
Ainda não era hora, não estavam prontos para isso.
Fraco o corrompido não era mais, mas ainda lhe faltava algo.
O filhote logo disse a verdade óbvia.
-Precisamos de aliados!
-Precisamos corromper alguém.
-Mas quem será o primeiro?
Terceira Parte
A cada dia que se passava, a mãe-árvore enfraquecia, cada vez mais doente.
Nos primeiros dias, a terra e as pedras ficaram cada vez mais pesadas e menos nutritivas.
Não mais forneciam a energia que a mãe-árvore necessitava.
Vagarosamente,enfraquecia.
Depois, parou de responder. Não mais grunhia, não mais gemia. Suas folhas cada vez mais lentas, mais finas, mais negras.
Não mais voavam com a antiga graça, não mais exalavam a antiga energia.
Lentamente, enfraquecia.
Suas raízes perdiam o brilho, seu tronco descascava.
Enfraquecia.
A cada dia que se passava, menos animais participavam da coleta de terra e de pedras. Para onde eles foram?
Ninguém sabia.
Lentamente, ela enfraquecia.
Enfraquecia.
Enfraquecia.
Enfraquecia.
Até que, em certo dia, todos viram o que temiam.
Depois de horas levando terra e pedras, a árvore grunhiu, e soltou a folha do dia.
Ela flutuou desengonçadamente, pesada, e depois foi cortada pelo próprio vento. Os dois pedaços da antiga folha foram então cortados novamente, até que nada mais restava dela.
Todos observaram perplexos e temerosos o espetáculo.
Todos choraram.
No dia seguinte, o sol raiou, e todos viram o corrompido na frente da árvore.
Cada um fitava o outro, analisando mutuamente suas almas.
Atrás do corrompido, estavam os animais desaparecidos, todos apoiando seu novo líder.
Antes que os animais que apoiavam a mãe-árvore tivessem chance de atacar, começou a batalha mental entre a imaculada e o corrompido.
-Você traiu suas origens.
-Não traí nada nem ninguém, minhas origens são outras, nunca estive do seu lado.
-Seu ingrato, depois de tudo que fiz por você!
-Você nada fez por mim, nada fez por ninguém. Tudo o que fez foi matar os corrompidos que agora sucedo.
-Você está apenas se enganando.
-Você está enganando os outros, não a mim.
-Você é um assassino. Tudo que fará na sua vida será matar as esperanças e sonhos de todos.
-Então, como o assassino que sou, dou início ao meu reinado de sonhos quebrados, matando a ti.
-Não...
-Você não existe, nunca existiu. Mato agora somente sua lembrança.
-Eu existo...
-Somente nas memórias dos fracos iludidos.
-Eu criei... -Você foi criada...
-Vocês... -Por nós.
-E agora... -E agora, corrigimos nosso erro.
Naquele instante, todos ouviram o nojento e assustador barulho do fim da mãe-árvore.
-Que haja esperança. – disse o corrompido, iniciando a Era da Esperança.
FIM
Gustade Pango de Oliveira
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1901642
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