Texto

Lítio

Eu encontrei Deus. Ele mora num comprimido amarelo.
Eu vejo as velas crepitarem. Eu vejo girassóis flutuando na banheira. Eu canto e danço rapsódias profanas entre anjos de luz. Parece que estou no paraíso, e nem morri ainda. Ou pelo eu acho que ainda não morri – quem me garante que tudo não passa de uma grande ilusão?
Eu acho que nunca me senti tão feliz na minha vida. Nunca. E já tive meus momentos, grandes momentos. Mas nada como o que eu estou sentindo, nada como essa sensação deliciosa que percorre cada veia, cada célula, confundindo meu cérebro. Muito melhor do que qualquer orgasmo múltiplo, qualquer droga que possa existir ou ser imaginada, qualquer prazer mínimo.
Eu vivo num mundo onde não existe dor, onde não existe medo, onde não existe treva. Eu vivo permanentemente entre luzes coloridas e holofotes. Eu vivo onde os outros mortais não podem chegar sem emuladores. Eles só alcançam uma luz pálida, falsa, uma ilusão. Eu vivo tudo muito mais brilhante, e sei que é real (pelo menos para mim...), sem precisar de fatores externos que podem atrapalhar minha saúde. Eu não sei o que é a tristeza (até que o lítio aja no meu cérebro).
Eu só conheço a dor, o medo, o escuro quando o efeito passa (como drogas). Aí eu vivo sempre a sete palmos do limite entre o céu e o inferno. Não posso suportar o cinza em todos os lugares. Não consigo nem me mexer, me alimentar. Fico esperando que a inanição traga a salvadora morte. Normalmente ela não vem. Demora um pouco até que eu me recupere e retorne aos girassóis. Aí, parece que eu estou num quadro de Van Gogh. Ou de Monet. Ou de Miró. É sempre algo surreal, inacreditável, e eu amo tudo isso. Eu amo viver nessa fantasia sem fim e cor. Até que a pílula amarela faça efeito, é claro.
As outras pessoas não conseguem entender. Não consigo explicar. Ninguém parece pensar como eu que é realmente maravilhoso viver num quadro impressionista/abstrato. Não por quê. Mas também não posso entender por que essas mesmas pessoas se contentam em viver no meio do concreto acinzentado e satisfazem sua necessidade de cor e emoção e ilusão com a TV e o cinema hollywoodiano. Por isso eu me esforço para ao menos aceitar que existem diferenças entre eu e quase todo o resto do mundo. Mas não gosto que me rejeitem porque não vivemos no mesmo mundo, e não pretendo deixar minhas cores e a sensação inebriante de prazer.


Não – eu não vou enlouquecer eu não vou enlouquecer eu não vou enlouquecer eu não vou enlouquecer eu não vou enlouquecer
Eu queria morrer para acabar com a dor...
Eu adorei te conhecer, pequeno comprimido amarelo, casa de Deus!


Foi bom você pensar no espelho quebrado, você deforma a imagem mas por fora permanece quase inteiro, só que o espelho também racha você, principalmente por dentro, onde ninguém (nem você) consegue entrar, aí não dá para tentar remendar os caquinhos que o espelho mostrou numa imagem que não é real, tudo se resume a uma grande ilusão (de ótica), e você nem percebe que na verdade nem está olhando a si mesmo no espelho, mas outra coisa com olhos iguais aos seus e mãos invertidas em relação às suas e está no tabuleiro de xadrez situado além da superfície refletora de prata que você nem sabe que existe protegida pelo vidro, tolinho! nem sabe que não existe um mundo de verdade, apenas aquilo que seus olhos cegos conseguem/querem ver e seu cérebro consegue/quer interpretar, e nada é real além do que você não vê/entende... Nem mesmo existe um espelho rachado, ou você...


Eu vou quebrar tudo para me tornar bonito de novo... Não sei o que será de mim quando o lítio acabar...
Bárbara Rocha
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1907428

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Comentários
05/11/2009 22h55 - Edson Laureto
Grande texto! É um soco na boca do estomago. Porrada pra valer. Se é o lítio que te faz criar essas coisas, mantenha-o sempre por perto...

Sobre a autora
Bárbara Rocha
Divinópolis/MG - Brasil, 19 anos
17 textos (285 leituras)
1 e-livros (11 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 09:16)

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